domingo, 31 de janeiro de 2010

BARTOLOMEU CID DOS SANTOS - CENTRO DE ARTE MANUEL DE BRITO

http://www.cm-oeiras.pt/noticias/Paginas/BartolomeudosSantose.aspx

O DIABO TECE-AS

A mulher morrera-lhe já há uns anos,mas ele nunca dera mostras de se ter conformado. A cada passo,carpia copiosamente junto de amigos e de conhecidos de qualquer data. Só esperaria que a morte também o levasse.Mas nunca se diga que desta água não beberei. E assim,sem aviso prévio,dá segundo nó. Desta vez é que era para o resto dos seus dias. A senhora tinha casa posta,pelo que se desfez daquela onde vivera largos anos com a muito chorada defunta. Desfez-se também dos tarecos,que seriam supérfluos e,talvez,lembrassem a outra,o que não era conveniente.O diabo tece-as,porém,frequentemente. E decorridos escassos meses,o segundo nó desatou-se,não porque ela se tivesse finado,mas simplesmente porque assim decidiram.E agora? Casa como a primeira,de renda antiga,onde é que ele a iria arranjar? Não teve remédio,se não alugar um quarto,um modesto quarto,pois a magra pensão não dava para mais.Novamente o invadiu uma grande tristeza,onde se cruzariam,pelo menos,o ressentimento e a contrição Alguém insinuou que teria havido ali intervenção da que se vira substituida. Lá onde estaria fizera as suas queixas e fora atendida. Para que lhe servisse de emenda. Traições destas não se toleravam.

COISA ÉPICA

Hoje será muito diferente,com certeza,mas naquela noite de um frio de dezembro,há uns bons sessenta anos,a passagem por uma urgência de hospital foi assim.Declarara-se uma apendicite que pedia internamento imediato. Mas para se poder deitar na cama que o esperava,em enfermaria de larga concorrência,não foi coisa fácil. Pode dizer-se,até,sem grande exagero,que foi coisa épica.Para começar,teve de se sujeitar aos cuidados do fígaro. Se não fosse uma nota de vinte,naquele tempo era dinheiro,teria apanhado com a máquina zero. Mas havia mais etapas a vencer. Dali,pasou,sob escolta,não lhe apetecesse fugir,à secção da higiene corporal. Una tina de mármore,que mais parecia um sarcófago,estava preparada. O ar da sala,de pé direito dos antigos,era gelado e a água imitava-o. Seria constipação certa. Lá foi providencial outra nota de vinte. Ia já preparado.Estava quase lá,mas tinha ainda de mudar de farpela. Nunca se vira metido numa camisa daquelas. Parecia a de um presidiário. Mas não havia outra. Finalmente,a tão sonhada cama. O que é lá isso? Esse fio não pode estar aí. Por vezes,dá-lhes para o apertar demasiado. O que lhe valeu foi a intervenção de uma menina enfermeira que se condoeu. Deixe lá o rapaz ficar com o fio. Eu responsabilizo-me. Pôde, então, descansar e rezar com a cruz entre os dedos.

AS ÁRVORES

O que são as coisas. A vitalidade que ia por aquela horta,de que dava bem sinal o trabalhar de um motor quando a terra tinha sede,que lá por baixo correm águas bem nutridas. Uma cerca aramada a envolve.
Pois levou tudo uma grande volta,incluindo a fronteira,que,pode dizer-se,deixou de cumprir as suas funções,de tão arruinada está. Já se não ouve motor,já se não vêem hortaliças,já se não vê hortelão. Só lá permanecem as árvores,que essas, sabem dar bem conta de si,enquanto o deixarem.

sábado, 30 de janeiro de 2010

DENTAL MATURATIONAL AND DENTAL TISSUE PROPORTIONS IN THE EARLY UPPER PALEOLITHIC CHILD FROM ABRIGO DO LAGAR VELHO,PORTUGAL

http://www.pnas.org/content/107/4/1338.abstract

PASSAM DE LEVE

Surgem pela noite,imitando os morcegos. Asas não têm,mas passam de leve,como voando. Fazem pela vida,honestamente. Trazem flores,a sua mercadoria,bem acondicionada em invólucros transparentes.Onde as expõem? Procuram mesas onde se coma. Privilegiam casais de todas as idades. Não insistem. Recearão importunar.Entram,vagueiam,voejam,sem uma palavra. Palavras para quê? Alguns não as saberão e outros não lhes sobrará ânimo para as soltar.Uns serão afortunados por tocarem nos sítios certos. Outros cansar-se-ão vãmente. Mas virem de tão longe para este peregrinar é coisa triste.

