sábado, 31 de maio de 2008

DEATH VALLEY,CALIFORNIA

Imagem retirada do Flickr,by James Gordon
Imagem retirada do Flickr,by James Gordon

Imagem retirada do Flickr,by James Gordon


Imagem retirada do Flickr,by Walt K



Imagem retirada do Flickr,by James Gordon




Imagem retirada do Flickr,by Walt K





Imagem retirada do Flickr,by James Gordon






UMA SANGRIA

Não tinha havido invasão de gente bárbara,não tinha havido guerra,mas eles aí vinham em magote,homens,mulheres,crianças,pejando caminhos,amontoando-se em salas de espera e nas plataformas das estações dos comboios. O que os movia? Era a fome,simplesmente. Não tinham nada,a não ser a força dos seus braços e iam vendê-las.
Nas suas terras, não havia quem deles precisasse,mas lá mais para baixo,onde se estendiam searas a perder de vista, e vinhas e olivais de muitos milhares de pés,contavam com eles e já estavam à sua espera. Eram menos exigentes,sendo ,assim, os preferidos. É a luta pela vida. Ficavam ainda muito agradecidos.
Lá se arranjavam como podiam. O que era preciso é que no fim,quando do regresso,sobrasse alguma coisa de jeito,de modo a ampará-los no resto do ano. A palavra de ordem seria,pois, poupar,mesmo em coisas essenciais.
Andaram nisto anos e anos. Era a ignorância,o alheamento. Não lhes ocorria outra saída. Mas um dia,alguém deu aviso. Olhem que há para aí uma maneira de a gente se arranjar melhor. Dizem que em França e noutros países há para lá muito trabalho e ganha-se mais. Vamos lá experimentar. Foram,gostaram e foi uma sangria.
As condições,no começo,não foram lá grande coisa,mas a isso estavam eles bem acostumados. Mas melhoraram com o tempo. Assim,valia a pena,diziam os coitados,com alguma mágoa. Sim,porque aquilo não era a sua santa terrinha. Havia que ter paciência,que era o que não lhes faltava. Voltariam um dia,de vez,quando amealhassem coisa que se visse.

LENDAS DA INDIA

Biblioteca Nacional Digital
Por Gaspar Correa
Publicadas de Ordem de Classe de Sciencias Moraes,Politicas e Bellas Letras
Da Academia Real das Sciencias de Lisboa
e sob a Direcção de
Rodrigo José de Lima Felner
Socio Effectivo da Mesma Academia
Obra Subsidiada pelo Governo de Portugal
Livro Primeiro
Contendo as Acções de Vàsco da Gama,Pedralvares Cabral,João da Nova,Francisco de Alboquerque,Vicente Sodré,Duarte Pacheco,Lopo Soares,Manuel Telles,D.Francisco d'Almeida
1854
Varatojo

O AMOR EM PORTUGAL NO SÉCULO XVIII

De Júlio Dantas. Na Biblioteca Nacional. Edição da Livraria Chardron,1917. 368 páginas. Com ilustrações de Alberto de Sousa.
Era fresco o amor em Portugal,nesses belos tempos.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

OS LUSÍADAS

Biblioteca Nacional Digital. Edição de 1572. Lisboa:em casa de Antonio Gõçaluez.

PORQUE SÓ AGORA?

A coisa vai ser posta nestes simples termos,que a mais não se chega. A fome tem sido companheira fiel de muita gente,desde há muito. Pode dizer-se que é um problema velho,uma calamidade. Para o resolver,a sério,parece não ter havido propostas à altura. Por outro lado, a preocupação com os efeitos dos gases de estufa é,pode dizer-se ,um problema de hoje,e,segundo alguns,de urgente solução,pois toca a todos,com fome ou sem ela. E esses alguns têm-se envolvido nele com entusiasmo,de tal modo,que parecia terem contaminado mesmo alguns dos mais cépticos. Pois,agora,talvez aproveitando o alastrar do espectro da fome,pelas mais variadas razões,no entender de certas altas personalidades,incluindo Prémios Nobel,essa preocupação ambiental deixa de ser prioritária,mas sim o combate à fome,tanto quantitativa,como qualitativa.
Mas porque só agora se quer dar primazia a esse combate,se a fome tem sido sempre um flagelo de bradar aos céus? É que, estando certos os inimigos do CO2,e deixando-o muito sossegadinho,sem o apoquentar,arriscam-se todos,mesmo que de barriga cheia,com todas as vitaminas e todos os sais minerais,a uma morte certa,antes do tempo.

O LOBO E A OVELHA

O lobo estava muito velho e achacado. Já não podia andar na sua vida como antigamente. Por sorte,tinha amealhado o suficiente para não trabalhar. Teria morrido de fome. De vez em quando,saía da sua toca para dar um passeio ou ir às compras. Acabara naquela altura de se abastecer e descansava um pouco,pois os sacos pesavam.
Quem é que havia de lhe aparecer? Uma ovelha,ainda activa,mas um tanto gasta,com quem,em tempos,tivera um caso. Lembrava-se bem dela,mas ela não o reconheceu. A ovelha era muito comunicativa e deu-lhe para parar e pôr-se ali à conversa.
Então,já está reformado?,assim como que a insinuar que gostaria de estar como ele. Já lhe custaria a andar para ali de um lado para outro,a fazer pela vida. Pode-se saber com quem estou a falar? Olhe,sou o lobo que quase a ia comendo numa tarde de inverno,há muito tempo. Mas iso era coisa passada,de resto sem consequências de maior. Tinha sido,até,uma mera brincadeira,só para aquecer. Ele ia lá fazer-lhe mal.
Tão confiada ficou a ovelha que lhe ofereceu a casa. Se lhe calar um dia,terei muito gosto em o ter lá. Moro ali adiante,quase no topo,por causa das vistas. Não se sabe porquê,mas ao lobo nunca calhou.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

OUTROS OS TEMPOS

Ainda acreditaram que tinham virado a proprietários,mas aquilo foi sol de pouca dura. Mesmo assim,estavam cheios de sorte,pois as rendas que lhes exigiram eram modestas,coisa para amigo. Não viessem herdeiros mais exigentes.
Eram aqueles hortejos umas ricas fontes de mimos. Ele era batata e cebola. Ele era fava e ervilha. Ele era tomate. Ele era frescura,que ali bem perto corria uma vala sempre cheia de água.
De velhos braços vinha toda aquela riqueza. Só pediriam que os deixassem andar ali até não poderem,o que não estaria longe. A vitalidade,as cores que ainda mostravam àquele entretém o deviam.
Mas quando já não pudessem,tudo aquilo morreria. Converter-se-ia em matagal. Que os novos não estavam para os imitar. Tinham outros passatempos,pois outros eram os tempos.

OUTRO ILUMINADO

Eram quatro a opinar. Três,lá disseram da sua justiça,com simplicidade,como a dar a sua humilde contribuição para uma obra que se afigurava de alta complexidade. Chegou a vez de se ouvir o outro,que se guardara para o fim.
Podia ter feito o ponto da situação,à maneira de um professor,que talvez fosse ou desejasse ser,e acrescentar mais alguma coisa da sua ciência. Mas não.Tudo quanto escutara soara-lle a velho. O cerne da questão não tinha sido beliscado,nem de longe,nem de perto. Era isto mais uma confirmaçãode que só ele via claro,de que só dele viria a resposta certa.
Outro iluminado. Estaria convencido de que tinha uma missão a cumprir e de que a sua mensagem era única,inteiramente da sua lavra.

O SEU FAROL

Parecia ter o rei na barriga,sempre com um ar muito sério,muito importante. Fora isto e mais aquilo. Deus,Pátria e Família tinha sido a permanente divisa da sua longa vida,desde os seus primórdios,desde que começara a sentir-se como gente. Dera-se muito bem com ela. Assim fizessem todos.
Servira a Pátria com a maior das entregas,sem regatear sacrifícios,sem hesitações,na linha da frente,de peito descoberto,zelando continuamente pela integridade e interesses dela. Fora isso reconhecido e devidamente compensado. Considerava-se um homem satisfeito,realizado.
Estava ali,naquela altura,a gozar dos rendimentos,mas sem esquecer,um segundo sequer,o lema que sempre o norteara,o seu farol. A Pátria dispensara-o,talvez a muito custo,mas ele mantinha-se-lhe fiel. Continuava servindo-a,através da Família e de Deus. Cuidava da mulher como se tratasse de uma flor muito delicada. Cuidava de Deus como se fosse um Seu ministro.
Contava,assim,figurar,um dia,entre os eleitos,bem na linha da frente.

PEIXE GRAÚDO

Ai os velhinhos,ai os doentinhos. Cairam,hoje,dois na rede. Ia-se a rede rompendo. Era peixe graúdo.

Ele ia a andar muito devagarinho,como que temeroso. Estaria para fazer alguma viagem. Levava uma mala, pequenina,tal qual ele,levava gabardina,levava dois chapéus,um,na cabeça,e o outro,para a chuva,que andava a rondar,levava-se a ele.

Então,já lhe vai custando? É desta humidade,que não nos larga a porta. A mim também me vai acontecendo o mesmo e devo ser mais novo. Ora se era. Ele já contava noventa e sete. Devia estar com pressa para apanhar o transporte,talvez o comboio.

O outro,fazia bicha,por causa da senha para o passe. Mais dois dias,e lá acabava o mês. Este,só contava cinquenta e sete. Muito magrinho,muito amarelinho. Apoiava-se em duas canadianas. Fora a malvada de uma doença,uma doença ruim,muito rara. Quer passar à frente? Não era preciso,podia esperar. Sabe,passo a maior parte do tempo sentado. Está reformado? Sim,é o que me vale.

Ainda há quem vaticine,ainda há quem queira que o Estado-Providência se suma. Para quê? Para se voltar ao passado,ao passado da mão estendida,das bichas à porta deste ou daquele? Só de quem se sente seguro para sempre,o que não abona muito a seu favor. Sabe-se lá o que acontece amanhã,ou melhor,no próximo segundo?

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A VAIDADE DEPURADA

Imagem retirada do Flickr,by Goooflex
Imagem retirada do Flickr,by dee r

Imagem retirada do Flickr,by lightgazer


Imagem retirada do Flickr,by Kelpie1



Imagem retirada do Flickr,by Hamed Saber




Imagem retirada do Flickr,by vigilant20





UM PRETEXTO

O contraste era evidente. Ele,alto,para o forte,com mais de quarenta. Ela,baixinha,um tanto gorda,à roda dos vinte. Podiam ser pai e filha. Ela entrou e ficou encostada à janela,de pé. Ele aproximou-se,do lado de fora,e teve de se inclinar para se beijarem. Tinha serviço na segunda-feira,não sabia se no Algarve ou no Norte. Depois,digo-te. É que podíamos ir os dois. Arranjavas um pretexto,mas temos tempo.
O contraste ganhava novas dimensões. O comportamento dele não condizia com o dela. Ele,bem disposto,descontraído,falando alto. Ela,acanhada,falando baixo.
O comboio afastou-os. Quando saiu,ia de cabeça a olhar o chão,ao peso não se sabe de quê. Quase a correr,foi comprar tabaco. Talvez o fumar a levasse a cozinhar uma desculpa para a longa ausência. Que inventaria nas ocasiões seguintes? A cabeça,pequena para corpo tão avantajado,manteve-se sempre inclinada,enquanto esteve ali à vista.