COBIÇAS

Há pessoas insaciáveis. Querem sempre mais e mais. Seguem muitas vezes,na satisfação dos seus apetites,as iniciativas de outros. Nada podem ver neles que não desejem também. Parece faltar-lhes gostos próprios,necessitando de indicações alheias. Não lhas pedem,ficando apenas à espreita. Vão logo atrás,não perdendo um minuto,adquirir o que de novo viram em alguém. Vivem assim num desassossego permanente. Neste frenesim,são capazes de contrair doenças graves. Mas isso pouco lhes importa. O que lhes importa, é ficarem como os outros nos teres.Mas há desejos que não lembram ao diabo. Cria um pai o filho com todo o carinho,dá-lhe os brinquedos que ele quer,está sempre pronto a satisfazer-lhe a mínima vontade,e um dia,lá para diante,invertem-se os papéis.É o pai a bater à porta do filho. O pai ainda não é muito velho e está ali muito capaz de todas as curvas. E sabem o que dois pais se lembraram de pedir a dois filhos? Pois pediram-lhes as namoradas. Pediram e não demoraram muito a casarem-se com elas.Os filhos ficaram para morrer,pois gostavam das moças. Não aconteceu assim,mas não mais foram os mesmos.

RAMALHETE

Era gente que só se sentia como tal,andando com gente importante,comendo à mesa com ela. Depois,para compor o ramalhete,faziam-se sócios de clubes,como o Benfica.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

CRÓNICA DE UM ENIGMA

http://www.sabob.com/Products/Cronica_de_um_enigma_Portuguese_Edition.html

A CATÁSTROFE

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/queiro10.htm

TAL COMO NA VIDA

A forragem estava boa para corte. Vieram três homens de uma aldeia próxima. A tarde ia a meio e o calor apertara. Protegida a nuca com lenços,os jornaleiros ceifavam o trevo,bem desenvolvido e basto.Algumas vacas já estariam com água na boca,antegozando o festim. Tinham de ter paciência,que, antes disso, ia-se assistir a um espectáculo digno de registo.É que um dos ceifeiros encontrou um ninho com vários ovos. Mas que coisa boa,manifestaram-se eles exuberantemente. Vêm mesmo a jeito,pois já estávamos a precisar. Sem cerimónias,após justa divisão,trincaram-nos e enguliram-nos,inteirinhos.Mas estavam com sorte,pois,pouco tempo volvido,apareceu outro ninho. Desta vez,rejeitaram a casca,depois de os meterem na boca.E a sorte continuou. Já quase saciados,com vagares,partiram os ovos. Mas a sorte não findara. Esse ninho foi poupado.Afinal,como na vida. Uns são sacrificados,outros conseguem escapar-se. Vá-se lá saber porquê.E as pobres mães? Tinham sido iludidas. A elevada densidade do trevo não lhes salvara os filhotes a haver.

TENDAS DE MARAVILHAS

Olhava para o ferrador com admiração. A coragem que devia ter para estar ali com uma das patas do cavalo sobre a sua coxa,a desbastar-lhe o casco e a fixar-lhe a ferradura. O animal,quando entrara,parecia não estar para ali virado,tais os gestos negativos que fizera. Mas a uma palavra sua,ao contacto da mão correndo-lhe o dorso,todo ele se aquietara. As vezes que o vira fazer o mesmo. Um tanto afastado,não fossem acontecer surpresas,observava embevecido a sua arte. A operação tinha uma fase mais empolgante,os ajustes. As ferraduras,presas por tenazes,iam à forja as vezes necessárias para as adaptar bem às diferentes patas. No cravar,residia a fase de maior expectativa,pois estava sempre com receio de que o pobre cavalo acusasse a dor.Quase ao lado,ficava outra tenda de maravilhas,o torneiro. Os objectos de madeira que o artista sabia fazer. O que mais o entusiasmava era o fabrico de peões. Daquilo percebia ele. Os de pinho não prestavam. Bons,só os de azinho.O oleiro,quase da mesma família,estava longe,mas de vez em quando visitava-o. Daquelas mãos e daqueles pés nasciam coisas de espantar. O barro submetia-se gostosamente,pois de pedaços informes iam surgindo,a pouco e pouco,artigos de muito préstimo,depois do toque da cozedura.Sempre que calhava,ia assistir ao feitiço operado numa padaria caseira. Estava interessado apenas no final,sobretudo na saída das merendeiras. Ainda quentes,regava-as com azeite e polvilhava-as com açúcar amarelo,tavez a sua melhor guloseima na altura.

UMA ENXADA

Quando o João e o José chegaram à idade de trabalhar,receberam,cada um,uma enxada. O João pegou na sua e não houve dia em que ele a deixasse a descansar. O José pegou na dele e pô-la a um canto,onde lá ficou a enferrujar. Quer dizer,viveu o José à custa do João.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

D.DINIS - PROJECTO VERCIAL

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/ddinis.htm

UNA CASITA EN EL CAMPO - ÉMILE ZOLA

http://www.ciudadseva.com/textos/cuentos/fran/zola/casita.htm

"NULLA DIES SINE LINEA" - AUGUSTO MONTERROSO

http://www.ciudadseva.com/textos/cuentos/esp/monte/nulla.htm

MORE ACID,LESS IRON

http://www.nature.com/climate/2010/1002/full/climate.2010.07.html

ALTERED MICROBE MAKES BIOFUEL

http://www.nature.com/news/2010/100127/full/463409a.html

AMATO LUSITANO - CARLOS VIEIRA REIS

http://www.vidaslusofonas.pt/amato_lusitano.htm

VEM DAÍ TAMBÉM

Nem de propósito. Pusera-se um belo dia de primavera antecipada. Fora também o dia de pagamento da pensão de velhice. Duas forças que se conjugaram e que puseram os idosos em grande alvoroço. Estavam os corpos e as almas aquecidas.O jardim,especialmente nos locais onde havia mesas,rebentava pelas costuras. Há muito tempo que se não via tanto velho ali. O inverno tinha sido rigoroso,pelo que a casa fora o seu refúgio,mesmo em dias de bolsos mais aconchegados. Davam largas à sua alegria,gozando duplamente aquela ocasião.Encostados a um muro,dois velhos conversavam. Um deles tinha um jornal. Ora vê aí como está o dia de amanhã. E da sua voz desprendia-se um sonho,um desejo. Há que tempos não largava a toca. Tinha de aproveitar o bom tempo e sem demora ,que o dinheirinho voava. Amanhã ainda o veria. E amanhã continuava o sol a brilhar,conforme o jornal dizia. Vem daí também.

MOTOR ESCONDIDO

Impressionava o desempenho do jovem loiro. Fazia parte de um pequeno grupo que se entretinha a jogar à bola na relva do jardim. Distinguia-se bem dos outros rapazes. Além de usar duas canadianas,a disposição das suas pernas era muito diferente. Divergiam um tanto,indo cada uma para seu lado,suspensas. Com excepção da cabeça,que era perfeita,o resto,especialmente o tronco,não destoava daquelas.Apsar de tanto contratempo,pode dizer-se que se comportava tão bem,ou melhor do que os companheiros,no chegar ao esférico,no conduzi-lo,no pará-lo. Um prodígio. Parecia ter quatro pernas,tal o entendimento de membros e amparos.No querer de não ficar atrás dos outros residiria o segredo de tanta vitalidade,de tanta coordenação. Superar-se-ia. A rapidez das deslocações sugeria ter motor escondido. Muito pode,de facto,a vontade. Não removerá montanhas,mas atraver-se-á a fazê-lo. Estava ali um exemplo para tantos,carenciados ou não. Ele era,afinal,um semelhante. Os outros assim o comprenderiam ou aceitariam,tal a naturalidade que punham ao acompanhá-lo nas movimentações.A certa altura,os parceiros deram mostras de desejar um período de descanso. Mas ele não deixou,incitando-os a prosseguir sem desfalecimentos. Não era,efectivamente,um coitadinho,longe disso. Aquele tronco um tanto torcido,aquelas pernas bamboleantes,como pêndulos,pareciam não pertencer àquela cabeça,que quase os ignoraria. As muletas por elas comandadas cumpriam bem o seu papel.