PERIGOSO CLANDESTINO

Vinha só por uns meses e não estava usando uma via ilegal. Utilizava um avião da carreira e não um particular,e muito menos um qualquer processo a salto. Em bicha ordeira,lá se apresentou,com o passaporte na mão,ao porteiro. Devia estar o senhor com uma enorme vontade de conversar e aproveitou aquele intruso. O interrogatório parecia não ter fim. Queria saber,sobretudo,onde ele se alojaria,se trazia os bolsos com muitas libras,pois Sua Majestade a Rainha não estava nada disposta a manter vadios. Foram dadas explicações,mas o senhor não havia meio de se dar por satisfeito. Esteve o caso mal parado. A certa altura,deu mesmo a entender que estava disposto a não o deixar entrar.
Não sabendo mais o que mostrar,lá se lembrou de uma carta,que se julgava sem importância. Não se sabe o que é que o homem encontrou nela para mudar de disposição. Ainda bem,porque ali à volta já o olhavam ,desconfiados,julgando,talvez,ser ele um perigoso clandestino.
Finalmente,lá viu a porta aberta,mas com uma advertência. Logo que se instale,apresente-se à polícia. Foi o que fez,não fosse o diabo tecê-las. Mas esta desagradável experiência serviu-lhe para ele imaginar o que se deve passar por essas muitas fronteiras do mundo.

INOCENTE PASTOR

Uma manhã,por sinal,uma muito fria,de bater o queixo,o velho pastor deu com uma ovelha que lhe pareceu não ser do seu redil. Os seus olhos,muito cansados,não lhe permitiam já lá ver muito bem. E passou por ela mais duas ou três vezes,como que a confirmar. E a certa altura ,não se conteve, e fez-lhe um inquérito. Quem era,de onde tinha vindo,onde morava? Devia ser ovelha,coitada,a precisar de amparo. Acabara de chegar e podia perder-se,que por ali havia montes de perigos. Muito em breve a iria visitar.
E uma noite,uma noite gelada,de ficar em casa,à lareira,o velho pastor lá apareceu,a cumprir o prometido. A sala estava cheia,pois ninguém se atrevia a pôr a cabeça de fora. Muito preocupado com aquela ovelha,não descansaria enquanto não descobrisse, entre toda aquela gente, o orientador certo para ela. E julgou ter descoberto. O moço tinha todos os requisitos para isso,no seu entender. O eleito concordou,com grande alegria do inocente pastor.
Aquilo foi uma risota pegada quando ele se retirou. Ficava bem entregue aquela ovelha. O moço era o conquistador mor lá do burgo e arredores.

FORÇAS DA NATUREZA

Uma princesa,lá,há muitos anos,uma rainha,cá,ainda há pouco,duas dignas representantes das suas estirpes.
Lá,colhia dendém,espalhado no chão. Que serenidade,que distinção. Serviam-na um rancho de crianças muito alegres. Eram as suas aias. Um rio de águas verdes e mansas corria a seus pés.
Cá,ela não trazia séquito. Mas em qualquer momento,em qualquer lugar,teria sempre quem a servisse solicitamente. Bastaria um aceno,bastaria que isso quisesse.
Tudo ali emudeceu. Foi uma adoração. Imperturbável,certa da sua realeza,olhava em redor, de modo ausente. Era uma suficiência,uma magestade.
Do seu trono,um vulgar assento,a um nível comum,dominava tudo e todos,naturalmente,sem um assomo de altivez. Levantou-se,quando lhe aprouve,saiu serenemente,magestosamente,deixando atrás de si um silêncio respeitador,reverente.
Duas forças da natureza. Altas,direitas,robustas,como colunas de palácio rico.

VOZES E RISADAS

Tinham nascido ali. Por ali tinham andado,primeiro,às costas das mães,depois,com as da sua idade,em grupos,nas brincadeiras de sempre. Ele não as via,mas sabia que andavam por lá,escondidas pelo capim alto,detrás das árvores,no meio dos esparsos milharais. Acompanhavam-no,nas deambulações com o Armando,primo de todas elas,incapazes ou interditas de se mostrarem.
O mata-bicho vinha ter com ele,que o trabalho obrigava a madrugar. O Armando encarregava-se das sobras,numa acção de partilha. Ouvia-lhes as vozes e as risadas,e chegava-lhe o aroma de maçarocas assadas.
A tarefa recomeçava,de uma cova para outra. Que andaria aquele a fazer? Para que diabo seria aquilo? Coisa esquisita. O homem devia ser bruxo. Como tal,só longe dele. Era capaz de as encantar,como fizera com o primo,que não queria outra companhia. Ter-lhe-iam recomendado,certamente,que tivessem muito cuidado com ele.

RONDA

O que é que se havia de fazer,se ele nascera já assim,um pacífico e também um fraquinho da tripa,e sabe-se lá mais de quê? Não deram com as mazelas,lá na inspecção,e o resultado foi ele ter de ir marcar passo. Mas o que eles teriam feito de melhor era tê-lo dado como incapaz.
E assim,lá no marcar passo,foi uma sucessão interminável de desastres. Dos primeiros,foi a ronda. Sabia lá ele bem o que isso era. Começara pela cavalariça. Um candieiro a petróleo dava uma luminosidade frouxa. Um pobre diabo dormitava,sentado num cesto de verga,um daqueles da vindima,virado . Acorda em sobressalto,ao ouvir o ranger das botas no empedrado . Levanta-se,ainda meio a dormir,e pôe-se,desajeitadamente,em sentido. Oiça lá,você gosta de dormir assim? Então,não era melhor estar ali deitado como os outros? Eram mais dois ou três,a ressonar. O rapaz mantinha-se mudo,certamente muito espantado,pelo que estava a ouvir. Bem,veja lá se tem juízo. Olhe que fica marreco.
Tinha muito ainda que andar. Três patamares,várias camaratas. As sentinelas no seu posto,bem alerta,pelo menos à passagem das botas,que faziam um barulho dos diabos,sobre as pedras e o saibro.
No outro dia,toda a minha gente sabia do sucedido.Mandara-se deitar um plantão à cavalariça. Foi um pratinho bem confeccionado. Uma
risota pegada. O comandante,boa pessoa,compreensivo,considerou o caso na perspectiva geral e gozou também.

UM BELO OSSO

Os homens e as mulheres,talvez a maioria,não importa o canto em que façam pela vida,usam, em seu benefício, as armas que DEUS lhes deu. A fortaleza,a inteligência,a memória,a beleza,coisas assim. Só se fossem parvos é que assim não fariam,e parvos é que eles não são,graças ao mesmo DEUS.
Faz lembrar isto,passe a lembrança,ou,com sua liçença,como diria o senhor Joaquim,aqueles cãezinhos que,sem esperar,dão com um belo osso,e que, apressadamente, vão para um canto só deles conhecido,e ali se põem, regaladamente ,a roê-lo,sem cuidar de mais nenhum irmão seu,ainda que o osso desse para distribuir.
Faz isto lembrar, também, o caso de alguém,há muitos ,muitos anos,possuidor de uma excepcional memória,que ,dizia ele,ser inteiramente da sua lavra,excluindo tudo e todos,até os progenitores.

terça-feira, 27 de maio de 2008

SUPERIORIDADE

E ali ficaram os dois,ele e o judante. O jipe tinha mais que fazer. Como armas,um canivete,uma catana,e ,claro,um discreto sinal da cruz. Na frente,uma picada com uma enfiada de covas para examinar,e sabia-se lá mais para quê. Ao fundo,um morro,revestido de capim baixo,talvez a cama de pacaças. Logo se veria.
Estava tudo a correr como devia ser,e o morro lá continuava sem dar sinal de si. De repente,a restolhada já conhecida. Lá tinham acordado as pacaças. A confusão que por lá ia. Mas o seguro morreu de velho,e,portanto,ah pernas, para que vos quero.
Fogem os dois. Mas o ajudante é o primeiro a parar. Os olhos que ele deitava. Era um ajudante de ocasião,não era o habitual. Uns olhos de superioridade,uns olhos de chefe. Vem,podes vir acabar o trabalho,que quem manda agora aqui sou eu. Sem palavras,deu a odem com um movimento da sua cabeça.
O interesse dele,o mais natural,era ter continuado a fugir,como o outro. Mais cedo podia ir para casa. Mas não,estava experimentando uma situação nova,que,talvez,nunca tivesse saboreado. E ali estava a gozá-la. E o outro obedeceu . Foi acabar o trabalho.
Não mais se viram. O que teria acontecido?

O CÚMPLICE

Era barbeiro de profissão,mas,naquela altura, andava ali a marcar passo . Tivera de ser.Morava perto. Já casado,pedia dispensa nos fins de semana. Ia,de bicicleta, ver a mulher e ganhar uns preciosos patacos,recorrendo à sua arte. Baixote,humilde,era gozado por alguns colegas,sobretudo,por uns espertinhos da cidade,muito sabidos.
Num dia da semana,havia uma aula de educação moral e cívica. E era aí que ele tinha o seu dia de vingança,pois arranjara um amigo no instrutor. As aulas terminavam com um interrogatório,para ajuizar do aproveitamento da cada um. E está-se mesmo a ver o que é que acontecia. Aos espertalhões,aos abusadores, eram postas as questões mais complicadas. Eles,que se davam ares de grandes senhores,entupiam de todo. Ficavam envergonhados,comportando-se como meninos apanhados em falta. O barbeiro respondia sem hesitações,beneficiando da generosidade do cúmplice.

NO MELHOR PANO...

Coitado do moço,tão desconsolado que ele estava. O trabalhão que aquilo lhe tinha dado. Tratava-se de um campo de ensaio de batata. Fora ele que o instalara,o que era muita coisa. Preparara a terra,adubara,plantara,enfim,tudo o que um ensaio contém. E um dia vai visitá-lo. Vem daí também. Tanto trabalho para quase nada,que ainda se podia aproveitar alguma coisa. O que ele protestou,e com razão,à vista do espectáculo. Os canteiros estavam remexidos. Um campista,parco de meios e com pressa no andar,viera abastecer-se. Em quaquer lugar,mesmo de "fair play",há sempre jogadas destas. No melhor pano cai a nódoa.

LÁ COMO CÁ

Tinha-se em muito boa conta e onde pousasse gostava de deixar rasto. Um menino muito prendado,espertinho e muito provocador. Ainda há pouco , tivera a ousadia de pôr em dúvida o interesse prático de certo estudo. Para que é que isso serve?,foi precisamente o que ele quis saber. Naquele tempo e lugar,era isto uma grande impertinência. Faria parte dos que embirram com o fundamental. Mas o mais engraçado era que o que ele estava a fazer contradizia-o. Ia-se lá entender uma coisa destas. Mania de colocar mal o outro, sobretudo,o parceiro do lado,que é o que dá mais gozo. Lá como cá. Depois,sabe-lá o que um estudo pode esconder?
Um dia,deu-lhe para pôr em dúvida a existência de certos países. Riscava-os do mapa. Onde estavam,lá nesses paises,os químicos,os físicos,os matemáticos? Não os via. Portanto,fora com eles. Parecia que ele, um dia,seria um deles,um que situasse o seu país no mapa. Ainda deu um ar da sua muita graça,mas,depois,apagou-se.