O MESMO

Era o virava o disco e tocava o mesmo. Não seria de esperar outra coisa. E porquê? É que,a bem dizer,todos,afinal,queriam o mesmo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

FREEZING COLD,BUT LIFE GOES ON

http://www.chinadaily.com.cn/photo/2010-01/26/content_9378441.htm

SULFUR CYCLE

http://homepages.nyu.edu/~pet205/sulfur.html

BENEFITS OF FIRE IN REBIRTH AND RENEWAL OF BURNED LANDSCAPE

http://www.sciencecodex.com/the_secret_life_of_smoke_in_fostering_rebirth_and_renewal_of_burned_landscape

REYNALDO DOS SANTOS - CARLOS VIEIRA REIS

http://www.vidaslusofonas.pt/reynaldo_dos_santos.htm

FÁBRICA DE AÇÚCAR

Os pássaros não cabiam de contentes. Não era para menos. Mesmo ali ao pé da porta iam ter por muitos dias abundância de comida saborosa. Os frutos de uma enorme amoreira tinham entrado em plena maturação. Os ramos estavam pejados,quase se quebrando. Não sabiam para onde se virar,tal era a fartura. Saltavam de um poiso para outro,procurando,decerto,os frutos mais doces,que eles bem distinguiam.De vez em quando,recolhiam-se,a descansar,entre a folhagem de choupos altos,que à volta formavam densa cortina. Não encontrariam melhor sala de refeições,no remanso daquelas árvores protectoras. Ali perto,desenhava-se também um pequeno lago,compondo,assim,uma mansão ideal. Poder-se-ia dizer que dispunham de cama,mesa e roupa lavada. Não podiam exigir mais. Mas sem pedir,tinham mesmo mais. Ninguém os importunava,nem concorrência se via. Tudo só para eles.Não viveriam tão ricamente muitos dos seus irmãos. A culpa não era deles,está visto. Não tinham prejudicado ninguém. Os seus pais e avós sempre ali tinham vivido. Fora apenas isto uma questão de sorte. A cama já a encontraram feita e foi só deitarem-se nela.Continuariam assim por muito tempo,pelo que não teriam preocupações com a descendência. Depois,para além daquela fábrica de açúcar,havia outros,não muito longe,para acorrer às necessidades do resto do ano. E quartos não faltariam em árvores que nunca se despiam.

DE MÃOS LARGAS

Estava a ouvir os carros a passar na rua com o chão molhado de chuva a acair. Fora assim que há muitos anos ele acordara de madrugada,algures numa pensão alentejana. Parecia ter-se gorado o trabalho da noite a preparar as coisas para uma sementeira de trevo da Pérsia. O tempo acabou por se recompor e lá foi à procura de auxílio.Apareceu na forma de um velhote muito magro,com barba de dias. Era dono de uma parelha de muares tão velhas como ele. Mas os três sabiam do seu ofício,que a aprendizagem começara cedo e em excelente escola.A água deixara de vir do céu,mas havia mais prometida. As mulazinhas não podiam mandriar,bem como o seu condutor. A obra ficou perfeita. Todos não cabiam de contentes,sobretudo o trio assalariado. Ainda se haviam lembrado deles,graças a Deus. Tinham estado um largo tempo parados,mas não há mal que sempre dure. O par teve naquele dia rancho melhorado e o velhote,para além do que fora estabelecido,banqueteou-se com ceia lauta no café do lugar.A previsão confirmou-se. A chuva voltou,de mãos largas,fazendo das suas. As sementes boiavam. Tinham sido esforços baldados. Feitas as contas,restara a alegria dada ao trio assalariado. Não se perdera tudo.

AS ESTRADAS

As estradas estão ali,prontas a serem palmilhadas. Uns,querem,e podem. Outros,não podem,ou não querem,sabe-se lá porquê. Os que não podem,e queriam,têm razão para se queixarem. Os que não querem,podendo,só se podem queixar de não quererem.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

PREÇO DO MILHO EM BAIXA POR ALTAS PRODUÇÕES

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20602013&sid=aT9Q5MYPlSx8

FERNANDO NAMORA - CARLOS VIEIRA REIS

http://www.vidaslusofonas.pt/namora.htm

OZONE HOLE HEALING = CLIMATE WARMING?

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100125192016.htm

A TEIA

http://photos1.blogger.com/blogger/609/1252/640/P5213676_a.0.jpg

Do blogue OLHARES DA NATUREZA,de ARMANDO GASPAR

Título do autor

QUINTA DAS ABELHAS

Afinal,mora lá gente,tendo direito,até,a uma tabuleta. É a Quinta das Abelhas. Rica hortaliça e rica fruta, teria ela dado, ali mesmo à beira de linha de água, plena de vida.
Um muro meio arruinado,onde dá nas vistas senhorial portão,ainda a limita. Ali encravada entre altos prédios,tem sabido resistir. Dos áureos tempos,resta um emaranhado de árvores e de arbustos,onde as abelhas,e não só,encontrarão comida que se veja.

UM AVISO

Coitados,muito fracos eles eram. Nasciam,quer dizer,não se faziam,e morriam,sem um escapar. Depois,andavam por lá,sempre cheios de sono,de tal maneira,que tinham de dormir todos os dias. Era isso,um aviso,mas eles não ligavam.

QUASE VOANDO

Logo eu saí assim. Assim se lastimaria,mais uma vez,aquele homem. O seu muito abanar da cabeça parecia indicá-lo. Era uma figura magra,enfezada. O chapelinho às três pancadas também não ajudava.Lá ia ele,como era costume,no seu andar lesto,miudinho,quase a partir-se,quando avistou ao longe uma camisola branca,muito justa,de moça encorpada. Estacou de imediato,ficando à espera que ela avançasse. Como que abriu alas,quando ela passou,muito rente a si,que o passeio era estreito. E rodou,quando foi caso disso,um tanto a tremer,a modos que perturbado,prolongando a mirada.A sua vontade seria segui-la. A tanto não chegou. E lá prosseguiu,a cabeça a abanar muito,de passo mais ligeiro,quase a correr,quase voando. Estaria sonhando. Era outono,também,tempo de fantasia.

DOIS POMBINHOS

Que havia" a pomba "de fazer,senão trazer àquela minha varanda daquela minha janela"duas sementinhas? Pousou-as num vaso"sem vida",onde construíra um tosco ninho,com meia dúzia de pauzinhos sobrepostos.Não fora coisa inesperada. É que dias antes,ouvira-se por ali arrulhar desde manhazinha.A pomba lá passou horas chocando as sementinhas. Para não ocorrerem interrupções escusadas,por ser ela muito desconfiada,ficou solenemente acordado que ninguém da casa perturbaria aquele vital aquecimento.E assim,passado o devido tempo,naquele vaso "sem vida" nasceram dois pombinhos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"ENERGY OASES" TO GREEN THE WORLD'S DESERTS?

http://news.nationalgeographic.com/news/2010/01/photogalleries/100122-green-sahara-desert-pictures/#025690_600x450.jpg

AS CIDADES PERDIDAS DA AMAZÔNIA

http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/as_cidades_perdidas_da_amazonia.html

OCEANOS COM TEMPERATURAS ELEVADAS AFETARÃO A VIDA MARINHA

http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/oceanos_com_temperaturas_elevadas_afetarao_a_vida_marinha.html

AS JARRAS DA ÍNDIA

"O que custa a largar na vida não é a esplêndida natureza,as grandes ideias,a luta ou as paixões - é o que fazemos todos os dias,é o hábito. Um médico meu conhecido do Porto,o dr.Frias,acabou com estas palavras: - E os meus doentes? que vai ser dos meus doentes? - Um pobre chefe de via e obras do caminho de ferro que eu conheci em Guimarães,só dizia: - A linha! tenham cautela com a linha! - E a mim,uma das coisas que me vai custar a deixar são os meus papéis. A vida leva-nos e aturde-nos. Lutamos. Debatemo-nos. Mas quando chegamos ao fim estamos todos docemente maníacos. O cúmulo é o caso acontecido com o Alfredo Guimarães,cuja vida se passou na constante preocupação do bricabraque e que na agonia recomendava ainda:- Olhem lá se esses homens quando descerem com o meu caixão vão partir as jarras da Índia que estão no patamar da escada."