SANTA IGNORÂNCIA

O que a gente tem de ouvir,às vezes em circunstâncias de todo inesperadas. Ah, santa ignorância. Ele era um moço muito instruído e inscrevera-se numa missão científica que iria acompanhar a abertura de uma importante via,algures no Brasil. Vinha aquilo mesmo a calhar,pois andava com muita falta de massa. O entusiasmo que por ali ia.
Estava,porém,com uma grande preocupação. É que não percebia nada de espanhol e tinha de aprender umas coisas depressa. Mas olha que no Brasil fala-se português. Ah,fala? Mas fulano disse-me que era o espanhol.
O fulano era um professor universitário,que acabou também por ser esclarecido. Ah, santa ignorância de há muitos anos.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

REGRESSO

Chovera torrencialmente nos últimos dias. Os terrenos estavam numa papa e os caminhos alagados. A ocasião não era propícia,pois,para o regresso,mas havia um prazo a cumprir,que não devia ser ultrapassado,sob pena de se encontrar a porta fechada. Valeu a perícia do condutor e a colaboração de três ajudantes,ou melhor,de três boas vontades.
O primeiro obstáculo surgiu logo à partida. O rio corria lá em baixo,apressado e turbulento,e o talude da margem parecia manteiga. A jangada já estava esperando. Duas tábuas oscilantes faziam negaças ao jipe. Mas este,só com o deslisar,que o mais estava interdito,deu com elas.
Uma estrada de terra batida aguardava. Como se encontraria ela? Passara-se por lá há uns meses,quando da vinda,e aquilo era uma fábrica de poeira vermelha e um crivo de malha larga. Não se precisou de esperar muito para se saber a resposta. O que fazia ali jeito era um barco. Mas o jipe lá avançou,corajoso,a passo de boi,que mais não podia ser.
A água,lamacenta,infiltrava-se por todos os buracos e a sua altura era,por vezes,de respeito. Houve,assim,necessidade de se fazerem desvios pelos morros,em risco de o jipe ir parar lá abaixo. Mas o declive,volta não volta,não permitia. Teve então de se recorrer ao expediente das pontes improvisadas com capim. Mas este era rei e não faltaram sapadores.
A meta foi,finalmente,cortada. Assim terminava a primeira etapa de uma corrida. Outras se seguiriam,felizmente não tão trabalhosas e angustiantes.

CELULOSE QUASE PURA

Parecia aquilo uma fortaleza. E,como mandam as boas regras,lá estava a defesa apropriada Não só uma linha,mas duas,que o inimigo era de duas qualidades. Uma,exterior,à base de covas fundas,com cobertura frouxa,espinhosa,para os predadores,a outra,uma faixa larga,permanentemente capinada,para os fogos.
A primeira linha era posta à prova com muita frequência. De vez em quando,lá funcionava como se queria,retendo algum intruso,como uma pacaça ou um javali.De outras vezes,era uma grande tristeza. Acontecia isso quando se tratava de elefantes,que se riam daquela protecção.Os destroços que semeavam à sua passagem,só visto. É que eles sabiam escolher,interessando-se apenas pelos tecidos mais tenros. Deixavam como recordação abundantes dejectos,que se resumiam a celulose quase pura. Eram muito aproveitadinhos.
A segunda linha,pode dizer-se,não passava de um adorno. As quieimadas sucediam-se,é certo,mas ali havia muito pouco por onde pegar,pois o verde era avassalador. Os dois rios que corriam por lá encarregavam-se dessa pujança,alimentando-a sem cessar,sem parcimónias.

O HOMEM DA ATALAIA

Guardara-se aquele local para o fim . É que constava que aquilo era domínio de animais mal feridos. E agora ali estavam,que o trabalho tinha de se completar.
A vegetação era alta e densa,um enfeltrado de capim e de espinhosas. Por isso,um escadote fazia parte do instrumental. A picada estava a ser aberta,com a orientação do homem da atalaia. A certa altura,entram em cena as avezinhas anunciadoras da presença de pacaça. Pipilam muito,lá no alto,por cima do hospedeiro. Como de outras vezes,procura-se,fazendo mais barulho,espantar o bichinho.
E o que é que o vigilante vê ou julga ver,que tudo se passava lá no interior do mar verde? O bichinho parecia não se ter acobardado e decidira dar luta,vindo ter com o inimigo. Não pensou duas vezes o homem da atalaia. Saltou dela e desatou a correr pela picada fora,uma picada muito estreita,trazendo atrás de si toda a companhia.
Sabia lá ele onde punha as mãos? Os espinhos estavam lá, à espera ,e uma mão foi picada. Ainda almoçou,mas jantar é que não. Febre alta,o corpo todo dorido,incapaz de se alimentar. Valeu-lhe alguém,que,por quase uma semana, lhe levava a comida à boca,e um enfermeiro que percebia de infecções. Ainda convalescente,com um braço ao peito,teve de regressar,de jipe,primeiro,por estradas inundadas,depois,de comboio miniatura e de comboio a sério,e,finalmente,de avião. Parecia ter vindo de uma guerra.

INIMIGOS

Por ali havia javalis para dar e vender.Mas não eram só eles. Podia dizer-se que havia para todos os gostos. De uns,os javalis nada temeriam,mas com outros tinham de estar sempre com os olhos bem abertos, muito em particular no caso dos crocodilos.
Havia também o homem e havia o fogo. Dois grandes inimigos seus. Não se sabia era qual deles seria o maior. E,certa dia,surgiu uma contribuição.
Era à tardinha,altura em que os homens regressavam dos seus trabalhos,mas também para um fogo se lembrar de por ali aparecer. E o que é que,a dado momento,alguns homens viram? Aí uma meia dúzia de javalis,muito aflitos,a fugirem do fogo.
Pois estes javalis,quando deram com aqueles homens,sem hesitações,fizeram meia volta e
atiraram-se ao fogo. Preferiram imolar-se nas chamas,do que ficar sujeitos às balas dos homens,que,naquele caso,não existiam.
É arriscado fazer generalizações,mas quanto àquela meia dúzia de javalis,parece ter sido feita prova de que o seu maior inimigo era o homem.

POBRE JIBÓIA

O jipe não havia meio de vir,pelo que o melhor era fazerem-se ao caminho,um caminho à beira-rio. Manda quem pode,mas às vezes não devia mandar,como foi neste caso. Ignorâncias. Entretanto,caíra a noite. Dava aviso,mas esperava pouco. Já se sabia,mas era o mesmo que nada.
À frente,ia o trepeiro,homem muito experimentado. Com ele no comando,ia-se tranquilo. Não se contara,porém,com uma jibóia,que se lembrara,naquela altura,de ir à sua vida. E deu-se o que é frequente acontecer,um encontro que ninguém desejava.
A pobre da jibóia deve ter ficado muito assustada e tratou de se escapulir,refugiando-se no remanso de onde viera,o capim fresquinho do talude do rio. O guia ainda levantou a catana no propósito de a enfrentar. Fora ele o único a montar defesa,pois com os outros não se podia contar.
Ora a nossa vida,lamentava-se o que podia. Assim não vamos lá. Com quantas gibóias iremos cruzar? Está além uma fogueira e o mais acertado é ficarmos lá à espera,aconselhou o guia. O jipe acabou por aparecer,depois de se ter refeito de uma mazela.

domingo, 25 de maio de 2008

UMA APARIÇÃO

Parece valer a pena contar pelo pitoresco da situação. Um dos trabalhos que ele ia fazer levava aí umas duas horas por dia,ao longo de uns meses. A temperatura não devia sofrer grandes variações,mas o ideal seria uma constante. E ele procurou esse ideal. No sítio onde se encontrava não havia tal condição,mas talvez houvesse noutro. E havia,até duas salas. E estavam à sua disposição. Desconfiado como era,não descansou enquanto não confirmou a constância.
A sala tinha dois grandes inconvenientes. Não se via uma janela sequer e podia trancar-se do lá de fora. Assim,como ficava lá para um canto,alguém podia lembrar-se de o fazer prisioneiro,por sabe-se lá quanto tempo. O seguro morreu de velho. Tinha de avisar,portanto,para que o fossem lá libertar. E,assim descansado,começou a trabalhar.
Um dia,o que é que havia de acontecer? Uma aparição,na forma de uma gentil menina,muito loira e de olhos muito azuis, com um tabuleiro na mão. Abriu a porta. Lá se iria a constância. Pediu-se para que entrasse depressa. Ela hesitou uns segundos,mas acabou por não entrar. Sabe-se lá do que o moço era capaz?
A temperatura tinha de ser mesmo constante,para maior rigor. Teve ocasião de o verificar. A curva de valores a 25 era algo diferente da a 15. Neste segundo caso,vestiu uma camisola grossa.

PROTESTOS E CRÍTICAS

Eram aqueles uns tempos de muito atraso. Não havia telemóveis. Assim,o moço,logo que pôde,apressou-se a enviar um telegrama à família.

Estava-se a um domingo e a estação de correios mais próxima era lá para o cabo do mundo. Havia de lá chegar. No caminho,ainda não tinha dado meia dúzia de passos,deu de caras com uma grande manisfestação de reformados. Protestavam contra a carestia. A mesada era curta.A polícia acompanhava. Um pouco mais adiante,outros protestos,também com polícia à vista. Agora,tratava-se de uma guerra,que estava a alongar-se demasiado,ou nunca devia ter começado. Mas esta gente muito protestava.
O tempo estava frio e chuvoso,pelo que o melhor era recolher à casa onde fora destinado. A temperatura,lá dentro,era quase de verão. Ali,sim,estava-se muito bem. O senhor,um espanhol,que estava de serviço era muito conversador e crítico. Veja lá que esta gente só quer é descansar. É a interrupção da manhã,para o café,e a da tarde,para o chá. Assim,como é que eles querem entregar as encomendas a horas? Desta maneira,não vão lá. Mais ou menos um mês depois,alguém llhe disse que leva tempo,mas é bom.

BONITO COMO UM PRÍNCIPE

A cama de nascimento não tinha sido de palha,mas há volta havia muita. O vento soprava forte e frio e as frinchas deixavam entrar algum. Melhor assim. O menino começava cedo a suportar as intempéries,enrijando-o. E mais ainda. Por aquelas bandas ,tinha passado,em tempos muito lá para trás,gente desses países estranhos do Norte,fixando-se ou deixando descendência. Eram correntes,pois,os cabelos de oiro vivo e os olhos do azul do céu. E foi assim que ele veio,bonito como um príncipe.
Com o correr dos anos,a beleza e a fortaleza aprimoraram-se. Faltava ali a riqueza. Bem tentou. A subida não foi por aí além,como desejava,mas não se podia queixar muito. De forte imaginação e de fácil convívio,frutos,certamente,da tal provável ascendência,conseguiu entrar em altos meios. Isso o compensou e não perdia ocasião para o mostrar. E era de estarrecer o estendal de nomes ilustres,da melhor nata. Desfiava conversas onde a intimidade definia a situação.
De vez em quando,procuravam fazê-lo descer,mas não havia meio de se conseguir. Ou desandava,ou retomava o fio da meada rica. Só nas alturas é que se sentia bem. O ar era mais puro e as vistas mais agradáveis.

PELA PINTA

Estava uma soalheira manhã londrina,como há muito não acontecia,e aquele sossegado jardim,com muitos bancos,convidava a nele repousar.
Um homem circulava, pausadamente,como que a gozar dos rendimentos e daquela doce paz. Quando passava por um banco com gente,parava,fazendo uma vénia prolongada,respeitosa. Quase que levava a cabeça aos joelhos. Era um homem baixo,atarracado,de ar modesto,de tez morena.
Já se podia ter sentado,mas não se atrevera. Não encontrara o banco que mais lhe convinha. Mas,finalmente,lá o descobriu. Sentou-se numa ponta. Na outra,estava alguém que ele julgou,pela pinta,ser seu vizinho,quer dizer,vindo de uma terra ao pé da sua. Não se enganara.
E ali se puseram ,amistosamente, à conversa. Era de Gibraltar e tinha vindo a Londres tratar-se,beneficiando da generosidade do Serviço Nacional de Saúde. Sabe,é que eu tenho passaporte inglês. A insinuar que não era para ali um qualquer,como aquele com que estava conversando.
Tinha escolhido,efectivamente,o banco certo. Nos outros,descansavam ingleses autênticos.