RAUL BRANDÃO

Memórias ( Tomo II ) Vol. 1 p.187-8
Relógio D ' Água Editores
Março de 1999

PORQUE O TIOZINHO NÃO SABE?

"...Toda aquela tarde,uma velha estivera acocorada no chão da sala comum,vestida de negro,com os cabelos brancos sobre os olhos,o xaile esfiado pela cabeça,uma taleiguita de estopa no regaço... Tinha chegado essa manhã da Vacariça;era uma velha pequena,chata de cara,amarelenta,lesta e descalça de pé e perna,como em geral andam as mulheres pobres da Bairrada. Ninguém reparava nela,e quase era certo que também ela não houvesse reparado em ninguém....Logo de manhãzinha ela viera,a pobre velha,por esses côrregos verdes dos pinhais,que a urze borda,e o feto grosso do mato,e a gilbardeira espinhosa,naquele tempo,em Dezembro,toda bordada de bagas escalrlates. Ao aproximar-se da estação,gritou-lhe o guarda brutalmente que se desviasse da linha:ela estacara,medrosa,a taleiga de estopa ao quadril,caído o xaile,e sob o chapéu de feltro chato e o seu lenço negro de viúva,enrolado até à boca,como um toucado tunesino. E titubeante,às recuadelas nos rails,a pobre mulher acenava para o guarda,a lhe explicar que era de fora,não sabia;e que trazia no saco o farnel prò filho-porque o tiozinho não sabe?,o filho dela devia chegar no comboio de Lisboa...Ela entretanto,cada vez mais pequena,azougadita,e sentindo renascer-lhe a alma na alegria desse filho restituído aos seus braços,ela corria ao encontro duns e doutros,confundia o seu vulto entre a gentana,sofria os tropeções dos indiferentes,pedindo informações,chamando o filho e revisando as caras uma a uma....-Eh,tia Rosa!Afirma-se no homem que lhe passou a mão no xaile roto..Sou o Clemente,vim do Brasil ontem à tarde...Eh,pobre velha,aqui me tem outra vez nas nossas terras!...-Mas o meu filho? O meu filho?Então o homem correu-lhe os dois braços à roda do pescoço,olha-a um nstante,apenas um instante.-O seu José,Tia Rosa,o seu José...moreu na viagem.Nem um grito de espanto,um queixume,uma lágrima,nem sequer um único suspiro. Aconchega mais o xaile sobre os ombros,baixa a cabeça trémula e gelada,e pequenina,acocorando-se mais entre o tumulto daquela gente alegre,ei-la caminha a cambalear como uma bêbeda...."

FIALHO DE ALMEIDA

O País Das Uvas
Fragmentos de O Filho
Círculo d Leitores
Fevereiro de 1981

FARIAM BICHA

Era uma senhora viúva,mas não uma triste viúva. Parecia uma montra de ourivesaria. Pode dizer-se que não se lhe viam os dedos,inchados,os pulsos,grossos,e o pescoço,largo,tal a carga de anéis,de pulseiras e de fios dos calibres mais diversos que a adornavam.Gostava também de falar,ou,melhor,não podia estar calada. Via-se,mais exactamente,ouvia-se. Onde quer que estivesse,armava logo palco. Ela,sozinha,dava conta de todo o espectáculo. Pela amostra,sobejava-lhe energia e conversa para se defender de qualquer um.Dizem que estou ainda nova e que me devia casar novamente. Mas eu estou bem assim. Nada me falta. O meu defunto marido deixou-me bem amparada,pois tinha uma boa reforma. Para quê casar,pois? Mas era só eu querer. Fariam bicha. Eu sei muito bem o que é que mais os atraía. Era o meu rico dinheirinho. Todos os meses,cento e sessenta contos. Nessa não caio eu. Os homens são todos os mesmos e eu já aturei um. Já chega.O tal que a deixara bem escorada. Santo homem. Soubera compensá-la devidamente por tanto o ter aturado. Onde é que ela iria arranjar um outro assim?