CAMPOS DE MILHO

Imagem retirada do Flickr,by Glasson IOWA,EUA
Imagem retirada do Flickr,by goatopolis IOWA,EUA

Imagem retirada do Flickr,by Jim(the CG) IOWA,EUA

Imagem retirada do Flickr,by iander2755



Imagem retirada do Flickr,by Pinachina




Imagem retirada do Flickr,by Justin Russell





sábado, 24 de maio de 2008

QUE QUERIA AQUELA GENTE?

Estaria preocupado aquele povo. Não era para menos. Que queria aquela gente estranha que ultimamente dera em andar pelas suas terras? Gente que andara a visitá-la,gente que assinalara locais onde outra gente abrira covas fundas,gente que viera enfiar-se nelas,fazendo lá não se sabia o quê. O que viam é que eles lá se demoravam. Um dia,tinham de lhes perguntar.
E esse dia chegara. Talvez aquele que estava ali sozinho dentro de uma cova os esclarecesse,os tranquilizasse. Vieram em grupo numeroso,solenemente,com o chefe,um velho que parecia muito velho,de cabelo muito branco,a comandá-los.
Que queria aquela gente? Saiu da cova e foi ao seu encontro.Uns escassos metros os separavam. Teve tempo de pensar numa resposta que os havia de tranquilizar. Fiquem sabendo que um dia serão informados do que devem fazer para terem mais milho. Teriam entendido e ficado satisfeitos,pois mal o da cova acabou de falar,deram meia volta e foram lá para a sua vida.

ARREPENDIDO

Um escrito que andava perdido. Os anos que deve ter,pois o papel já está um bocado amarelo. Parece valer a pena dar conta dele. E é assim.
Conhecem algum oportunista? Não? Pois eu cá sei de um. É pouco,mas é o que se pôde arranjar. Um dia,apanhou-me a jeito. Sabe,temos,pelo menos,uma coisa em comum. Não gostamos do chefe. Vi bem a cena de há uns tempos. Aquilo não enganava. E eu, calado que nem um rato,porque os cheiro. Vá,vai falando. Acontece que o sujeito pregou-me uma partida,a mim e à minha mulher. Não se fazia uma patifaria daquelas. Foi um valente prejuízo,pode estar certo. Temos de o afastar. Já falei ali com uns tantos e gostaríamos que você se juntasse a nós. É simples. Amanhã,quando ele for a entrar,já nós lá estaremos. Daqui não passa.
Já acabou? Agora,falo eu. É certo que não morro de amores pelo chefe. Mas isso é comigo e com ele. As suas razões,você as terá. Quanto a acompanhá-lo,não estou para aí virado. Não disponho de autoridade para o que pretende e suponho que ela também não está consigo. As coisas estão a seguir o seu curso e devemos ter paciência. Não insistiu,nem valia a pena.
O chefe lá ficou e saiu quando teve de sair. O aliciador de ocasião é que seguiu um caminho estranho. Parecia que ia numa direcção,mas de repente,sem qualquer aviso,inverteu a marcha. Um outro arrependido. E ganhou com isso,o esperto. Parecia ter cartão de livre trânsito.Entrava quando lhe apetecia e saía quando lhe calhava. Enfim,fenómenos. Que sentido de orientação certa gente possui. Em que escola terão andado ou serão autodidactas?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

O MUNDO

Ao alcance da mão. Só com um tocar. O hoje,o ontem,o amanhã. As 24 horas. De dia,de noite. Jornais,revistas. A arte,a ciência. O museu. A biblioteca. O digital. Londres. Nova Iorque. Paris. Paio Pires. O fruto proibido. A tentação,a cloaca. O bom,o mau,o péssimo. É a vida,não há nada a fazer. Não vou por aí. Então,por onde é que vai? É segredo. Só obrigado. Tenho a agência,o neto,a prima,o vizinho do lado,que é muito meu amigo. A música. A dança. A formação. O MIT. A alienação. Em inglês,em francês,em chinês,em português de mais de duzentos milhões. Que horror. Eu cá sou muito patriota. Mas eu também. Mas eu sou mais. O D. Afonso Henriques,o Mestre de Avis,o D.João IV. Mas olhe que o Conde D.Henrique veio por aí baixo,coitado,porque era dos últimos filhos . Assim,teve de se fazer à vida. E o Mestre era filho de D.Pedro,e não de Inês,de Constança. Que fresco,este D.Pedro. E D.Luísa de Gusmão,a que,diz-se,preferia ser rainha uma hora,do que duquesa toda a vida. Era também andaluza. Enfim,estamos todos no mesmo barco,esta Europa dos valores. Que é o que interessa,ou não. É que há um outro barco maior,que é esta bolinha,a girar,a girar,que nem uma tonta. Era para ficar tonto de todo. É como já estás,e não é de agora,está-se a ouvir.
Ao alcance da mão. Só com um tocar. A geografia. A fauna. A flora. O mundo antigo,de há milhões de anos. Ou milhares?,só.O creacionismo,o evolucionismo,o desenho inteligente. DEUS. O DEUS de todos, de todos,sem enjeitar um sequer. Fundamenental,DEUS, DEUS de todos. O cimento,a argamassa. Caso contrário,um dia destes,fica tudo em cacos. Só a alma escapará,que essa é de DEUS. O resto é pó,que também é de DEUS,claro. É cálcio,muito,e fósforo,pouco,e carbono(ah este CO2),e oxigénio,e hidrogénio(água,aí uns setenta por cento,quando o pó era corpo,claro),e outros mais,que DEUS é GRANDE.
Para terminar. Mas olha que está lá só o que lá puseram. Se eu quisesse também lá me punha. Então,é pôr-se,que a porta está aberta.

RISCOS

Como se sabe, lavra grande preocupação pelo o uso de bens alimentares,como o milho,para se obterem biocombustíveis,bioetanol ou biodiesel.
Como se sabe,também,da celulose,de variadíssimas fontes,no reino vegetal,também se consegue etanol. Uma das fontes é a celulose das ervinhas. Com o seu uso,poupar-se-iam bens alimentares. E é aqui que surgem outras preocupações,sobretudo,por parte dos que se interessam pela conservação da natureza. Receiam alguns que da utilização dessas ervinhas venham riscos acrescidos para as culturas.
Ora,cientistas vários,alguns de grande peso,afirmam que não é com a substituição da gasolina e do gasóleo pelo etanol e o biodiesel que se resolve o problema dos gases de estufa a mais,antes pelo contrário,mais ele se agrava.
Sendo assim, os tais riscos acrescidos parece não estarem muito em risco. Há,porém,outros riscos,estes imediatos,para já,de todos bem conhecidos. Escusado é estar a lembrá-los.

MARCHAVA TUDO

Se a sede apertava,o senhor Joaquim corria logo para um poço. Olhe que vai adoecer,tenha cuidado. Não tem dúvida,vêem-se lá avencas e rãs.
O outro resistia,desconfiado. Estranho era que nos "montes" bebia a água que lhe davam. Pensaria,certamente,que estava tratada.
Quando não se descortinava um poço ou um "monte",o senhor Joaquim sabia desembaraçar-se,caso tivesse chovido de véspera. Ali por perto,havia de encontrar água nalgum rego.
Então,ou se servia da concha da mão,ou se estendia ao comprido sobre o espigoado,para sorver. Se a sede não era muita,estava com cerimónias. Afastava,primeiro,alguns resíduos flutuantes. Sendo o apêlo grande,marchava tudo.

FICARAM AMIGOS

Coitado do moço,tivera muito azar. Ainda mal encetara a caminhada,já estava com um processo às costas,embora arquivado. Logo havia de lhe suceder a ele,um pacífico.
Mas uma pessoa tem de ser surda e muda quando é enxovalhada? Ora ele ouviu e não se calou. O atrevimento. Para castigo,devia apresentar mil desculpas. Não esteve para isso. O queixoso também não se importou. O seu chefe é que não esteve pelos ajustes. Ele iria ver como tinham de ser tratados os orgulhosos.
O moço,além de pacífico,incapaz de fazer mal a uma mosca,era também muito paciente. O chefe,um dia,mais tarde ou mais cedo,havia de reconsiderar. E foi o que aconteceu,passado não muito tempo. Ficaram amigos.

FEITO TROPEÇO

Teria dado tratos à memória,já gasta de tanto a usar,e logo ali,em pleno passeio,é que lhe estavam ocorrendo as palavras salvadoras. Não fossem elas voltar aos subterrâneos onde se tinham escondido,do passeio é que ele não saía. Puxara do jornal e atirara-se, com entusiasmo, à solução das palavras cruzadas daquele dia.
Estava uma manhã bonita,uma manhã de primavera como deve ser,uma manhã inspiradora. No ar,cruzavam-se andorinhas e com ele cruzava-se muita gente. Nem reparava que se fizera num tropeço.
Para o café,nem pensar,com uma manhã daquelas. Não estaria de todo alheio,o que era sinal de esperança. Talvez ainda estivesse a tempo de se cruzar com outros passatempos,mais de acordo com alguém portador de um cérebro capaz de grandes prodígios.
E quem sabe se, um dia,não será visto feito tropeço no mesmo passeio,por estar germinando nele uma ideia nova,plena de promessas?

EXPEDIENTE HONESTO

Mas era o moço que trabalhava ao lado dele,um bacharel em bioquímica,que ia ali,naquela rua,manhã cedo,a empurrar um carrinho com garrafas de leite e a pô-las às portas das casas.
Que vergonha,se a mãezinha dele aquilo visse. Ai o meu rico filhinho,a que extremos ele chegou,a levar leite ao domicílio.
Passou de largo,pois,não o fosse ele ver. Não haveria de gostar,certamente. Ainda há dias o convidara para um chá. Ainda há dias o levara a uma exposição de quadros,da sua mais que tudo. Ainda há dias o convidara para um"party".
Não era a primeira vez que ele fazia de distribuidor,nem seria a última,que a bolsa não dava para aquilo que ele queria. Lançava,assm,mão daquele honesto expediente para arranjar mais uns cobres.

SIDDHARTHA

...
O seu rosto era ainda mais inteligente e espiritual do que os outros,mas sorria com pouca frequência e ganhava aqueles traços tão vulgares no rosto dos ricos,os traços da infelicidade,da doença,do desânimo,da preguiça,da insensibilidade. Lentamente,a doença da alma dos ricos dominava-o.
...

Excerto de Siddhartha,um pema indiano ,p.84 10ªedição Hermann Hesse,Prémio Nobel casadasletras

quinta-feira, 22 de maio de 2008

FINAL DO SUAVE MILAGRE

...
A criança,com duas longas lágrimas na face magrinha murmurou:
-Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno,e com um mal tão pesado,e que tanto queria sarar!
E a mãe em soluços:
-Oh meu filho,como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia,e curta a piedade dos homens. Tão rota,tão trôpega,tão triste,até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado,e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe,o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos,erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam,a criança murmurou:
-Mãe,eu queria ver Jesus...
E logo,abrindo devagar a porta e sorrindo,Jesus disse à criança:
-Aqui estou.

OBRAS DE EÇA DE QUEIROZ,CONTOS,O SUAVE MILAGRE EDIÇÃO "LIVROS DO BRASIL" LISBOA

MUITO AGRADECIDA

Toda vestida de negro,estava sentada num recanto,fazendo malha. A cara era prazenteira. No recinto,brincavam quatro crianças. Davam-lhe muito trabalho? Felizmente que eram só duas,duas irmãs muito gorduchas. As outras,os pais que as aturassem.
Encontrava-se ali só de passagem. Era de uma aldeia próxima e viera fazer compras à vila,pois aquilo eram duas bocas muito exigentes. Cuidava delas até domingo,pois ia estar uns dias muito ocupada. Na segunda,começava a vindima.
Levara o ano a pensar nas uvas. O jeito que lhe ia fazer o dinheiro. Tinha de aproveitar,embora o corpo preferisse ficar em casa,pois estava ali uma velha cheia de achaques. Mas sabe,a reforma não dava. A renda da casa era um dinheirão. Depois,havia ainda a água,a luz,o telefone. Este,fora lembrança do marido,que Deus já lá tinha,mas precisava dele para comunicar com os seus,que,volta, não volta,lhe pediam ajuda. E os remédios? Nem era bom falar neles.
Pois tinha de ser. Saía-lhe da pele,mas que se havia de fazer? Não podiam mandriar,que o patrão não deixava. Ele tinha razão,coitado,pois doutra forma aquilo não dava. Deus o conservasse. Lembrava-se sempre dela,pelo que lhe estava muito agradecida.

QUATRO FRASES

As classes baixas têm grandes paixões,porque têm grandes necessidades.
D.Pedro V
Antologia do Pensamento Político Português/1 Joel Serrão p.231
Colecção Civilização Portuguesa Editorial Inova

O barão mordeu no frade,devorou-o ...e escoiceou-nos a nós depois.
Almeida Garrett
O Frade e o Barão,D.Quixote e Sancho p.293
Prosa Doutrinal de Autores Portugueses,António Sérgio,Portugália

"A História é uma velhota que se repete sem cessar"
Eça de Queirós
Cartas de Inglaterra,Afganistão e Irlanda p.7 Livros do Brasil

...É esta fresca ralé que fica em Londres:de modo que apenas a humanidade superior,os dez mil de cima,como aqui tão pitorescamente se diz,partem para os seus castelos,as suas vilas à beira-mar,ou os seus yachts-Londres,apenas habitada pela turba abjecta,torna-se sobre a face da terra como a lamentável Cacilhas....
Eça de Queirós
Cartas da Inglaterra,O Inverno em Londres p.35 Livros do Brasil

QUE BOM

Era de prever,tantos eram os indícios. Ali estava o vilão,de corpo inteiro. Deixara de ser servo,lá no seu entender. O velho passara-lhe a pasta. Também não havia outro na escala,pois eram só os dois. Agora,era ele o patrão.
Tinham sido muitos os anos lá por baixo,no seu entender,que o velho não havia meio de encostar. Mas lá nos subterrâneos fermentavam vinganças. Havia de chegar a sua hora.
O velho era da escola antiga,da escola romântica. Sempre cheio de atenções,de salamaleques. Ia tudo levar uma grande volta,oh se ía. Quais cerimónias,qual carapuça. E quem não estiver satisfeito,vá bater a outra porta. É o que não falta para aí.
Engrossou a voz,até parece que cresceu,que ele saíra para o baixote. Daqui em diante,só atendo quem eu quiser. Desligo o telefone e quem quiser passe por cá. A tabela, já a alterei. Eram preços ridículos. Para mim e para o gato há-de chegar. Nunca fui dessas coisas da família,dessas pieguices. Basta-me um serviço ou dois.
Estaria para breve o dia em que se passaria, com armas e bagagens, lá para a loja. Um canto chegava-lhe,para ele e para o bichano. E então,sim,ali por trás do seu balcão,é que era saborear
as delícias de ser ele o dono de tudo aquilo,de ser ele o patrão. Patrão e servo. Patrão de si mesmo. Que bom.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Uma das pedras de toque da democracia é a liberdade de expressão. E, às vezes,ao olhar para certas linhas da frente,toca o alarme. Rapaz,estás a precisar de ir ao oflalmologista.

"RANAMANDRA"

Não se sabe como é que os criacionistas resistem a tanta "facada". Agora,chega uma,daquelas de arrasar,via Canadá e Nature. Foi descoberto um fóssil de 290 milhões de anos,a "ranamandra",que lança luz sobre a origem comum das rãs e das salamandras.

ESTUDOS DE MERCADO

Há quem os faça,por necessidade. Mais um encargo. Outros,dispensam-nos,ainda que deles precisem. Mas é que os têm,pode dizer-se,de borla. São as sondagens,as eleições. E assim ficam a saber da clientela que lhes bate à porta. Fazem umas contas,e logo vêem se vale a pena ou não.

GUARDADO ESTÁ O BOCADO...

O terreno para ali está, esperando que algum construtor lhe pegue. Enquanto isso não sucede ,vai tendo a sua utilização. Entre outras,é moradia de uma colónia de gatos,que lá vão vivendo daquilo que conseguem por própria iniciativa,mas,sobretudo,das dádivas de almas caridosas,que chegam ao ponto de lhes pôr a comida no prato. Às vezes exageram,mas os excessos não se perdem,pois há quem os aproveite.
Foi o que há dias aconteceu. Perto,corre um esgoto e nele habitam ratazanas,algumas quase do tamanho de lebres. Saíram duas ou três da sua casa e vieram explorar as vizinhanças. Uma delas deu com um belo pedaço de pão,que lhe chegaria para algumas refeições,assim o pudesse levar lá para dentro. Os intervalos da grelha eram estreitos ,pelo que a tarefa iria ser difícil. Mas ela estava determinada.Tentou,primeiro,pelo lado de fora,depois,do interior. Puxava,puxava,mas nada. Quando muito,arrancava alguns pedacitos,que,talvez,se perdessem. O tempo gasto nestes trabalhos inglórios foi-lhe fatal. Uma concorrente interveio e levou-lhe o petisco.
Isto não se fazia. Seguiu-se,como era de esperar,uma valente refrega,que resultou em flagrante injustiça. É bem certo que guardado está o bocado para quem o há de comer.

LAISSEZ FAIRE

Adam Smith(1723-1790),economista escocês,é um dos principais teóricos do liberalismo económico. As traves fundamentais da sua doutrina sáo três: valores dos bens determinados pelos níveis da oferta e da procura,comércio com o mínimo de peias e concorrência aberta. Sintetizando,é o laissez faire,laissez passer. Cumpridas estas regras,tudo irá aos eixos. O mal está em que o caminho pode ser longo,e nesse caminho vai sempre muita gente a passar. Parece ser este o quadro actual. Quem podia,não vai intervir e quem vai pagar já se sabe quem é. Como este quem é são aos milhões,alguns hão de conseguir escapar. É a vida.
Ah,no caso do CO2,parece que as coisas não são assim tão "simples". Alguns já deram a mão à palmatória. O laissez-faire,aqui,é coisa do diabo,e com o diabo é perigoso brincar. Apanham todos.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

SERVIDÃO

Isto vai acabar. É tempo de lhe arranjar um passe e um telemóvel. Condoera-se a rica filha da pobre mãe. E estava,ali,em plena rua,a manifestar o seu louvável propósito.
Era uma mocinha toda de negro vestida,à moda,de cigarro na mão,em pose. A mãe,muito gorda,ouvia-a,de cabeça baixa. Seria do pesado fardo que ela carregava,de filhos e já de netos. De vez em quando,tinha de sair,mas só para fazer compras lá para a casa.
E aquela linda filha,queria aliviar-lhe a servidão. Estaria a moça,pois,cheia de boas intenções. Mas não era de prever que o passe viesse a ter muito uso. Dar-lhe-ia,quando muito,alguma consolação possuí-lo. Se quisesse podia utilizá-lo,mas só isso,que ela,lá em casa,não saberá para onde se virar.
Quanto ao telemóvel,esse,sim,vinha mesmo a calhar,pois o telefone estaria quase sempre ocupado.

PRÉDIO ENTAIPADO

Não sossega o pobre velho. Para o que lhe havia de dar. Volta não volta,lá vem ele postar-se à beira do seu prédio,por certo de muita estimação,agora entaipado por via de um muito provável desmoronamento.

Foi a autoridade que teve de intervir,se não ainda lá morava gente. Obras não valeria a pena fazê-las e assim para ali está à espera. Aquele espaço,mais dia,menos ano,irá ter outro destino,que não o de construção,parece ser ponto assente. Quer isto dizer que é um espaço que vale muito pouco.
Como quer que seja,o dono não o larga. Ainda ontem lá passou umas horas a velá-lo. Para lhe custar menos,deita-se no banco abatido do seu,também,velho carro,como se estivesse em casa,e dorme. De vez em quando,desperta,talvez para dar mais uma mirada nostálgica ao friso de florinhas róseas,que põe uma nota romântica naquela fachada dos belos tempos.
Será isto que mais o cativa e que o faz visitar tão frequentemente?

PORTEIRO DE RESPEITO

O homem tinha muito para contar e sempre que havia ouvidos atentos por perto,aproveitava para dizer de sua justiça. Ali,naquele posto de porteiro de liceu,o que ele já testemunhara. Os alunos,elas,em particular,estavam uma desgraça.
Ainda há dias,uma miúda,cheirando a fraldas,chamava nomes à mãe,que ele não queria recordar,quanto mais dizer. Uma tristeza. Mas as culpadas sei eu muito bem quem são. As mães,só as mães. Querem ser iguais aos homens,e,depois,é o que se vê. Não param em casa e a filharada anda aí à solta.
O lugar delas não é na rua ou no emprego. É no lar,a cuidar dos filhos,da comida,dos maridos. E parecia que estaria neles incluído. Aquilo eram desabafos demasiadamente sentidos,para virem com tanto azedume,com tanta reprovação.
Até a democracia veio à balha. Se não fossem essas liberdades que há agora para aí,nada disto tinha acontecido. Em casa é que elas deviam estar. Enquanto assim não suceder,a situação não se endireita.
Era um porteiro de respeito. Ai se ele mandasse. Coitadas delas.

UMA VIDA HUMANA

Desperdiçada em frivolidades,em ociosidade,é coisa muito,muito,triste. As capacidades que em cada um moram,capacidades de mais valias,para usar uma expressão domingueira,à espera de serem aproveitadas.
E é ainda mais triste quando se teve a sorte,ou o que se quiser chamar,de arranjar uma enxada,que muito poucos conseguem,a enxada da instrução.
Naturalmente, a vida não é só trabalhar,como diria o senhor Francisco,pintor de tectos e de paredes. Mas o não trabalhar não deve assumir a prioridade. Fica mal,não é bonito.
Tantas maneiras há de trabalhar,mesmo até não parecendo. Pensar nos outros,nas suas dificuldades,um modo simples de o fazer,sem gastos aparentes.
Mas é muito triste gastar uma vida em questiúnculas,em malquerenças,em desencontros,em apagões,para não empregar termos mais violentos,que não é bom lembrar. Metem medo.
Uma sementinha gasta-se,mas deixa uma ervinha,um arbusto,uma árvore ,que pode ser uma árvore gigante . Uma vida humana devia emitá-la. Seria bom que o fizesse.