FESTINHAS NA CARA

O que me ia acontecendo. Vê lá tu,eu que não sou nada de pieguices,à vista daquele quadro,quase me chegaram as lágrimas aos olhos. Mas olha que era para tal suceder,mesmo ao mais empedernido.Eram dois velhinhos,ele e ela. Ele,numa cadeira de rodas,muito pálido,muito mirradinho,de boné a tapar-lhe acabeça enfezadita,de cara de quem já não estava ali,naquela clínica,ou em qualquer outro lugar.Ela,muito magrita,de cabeça branca descoberta,muito azougadita. Ia ali,ia acolá,para que se despachassem,que o seu homem precisava de ser atendido com urgência.Mas não o perdia de vista,e sempre que por ele passava fazia-lhe umas festinhas na cara,festinhas muito meigas,a dar-lhe alento,a indicar-lhe que ela estava ali a zelar por ele,como sempre teria estado toda uma longa vida.Pobres velhos,para ali sozinhos,naquela casa cheia de outros doentes. E eu que fora lá também a pedir socorro,senti-me um privilegiado,perante desgraça tamanha.

domingo, 24 de janeiro de 2010

PEIXES VIVOS

Eram o João e o José. O João comandava as vendas e o José encarregava-se das contas. Um,sabia de números e de letras,o outro,de trapos e demais família. Mas não havia duas pessoas mais iguais e mais diferentes.Eram iguais em quê? No tamanho,para o baixo,na cabeça pendida,no cabelo negro e basto,nos olhos fugidios,no ar astuto e untuoso,no jeito de lidar com o patrão,que se sentiria deles dependente. E diferentes em quê? Na gordura,o João a tirar para o chupado,e o José para o luzidio,na linguagem,no João ,desbragada,no José,polida e buscada.Nunca se sabia como era o seu acordar. O que viria dali,daquelas duas cabecinhas,de um e do outro? Boa coisa não seria,adocicada,macia,no José,amarga,áspera,no João. Cada um brincava à sua maneira,mas gostavam ambos dos seus jogos de palavras. Tudo neles tinha um duplo sentido,ou mais. Nunca se vira gente tão desconcertante,tão escorrregadia. Pareciam peixes vivos.

JOGAR À BISCA

Era um inconformado. Herdara umas courelas,mas não soubera ou não pudera viver delas. E hoje,uma,amanhã outra,lá se foram algumas jóias da família. O que lhe valeu foi ser solteiro e ter um irmão, mais atilado,que o passou a sustentar.Vivia numa casita que pouco mais tinha do que um quarto,mas para ele chegava. Logo ao pé da porta, havia uma nora que começava a trabalhar bem cedo,o que lhe dava algum conforto. Sempre gostara da natureza e aquela água a cair dos alcatruzes era para ele como música celestial. Dava-lhe esse passatempo,complementado com a inspecção da horta,até ao almoço.De tarde,ia até à sede da filarmónica. Aqui se entretinha horas a fio,conversando e jogando às cartas ou ao dominó. Era do contra,e de vez em quando ia para trás das grades. Tratava-se de temporadas curtas,pois aquilo,no que lhe dizia respeito,não passava de paleio. De resto,ele era incapaz de fazer mal a uma mosca. Acontecia,porém,que lhe dava para dizer não,quando alguns queriam que ele dissesse sim.Como se depreende,dele não viria grande mal ao mundo. Assim o entendia quem tratava destes assuntos. Mas uma vez por outra,já se sabe,deixava de poder ouvir a nora e jogar à bisca. Felizmente que a família esperava sempre por ele. Mas há um momento em que não há ninguém que nos valha,mesmo que tenhamos dito sempre que sim.