UMA ALMA NOVA

Chamaram-no ao telefone. Era o seu pai. Passara por ali e quisera fazer-lhe uma surpresa. Mas não fora só isso,não. Precisava de que o vissem ao seu lado. Ele lá tinha as suas razões.
Sentaram-se a uma mesa do café mais concorrido lá da terra. O velho tinha ali conhecimentos. É o filho dele,diriam. Sim senhor,o rapaz é quase oficial. Não estão a ver aquela fitinha amarela? Olhem como o pai fala. Está tão contente o velhote. Nunca o vi assim. Parece ter arranjado uma alma nova. Pois tem motivos para isso,não resta dúvida. Também eu estaria como ele,se o meu filho tivesse chegado onde o dele chegou. Infelizmente não passou de cabo. E já foi uma sorte,pois a maioria não passa de soldado raso.
Era,de facto,verdade o que ali à volta estavam notando. Aquele pai não cabia de contente. Os olhos riam-se-lhe. Há muito tempo que não estavam assim. Fora aquela uma boa lembrança. Devia tê-la mais vezes,para a alegria o visitar,ainda que por curtos momentos. Há que forjá-los. Se não forem os interessados a dar o passo,quem o fará?

terça-feira, 20 de maio de 2008

TUDO DO AVESSO

Aquilo foi uma medonha carnificina. Esacaparam apenas alguns,uma meia duzia,se tanto,a ter em conta o exército inicial. Mas foi uma acção bélica que levou a grande gasto de esforços e de material.
É que os inimigos,além de numerosos,estavam todos muito bem entrincheirados. Tudo lhes servia,colchões de palha antiga,travesseiros de semelhante enchimento,camas de ferro,recantos vários,que a quadra era vasta. Teve de se virar tudo do avesso.
Foram horas de polvilhação,que puseram o ar quase irrespirável. Alguns pensaram,até,que ninguém sairia dali vivo. Depois,esgotados,atreveram-se uns poucos a deitarem-se. A maioria,não esquecendo a tal meia dúzia ainda alerta, para fazer das suas,não teve essa coragem. Sentaram-se,apenas,de olhos bem abertos,prontos para o ataque.
Houve uns outros,talvez três ou quatro,que não participaram na refrega. Nem entraram no teatro de operações,permanecendo lá fora,ao relento. Aquilo de percevejos,só de longe,muito longe. E assim se mantiveram. Foram mandados para casa,logo no dia seguinte.
Estavam muito doentes,coitadinhos. Precisavam de caldos de galinha e ali só tinham massa com feijão. De resto,gente que fugia de percevejos,não servia para defender a pátria.

UM GELADO

Já devia ter ultrapassado o cabo dos noventa,ou talvez não,que isto de idades tem muito que se lhe diga. Caminhava quase em ângulo recto,apoiado numa bengala e numa canadiana. Conseguira descer a escadaria de dois lanços,atravessara a rua e embrenhara-se no jardim. Avançava muito tentamente e,enquanto o fazia,soltava gemidos.
Eram ais,numa toada que lembrava,das fitas,a dos remadores das galés. Ele também seria uma,já muito gasta,a desconjuntar-se,mas que ainda se mantinha navegando. Só que nela havia apenas um único tripulante. A cabeça seria a proa. O fluido envolvente deixar-se-ia abrir,sem resistência,com pena dele. E a embarcação lá ia,muito arrastadamente,mas ia.
Parou junto ao quiosque. Encostou os apoios e ergueu com esforço a cabeça. Pediu um gelado,pagou,recebeu o troco e retomou a navegação,mas por apenas mais uns metros. Sentou-se num banco,pousando a iguaria ao lado. Tossiu,assoou-se,instalou um cigarro na boca e acendeu-o. Tudo isto sem pressas,como que antegozando o festim.
Finalmente,chegou o grande momento. Chupava,dava uma fumaça,tossia e olhava. Para onde? Ficaria isso com ele.

LAVATÓRIO NUNCA VISTO

Aquilo foi um salto quase mortal. Mas porque se tratava de moços já muito calejados por outras lides,não houve mortos a registar.
Depois de uma noite bem passada,entre lençóis de pano cru,um lavatório por eles nunca visto esperava-os. A surpresa foi grande,mas bem depressa se recompuseram.
Tratava-se de um vasto tanque rectangular,que em tempos servira para dessedentar quadrúpedes. Três bicas,de volumoso caudal,encarregavam-se do serviço.
Deixando de haver tal clientela,aquelas bicas e aquele vasto tanque não podiam ficar para ali sem préstimo. E ali estavam,agora,aqueles moços fazendo bicha ordeira,esperando pela sua vez,não para matar a sede,mas ,simplesmente,para lhes espantar algum resto de sono. Seria,de facto, difícil arranjar melhor método. De fria que a água brotava,era capaz de ressuscitar uma legião de mortos.

GOSTOS DIFERENTES

Um mosquito provou e soube-lhe a mel divino. Dali não saiu enquanto não encheu a barriga. Mas como não era egoísta,passou a palavra e veio a família toda. Desta vez,a pobre vítima apercebeu-se do sarilho em que estava metida e procurou livrar-se dele. Mas,coitado,precisava de muitas mãos e ele só tinha duas,que era,neste transe,o mesmo que nada. E,assim,teve de fugir dali,se não ainda o comiam vivo.
Mas o trabalho tinha de ser feito. Voltar lá com a mesma arma,seria nova retirada,pois estariam lá à espera. Era,pois,urgente arranjar outra muito mais eficaz. Ele era um zero em matéria de defesa e muito menos de ataque. Teve,assim,de bater a porta de gente experimentada nestas lides.
Conheciam,de facto,uma outra arma,há algum tempo inventada,e que já dera muito boas provas em várias frentes. Naquele local,de muito atraso,não havia ainda,mas bem depressa lhe mandariam uma,visto partirem brevemente para um outro,onde ela se podia obter com facilidade.
Afinal,tratava-se de um líquido, aparentemente inofensivo,de cheiro muito agradável. Mas os animaizinhos alados mal o sentiam,fugiam dele a sete asas. O que muitas vezes vale é haver gostos diferentes,como foi neste caso.

UMA DÚZIA DE FIORDES

Imagem retirada do Flickr,by Erik Kolstad
Imagem retirada do Flickr,by p212121

Imagem retirada do Flickr,by D.C. Elliott


Imagem retirada do Flickr,by David Thyberg



Imagem retirada do Flickr,by IrishPics




Imagem retirada do Flickr,by tin a070382





Imagem retirada do Flickr,by gmills31






Imagem retirada do Flickr by fromky







Imagem retirada do Flickr,by vidarnm








Imagem retirada do Flickr,by Luca Skracic









Imagem retirada do Flickr,by Valentina S.










Imagem retirada do Flickr,by acheronO











segunda-feira, 19 de maio de 2008

TERRAÇO FLORIDO

A via era estreita e de mau piso. Não convinha,pois,olhar para os lados. Mas pouco se veria,que o eucaliptal era cerrado. De repente,tudo mudou,em atenção,certamente,a uma igrejinha.
O panorama atraía,extasiava. Estava-se mesmo em local sobranceiro ao Douro,que corria,pujante,ali a dois passos. Encostado à igrejinha,um cemitério,também maneirinho. Não se via uma campa rasa. Todos tinham tido direito a coisa melhor e a muitas flores. Aquilo não era um cemitério,era um jardim.
Em boa verdade,não podia ser de outra maneira. O largo rio estava ali a dois voos,nas verdes encostas alvejavam lugarejos,alguns barquinhos deslisavam mansamente e o da carreira cruzava a horas certas. Como é que haviam de estar os mortos,ali naquele terraço florido à beira do rio Douro,do rio do Vinho do Porto? Apetecer-lhes-ia tristezas? Não parece. E exigiriam.
Queremos aqui sempre flores. Esta vista pede festa,permanente. Passávamos aqui,quase a correr,sem horas,nem disposição para a disfrutar,que a vida exigente não nos dava descansos. Mas agora,não. Que maravilha. Pode dizer-se que foi uma pena não termos vindo para cá há mais tempo. O que perdemos. Isto é que é vida. Não desejamos outra coisa.

VOO PICADO

O inimigo espreitava,preparado para enfrentar mais arremetidas do adversário. Julgando que ele vinha com novas armas,aguçara o engenho ,no intuito de melhor se defender e atacar. A tarefa estava facilitada por se metamorfosear continuamente,baralhando,assim,a estratégia do opositor.
De início,surgiu em catadupas de mosquitos,sempre renovadas,que não escolhiam hora para investir. A ferocidade era idêntica tanto de noite como de dia,quer ao sol ou à sombra. Não davam descanso. Os braços andavam numa roda viva ,em tentativas de afugentá-los. Riam-se de tal aparato e atiravam-se em voo picado,cada vez mais encarniçadamente.
Depois,multiplicou-se em máquinas de fazer sono. O gado abundava,favorecendo a disseminação. Para precaver,pois não é aceitável ficar a dormir por muito tempo ou para sempre,houve que suportar tratamento doloroso,que pôs um a mancar durante dias.
Mas não se ficou por aqui. Aproveitando a formação de muitas lagoas,na sequência de inundações,converteu-se numa amiba causadora de grave doença renal. Quem viesse,pois,a contactar aquelas águas,estava sujeito ,um dia, a expelir líquido avermelhado. Para se defenderem,muniram-se de botas de borracha de cano alto,que nem sempre estiveram à altura,devido a desníveis inesperados.

BOATOS

Era uma mansão que despertava as atenções,pelo perfil exótico,ali isolada,entre azinheiras. Naquela altura,parecia desabitada. Para que serviria?,apetecia inquirir. Não foi preciso indagar muito.Bastou ouvir as más línguas,sempre prontas a informarem.

Ali tinham ocorrido,com alguma frequência,cenas velhas como o mundo. Estava o sítio calhado para encontros furtivos. E quando duas vontades se conjugavam,lá era ela o palco escolhido.

Longe de tudo e de todos,ninguém daria por nada. Mas há sempre pássaros calhandreiros dispostos a não ficarem calados. E ali,naquele aconchegado arvoredo,não faltariam. E assim,facilmente se espalhavam boatos.

Uma coisa era,porém,certa. O palacete,nos últimos tempos,atravessara dilatados períodos de abandono. Algum facto anormal teria acontecido. É que um dos actores,o principal, de resto,estava muito velho,quase com os pés para a cova. Tinha de se refrear.

AS MESMAS QUEZÍLIAS

A dona da casa tinha carradas de razões para desabafar,embora o fizesse com um hóspede. Este agradecia e quase estimulava,pois ,desta maneira, tinha frequentes aulas para melhorar o seu inglês. Arranjara,assim,uma professora de borla,ainda com a grande vantagem de não ter de ir apanhar mais frio,e mais chuva.
Pois claro que a senhora estava cheia de razões. O desabafar até lhe fazia bem. Ela ali feita escrava, a ter de arrumar quartos,havia mais dois hóspedes,fazer limpezas,confeccionar refeições,e a cunhada,aquela rica peça,a flanar,só. Com a morte do marido ,ficara com uma boa pensão,que ela se encarregava de desbaratar em diversões e compras supérfluas.
Ele eram passeios,quase todos os dias,ele eram almoços ,em bons restaurantes,com as amigas,ele eram chapéus sempre à moda. E a água que ela esbanjava nos intermináveis banhos? Parecia ser ela uma menina. Mas quem pagava as contas era o marido,pois então. E ela havia de se ralar.
Postas as coisas nestes termos ,está-se mesmo a ver que as duas senhoras só por um muito mero acaso se cruzavam. Fugiam,positivamente, uma da outra,o que era facilitado pelo tamanho do "home". A cunhada refugiava-se no quarto,só de lá saindo para se lavar e ir às tais diversões e compras.
O hóspede já andava muito desconfiado,por outras cenas,noutros palcos. Afinal,parecia não ter saído da sua terra.É que viera encontrar as mesmas quezílias.

DESCULPA ESTAFADA

Os trabalhos em que aquele pombo se foi meter. É que tinha dois amores. Logo que elas souberam disto,sempre que se encontravam nascia grosso sarilho. Não se podiam ver. Assim,o pobre do pombo teve de ir à procura de duas moradas,mas não umas quaisquer,pois elas não deviam perder a cabeça quando estivessem no choco. Aqui tinham de ter muito juízo,estava-lhes interdito engalfinharem-se.
Não foi tarefa fácil. Depois de muito suar,lá conseguiu o que convinha. Nem de encomenda. Tratava-se de duas varandas amplas,pejadas de vasos,em fachadas opostas. Viviam lá no andar dois velhos,que muito raramente abriam as janelas. Quando os miúdos ensaiassem os primeiros passos,era,também,muito remoto o perigo de irem parar lá abaixo.
Elas aceitaram,tanto mais que controlariam melhor o tempo que ele repartia pelas duas. Não podia dar a desculpa estafada da demora por causa da distância.

domingo, 18 de maio de 2008

PEDRA MAIS DURA

Lá estavam, em letras gigantes,as rendas mensais daquele rés-do-chão. No primeiro ano,cinco mil euros,cinco. No segundo,seis mil,seis. No terceiro,sete mil,sete. Como se vê,umas míseras quantias. Coisa para amigo.
Mas olhe que não é só aqui. Por estas bandas,é o que corre. Pois ninguém lhes pega. Mas dali não descem. Não são de mudar. Palavra de rei. Preferem tê-los,assim,vazios,às moscas.
Mais tarde ou mais cedo,alguém avança. Aí,seu valentão. Um outro faz o mesmo. E,para se defenderem,tabelam por alto. E a dada altura,está tudo pela hora da morte.
É o Mercado,Todo-Poderoso,Mercado que meia dúzia comanda. É isto um jogo,um jogo excitante,com paradas altas,só para corações fortes,corações de pedra. Nada os demove,são insensíveis.
Depois,seis, são muitos. E,mais tarde ou mais cedo,acaba por ficar um apenas,o da pedra mais dura.

BACALHAU DO VALE

Eram aqueles uns lugares e uns tempos de muito atraso. Não admira,pois,que alguém de longe tivesse de ser esclarecido. E foi o que aconteceu uma ou outra vez.
Oiça lá,o que é que está para aí a comer? Tratava-se de um conduto que lembrava o chouriço,quanto à forma,mas de cor branca. Nunca viu? Sabe,é que o merceeiro é muito desconfiado,e lá pensou que eu lhe podia pregar o calote. Os tempos vão maus. Isto,a bem dizer,não passa de toucinho,e de fraca qualidade. Defende-se,e eu sempre vou comendo alguma coisa.
Então,o que foi hoje a dieta? Olhe,hoje calhou ser sopas de pão com bacalhau do vale. O senhor Joaquim está a mangar comigo? Eu? Nunca me atreveria. Pois foi isso mesmo que ouviu,nem mais,nem menos. O pão,sabe muito bem o que é,visto também o comer. Só não conhece é este bacalhau,pois não é destas bandas. Sabe,o verdadeiro está muito caro para a nossa bolsa. Assim,inventámos este,que é uma ervinha que há aqui nas redondezas em abundância. E lá nos vamos iludindo.
Onde é que se pode matar a sede,que está um calor dos diabos? Está ali a ver aquele poço? Lá dentro há muita água. E ela é boa para uma pessoa a beber e não ficar doente? Já se vai ver. Pode bebê-la quanta quiser,que é o que eu vou fazer. É que lá dentro há rãs. Como elas estão ali bem vivas,não as ouve a falar?,a nós não nos há-de fazer mal.

NÃO PASSARA DE UM SONHO

Num país longínquo,onde reinava a pobreza,havia um pai que nela mergulhara também. Jurara ele,um dia,desta pobreza libertar-se. Por si ,seria incapaz. Mas Deus dera-lhe um filho que saíra prendado. E nele depositou todas as suas esperanças. Seria este filho a chave que lhe abriria a porta da abundância.
O que este pai sonhou. Não seria um sonho impossível de realizar. É que as prendas deste filho pareciam não ter fim. Tudo indicava que com um pouco mais de tempo a riqueza chegaria.
Andava este pai num grande alvoroço. Não havia fardo ,por pesado que fosse,que o não achasse leve. É que estaria prestes o eldorado.
Pois é. Ele não contava que o diabo estivesse atrás da sua porta. E este,impaciente,entrou em cena. Só que foi com o filho que se meteu.
O filho procurou manter o pai na ignorância desta tropelia do diabo. Compreende-se muito bem este passo. Mas foi em vão. E não se sabe como este pobre pai veio,um dia,dar com o filho estendido numa cama,padecendo de doença ruim,ao cuidado de gente estranha.
Não se sabe,também,como este pobre pai não se ficou logo ali. Tudo não passara,afinal,de um sonho. É que a doença era daquelas que não matam,mas debilitam,cortam as asas. Com o filho assim,teria de permanecer na pobreza.

MESMO ASSIM

Aquela grande quinta,em plena urbe,que ele via lá do seu quarto, de um lar para idosos,desafiava-o. Vivia agora ali,acompanhando a mulher,a precisar de cuidados médicos,pois,coitada dela,já não dizia coisa com coisa. Era a velhice,que a uns chega mais cedo. Ele,graças a Deus,apsar dos seus oitenta e dois anos,ainda estava rijo.
Havia de lá ir um dia. E calhara naquela tarde soalheira. Lembrava-lhe aquela quinta os seus começos. Abalara de lá,da sua aldeia,um moço ainda. Mas era a vida. Tivera de se fazer a ela,que lá na terra aquilo pouco dava.
Quase quarenta anos a percorrer essa Europa,como condutor de longo curso. O que ele vira,por onde andara. Podia dizer que fora a quase todos os cantos. Aquilo é que eram terras. Mas nunca se esquecera dos tais começos. Tinham-se-lhe entranhado,lá bem no fundo.
E ali se encontrava ele agora,coscuvilhando a grande quinta,que ele via lá do seu quarto. Lá estava a vinha,lá estavam os pomares,lá estava a terra de semeadura. Aqui devia estar trigo,que a terra parece estar a pedi-lo. Tem boa cor.
Bem,já matei as saudades. Tenho de me ir chegando,que a patroa está para lá sozinha. Ela,coitada,a bem dizer,já me não conhece. Mas faz-me ela companhia a mim,mesmo assim.

DE INVEJAR

Um dia,o senhor António desabafou. Andava há tempo para o fazer,mas não se atrevera.Você já reparou bem no estado em que anda? O calçado é uma vergonha e a roupa vai pela mesma. Hoje está toda enlameada,mas já a tenho visto coberta de poeira. Depois,anda para aqui a pé,dum lado para outro,porque doutra maneira não pode ser.
Tenho pensado muito,mas não há meio de entender porque é que não tirou outro curso,como o de médico ou de leis. Os que conheço lá da terra levam uma muito melhor vida. Ora se levam. Você pode gostar muito do que anda fazendo,mas olhe que não lhe gabo o gosto. Então não era melhor ser doutor delegado,como o de lá da vila,que tem um lugar marcado lá no cinema e anda vestido que nem um fidalgo?
Não me diga que não é outra coisa. Eu cá não tirava o seu curso. Tantas letras,tanto aturar professores,tantos exames,e,depois,para quê? Para andar aqui feito labrego,com sua licença,quase como eu. É certo que há uma grande diferença,mas a vida do doutor delegado ou do doutor médico,isso é que são vidas,de invejar.

ÀS MOSCAS

Fazia um calor dos diabos,daquele de "está d'escachar". Apetecia,àquela hora da manhã já alta,estar recolhido numa sombra amiga. Era o que acontecia com um grupinho que cabeceava debaixo de uma frondosa árvore.Esperavam,certamente,que os não viessem incomodar com inquirições esquisitas. Pois andavam em maré de azar.
Um forasteiro queria saber,com falinhas mansas,onde ficava o museu. Ele havia cada um. O museu. Ainda se fosse a taberna de fulano ou a venda de sicrano,vá que não vá,mas o museu era mesmo de pessoa muito estranha,talvez de estrangeiro.
E o homem insistia,não largando as tais falinhas. O Manel era capaz de saber. Sim,isso ficava lá para baixo,ao fundo. Estaria aberto?,a pensar que iria bater com o nariz na porta,depois de ter descido uma respeitavel ladeira. Isso é que era saber demais.
O homem agradeceu,pedindo desculpa pelo incómodo,e já que tinha chegado até ali,aventurou-se. Estava aberto,mas a porta iria encerrar,sem apelo. Era absolutamente necessário irem descansar,depois de toda uma manhã às moscas.

MEIA DÚZIA DE SUN RISES

Imagem retirada do Flickr,by tn.m109r
Imagem retirada do Flickr,by phxpma

Imagem retirada do Flickr,by OLDSKOOLDAVE


Imagem retirada do Flickr,by jay jay baggins



Imagem retirada do Flickr,by fairy810621




Imagem retirada do Flickr,by a.rafeeq





sábado, 17 de maio de 2008

O SONHO

A realidade. O frio. Os bichos maus.

O homem nasce. O homem das cavernas. O medo.

O homem fraco. O homem forte. Os territórios.

O senhor. O servo.

A prepotência.

O sonho.

A revolta.

O fogacho.

A realidade.

O servo.O senhor.

A prepotência.

O sonho.

A revolta.

O fogacho.

A realidade.

...

ERA ASSIM

Aquela latrina de loja em centro histórico de cidade,há uns largos anos,não passava de um acanhado cubículo. O que lá se via não destoava. Um buraco,fragmentos rectangulares de jornal,espetados num arame ferrugento e,nos fundos,um receptáculo triangular para os receber.
Quando os recortes se aproximavam do tecto,vinha pessoal especializado. Traziam grandes sacas de linhagem. E,sem luvas,vá de as encher,calcando.
Um pouco mais adiante,no tempo,a latrina de um terceiro andar de rua nobre,de urbe ainda mais nobre,era um buraco na parede de uma sala,onde se passava roupa a ferro. Lá morava um director de escola,com uma filha que se entretinha o santo dia a massacrar o piano.
Avançando,mas apenas uns escassos anos,a latrina de uma pensão muito concorrida,em vila sede de concelho,era lá fora no quintal. Dois jarros dos grandes,a um canto,esperavam que os despejassem e os fossem encher. Era isso que cada um fazia,indo ao poço,ali ao lado. Fazia-se bicha disciplinada,de homens e de mulheres.
Ainda há quem se queixe,e com razão. Mas naqueles recuados tempos,pouca gente se queixaria. Era assim.

UNS COBRES

O homem fizera há pouco cinquenta anos,mas parecia ter mais. Seria o resultado de muita coisa. A casa onde vivia tresandava a mofo. Não era,pois, aquele o lugar indicado para ele curar as constipações que,volta não volta,apanhava lá na fábrica. Logo lhe havia de ter calhado um serviço que o obrigava a suportar bruscas alterações no termómetro. Já pedira para o mudarem,mas era o mesmo que nada.
O salário não lhe dava para sustentar a família como devia ser. Assim,a mulher,coitada,um monte de doenças,procurava cobrir algumas faltas,batendo a portas que não se lhe fechavam. Enrugada,de olheiras fundas,quase arrastava a sacola com a colheita.
Os filhos só lhe davam apoquentações. Talvez do mais novo viesse a salvação,pois ajeitava-se com a bola. Uma das filhas trazia-o muito ralado. Andava na vida. Entregava à mãe algum dinheiro. Podia ser que encontrasse um homem que gostasse dela a valer e lhe desse um futuro decente.
Era para não se lhe ter feito muitas visitas,pois aquele quadro arrasava. Mas sempre se deixavam alguns cobres e palavras de esperança.

UMAS PALMINHAS

Por cerca de metade do preço,podia-se ir ao teatro ou ao circo,ficando bem instalado. Era isso possível com bilhetes de claque. Adquiriam-se em desvãos de escada,recantos discretos,tudo envolvido num certo ar de ilegalidade,de mistério. Gente de idade monopolizava o negócio. A concorrência aconselhava,obrigava,a não se guardar para tarde.
Eram,afinal,bilhetes de favor,a impor a obrigação de aplaudir,mesmo que não estivesse agradando. Para isso teriam sido inventados,supunha-se,pelo menos suporiam alguns. Era necessária uma falange de apoio,sobretudo nas horas más,para levantar o ânimo.
Haveria fiscais,mas não se dava por eles. Imaginavam-se só. Mas,de vez em quando,intervinham, discretamente. Agradecia umas palminhas,não custa nada. E lá se fazia o jeito,receando ser castigado em futuras ocasiões.

O CANTO DO CISNE

Dali,só para a sucata. Dera ainda um ar de sua graça,mas fora como o canto do cisne. Estivera a despedir-se desta trabalhosa e tormentosa vida,que para ele se contara por algumas centenas de milhar de quilómetros,pelos mais diversos pisos. Naquela altura,apenas havia uma coisa a fazer e que era esperar por reboque.
Era de noite,daquelas noites que só os pirilampos alumiam. Era,também,das que as cigarras muito gostam,pelo que o concerto não teve pausas. Seria,igualmente,para animar aquele velório,que parecia ter de prolongar-se por algumas horas. Quando já se tinham resignado a aguardar ali a luz do dia,eis que surge ao longe uma luz que talvez trouxesse a salvação.
Aquilo era gente rija,sem medo de assaltos. O aspecto do cadáver não abonava muito,efectivamente,a favor dos familiares. Pararam e saíram logo,sem reservas. Então,o que há? Isso vai já resolver-se. Foi só atar uma corda,das grossas. Não assistiram ao enterro,pois foram disso dispensados,atendendo aos cuidados que tinham posto no transporte do falecido.

FLUVIÁRIO DE MORA,MAIS UMA VEZ



Na VI Edição da Bienal Ibero-Americana de Arquitectura e Urbanismo(BIAU),o Fluviário de Mora obteve uma Menção Honrosa na categoria de Melhor Obra.
O Fluviário é uma realização da Teixeira Duarte,da Promontório Arquitectos,do ilustrador Pedro Salgado e do escultor e "designer"Henrique Cayatte.
Imagem retirada do Flickr,by Browserd

BOAS NOTÍCIAS

Sobretudo,para aqueles,aí uns 3 mil milhões,que têm no arroz o seu prato forte. Na Bolsa de Chicago,o preço do arroz baixou 14,7%. Isto,porque Japão e Paquistão libertam exportações deste "staple". Espera-se,também,uma excelente produção para este ano,talvez a maior. Comentários,para quê?

sexta-feira, 16 de maio de 2008

PROMESSA DE PRAIA

No verão,o calor era de abrasar. Tinha sido sempre assim naquela terra. Os que nela teimavam em permanecer,ter-se-iam conformado. Quando mal ,nunca pior. Havia,de facto,casos piores,ora se havia.
Mas não seria de admirar que a alguns,se não a todos,tivesse brotado o desejo de verem ali,ou lá perto, uma praia,para se poderem refrescar. Bom jeito lhes faria,quando largassem o trabalho,ou quando não tivessem algo para fazer,o que deveria suceder muitas vezes.
Seria isto apenas um simples e inofensivo desejo,nada mais. Mas um desejo de todo justificado,sem qualquer dúvida. Teriam pensado,uma vez por outra,que talvez ele se pudesse satisfazer. Quem sabe? Acontece tanta coisa aparentemente impossivel.
E um dia,o que é que havia de suceder? Apareceu por lá um senhor de falinhas mansas,todo convincente,de muitas artes e manhas,a prometer-lhes uma. Era garantido. Poderiam ir já vendo-se banhar em frescas águas. Ele era um homem de muitos recursos,já postos à prova,com êxito,noutros cenários.
Para tal,bastava que nele confiassem e lhe dessem os votos. Assim fizeram,mas praia é que nunca lá viram.
Ter-se-ia isto passado? Parece que sim. É que ainda há pouco,por um mero acaso,alguém,de muita idade,lembrava uma quadra,ouvida bastas vezes quando por lá andara,que se fazia eco de tal promessa.

DISPARATES

É um deitar a baixo,é um desfazer interminávies. Ah,esta estrutura humana suicidiária. É sempre um dizer mal. Nada de sinergias. É sempre um repelir. É sempre um de costas viradas. Nada de abraços,só encontrões,ou ausências.
Olha,se em outros corpos tal sucedesse? Estávamos bem arranjados. Nos corpos vegetais,nos corpos dos animaizinhos.
Se,um dia,a clorofila se zangasse, e deixasse de gostar do CO2? Ou ,se a hemoglobina lhe desse para desprezar o O2? Tínhamos de ir dar uma grande volta,da qual não regressaríamos.
Mas estes acasos não colhem. São uns disparates,daqueles sem dimensão à vista.
Que atrevimento. A querer impressionar o homem e a mulher,que estão ambos no mesmo barco,por sinal,um barco a modos que redondo,que roda,roda,sem parar,que é o homem ,ou a mulher,a conduzirem. Oh,conduzes,vou ali já venho.
Fazem-se muito fortes,o homem e a mulher,mas, coitados,não passam de uns bonequinhos, a quem deram corda. E agora,e antes,é vê-los todos senhores de si,a olhar para o seu umbigo,que foi por ali que quase tudo começou.
Já se viu uma coisa destas? Se desaperecessem? Continuaria o resto na mesma,ou melhor. Se fosse o resto a desaparecer,pobres do homem e da mulher. Iriam desta para melhor.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

CHÃO SAGRADO

São apenas uns palmos de terra. Vêm todos eles de um tetravô. Que a sua alma descanse em paz,pois têm-me dado um grande jeito. Nem todos os pedaços que amanho têm esta origem. Aquele além ia-me custando os olhos da cara. Não descansei enquanto não pus nele a minha marca. As horas que eu e a minha mulher gastámos a fazer contas e a refazê-las,sonhando ao mesmo tempo. Mais um ano e será nosso. E assim conteceu. Mas não foi só aquele. Lembrei-me de o citar porque é o melhor. Não é por ter sido eu a comprá-lo,mas está ali um belo tracto. É pena serem todos pequenos,mas juntos ,dava para ter uma boa quinta.
Têm-me dito que devia trocar alguns,de maneira a formarem-se parcelas de tamanho mais azado para os granjeios. Sempre que me falam nisso,fico fora de mim. Eu,abandonar o chão sagrado dos meus antepassados,e mais o que acrescentei com,pode dizer-se,sangue,suor e lágrimas? Nunca,enquanto viver. E os meus filhos,estou seguro disso,lêem pela mesma cartilha. Além do mais,onde é que se iriam encontrar terras como aquelas que nós temos? Não há melhor aqui nas redondezas. Só as carradas de estrume que eu lá tenho espalhado,para não falar dos químicos,que me têm custado bom dinheiro.Desentranham-se em milho e batata que é um gosto. E a qualidade do vinho? Se produzisse mais,faziam bicha aí à porta.

PEDRINHAS DE CALÇADA

De que país seriam aqueles moços? Eram todos altos,fortes,de cabelo quase rente,de cor alourada. Talvez fossem desportistas. De onde tinham surgido,parecia isso indicar.
Vinham caminhando ao longo de uma rua,sobre o passeio. Não teriam muita pressa,pois as passadas eram lentas. O ar deles era de curiosidade e estavam gostando muito do que viam. A rua,era uma rua humilde,de humilde bairro. Tudo para eles era novidade e não se cansavam de manifestar a sua admiração. Nice,very nice. Era tudo nice. A montra da padaria,a loja dos frangos,a drogaria,a sapataria. Mas o que mais os encantava era o empedrado do passeio,aquelas pedrinhas de calçada.
De que país atrasado teriam vindo,para assim ficarem extasiados perante tais maravilhas? Houve alguém que não resistiu a perguntar-lhes. Tinham vindo de Chicago. Que pena não poderem levar aquele empedrado tão giro. Very nice.

O CÉU E O INFERNO

Era aquela uma verdade muito sua e,talvez,de mais alguém. Tinha-a aprendido ele na escola da vida. Não precisara,nem tivera,pode dizer-se,outra. E ali estava ele a anunciá-la,pleno de convicção. Um homem que se fizera à sua custa,sabe Deus como. Um homem,naquela altura,muito rico. Um homem que partira do nada. Andara de porta em porta,a esmolar trabalho. Tinha prazer em o revelar.
Pois fiquem sabendo que o céu e o inferno são cá em baixo. Tê-los ia experimentado,a valer. A morte é o fim definitivo. Do pó viemos,ao pó regressamos.
Era religioso,muito religioso,que era assim que a sua mãezinha lhe tinha ensinado,
a sua mãezinha,que ao pó regressara. Podia ter aproveitado,como muitos fazem,para aludir a Deus. A sua mãezinha,que Deus lá teria no Céu,com certeza. Mas não,era muito,muito religioso. Nunca se esquecia das suas orações,como a sua mãezinha lhe ensinara.
Viera,naquela altura,lá de um dos seus palácios,lá onde tinha coudelaria e tudo o resto a condizer. Viera ver se outros seus bens continuavam lá onde os deixara. Mas não usara,desta vez,o seu jipão. O comboio o trouxera. Era muito mais económico. Sim,que a vida não estava para bricadeiras. Estava-se a fazer precisado.
Ele sabia que havia muita fominha,muita miséria. Também passara por isso,não era novidade para ele. Mas a culpa era toda dessa gente. Trabalhassem,como ele fizera,ali no duro. Eram todos uns calões. Dêem-lhes sementes,dêem-lhes enxadas,que aquilo é terra abençoada,é capaz de dar três colheitas num ano. Ponham-nos a trabalhar. São uns mandriões,não querem mexer uma palha.
Era religioso,muito religioso. Não tenham ilusões,que o céu está cá em baixo. Para o ter,façam como eu. Não é a mandriar. Labutem,como eu labutei. Conheci bem o inferno,que está também cá em baixo. Era religioso,muito religioso. Não se esquecia,nunca,das suas orações.

BORRACHO

Conhecem,com certeza,não estarão é lembrados. Esvoaça, pelo hemiciclo, um pombo, e está no uso da palavra alguém do clero. Olhem,é o Espírito Santo,a dar uma ajudinha. Engana-se. É a pomba à procura do borracho.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

OS CRISTOS DE ARTUR BUAL

















Uma paixão. Com o curso da António Arroio,foi um dos maiores pintores portugueses da segunda metade do século XX. Um extenso artigo,de 2007, no Boletim Informativo da Câmara Municipal de Lisboa,evoca-o. Possuidor de uma boa voz,entrou em concursos,nos tempos da sua juventude. Na véspera das actuações,percorria os departamentos da Junta de Colonização Interna,onde trabalhou trinta anos,a lembrá-lo. Das palmas,dependia,em parte,a pontuação.