NÚMERO CRÓNICO

Eram dois milhões os pobres lá em certo sítio. Afinal,um número que se repetia ao longo de anos. Um número fixo,um número crónico. Sairiam uns,entrariam outros. Que quereria esse número mais dizer?

sábado, 23 de janeiro de 2010

RAIN HITS AND STICKS : SOIL HYDROLOGY UPENDED

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100121173452.htm

VINCENT VAN GOGH

http://www.metmuseum.org/works_of_art/collection_database/european_paintings/cypresses_vincent_van_gogh/objectview_enlarge.aspx?page=69&sort=0&sortdir=asc&keyword=&fp=1&dd1=11&dd2=0&vw=1&collID=11&OID=110002434&vT=1

FRONTEIRA

http://3.bp.blogspot.com/_Vej-Xy9dd08/R_vuy4nWwqI/AAAAAAAAAd4/EsAEuPa9LUo/s1600-h/P3022410.JPG

Do blogue OLHARES DA NATUREZA,de ARMANDO GASPAR

Título do autor

A PROPÓSITO DO METANO

O gás metano,um poderoso gás de efeito de estufa,devido a ser um redutor,não tem vida fácil na atmosfera,por nela existirem radicais livres,que são,como se sabe, fortes oxidantes,quer dizer,captadores de electrões. Tal escudo,como era de esperar,é um travão ao aumento dos teores de metano. Acontece que cientistas do MIT determinaram em 2007 uma subida anómala,quebrando uma década de estabilidade,atribuindo-a,ou a elevadas temperaturas na Sibéria,que teriam levado a maiores emissões por via bacteriana,em zonas alagadas,ou a uma descida do teor do mais representativo radical livre,o OH.

CHEGAR AO FIM

O botão desabrochara,cheio de ilusões,e dele surgiu uma flor linda,viçosa. E veio logo um gavião cobiçoso e dela se enamorou. E ali,num instante,tudo se consumou.E da flor,que ainda agora começara a sê-lo,semente brotou. E meses volvidos,uma criança nasceu.Que lindo menino aquela flor,ainda viçosa,ao colo trazia. Que bem os dois ficavam.Mas bem depressa,a flor que viera viçosa,linda,murchou,pois quase tudo lhe faltou.Pobre flor que tão rápido murchaste. Que pressa foi essa de chegar ao fim?

PARTIDAS

A terra estava lá para o fim do mundo,onde as novidades custavam a chegar. Como as modernices obrigam quase sempre a maiores gastos,muitos não se importavam de as dispensar. Quando mal,nunca pior,era o seu entendimento.Mas o pior encontra-se,às vezes,num lacrau que anda lá na sua vida. De noite,ele vê melhor,sobretudo se for pisado. E foi o que sucedeu a uma senhora que se agachara para fazer o que tinha de ser feito. O dito bichinho não esteve com meias medidas,pagando-se com a moeda que usa em casos destes. Quase se ia a senhora deste vale de lágrimas. Valeu-lhe a medicina caseira,que tem muito préstimo quando não há outra. Não é em vão que se anda por cá há milénios.Logo que se pôs boa,resolveu casar a filha. Para isso,consultou,como convinha,a mais creditada mulher de virtude das redondezas. Fizeram-se as benzeduras para o efeito e marcou-se a boda de acordo com as indicações. Era casal para durar. Os festejos deviam condizer com as promessas. Foram três dias de arromba,em que se consumiram,para além de tudo o mais,alguidares e alguidares de tremoços.Aconteceu,entretanto,uma visita inesperada para alguns. Ainda mal rompera o dia,o quarto do tálamo foi invadido,sem cerimónias, por um magote de jovens em grande algazarra. Não são partidas que se preguem,mas tradições têm que se respeitar.Mas há uma visita mais ou menos esperada que todos,sem excepção,um dia recebem. Foi o caso de uma velhota que se lembrou,pouco tempo volvido,de ir desta para melhor. Surgiu logo um coro de carpideiras,que faria um belo serviço a espantar pardais esfomeados. Não fariam outro serviço por aqueles sítios. Não se podia morrer ali em sossego,que elas não deixavam.

CAMISA LAVADA

Foram uns tempos aqueles para esquecer. É que andavam por lá tão descontentes consigo que não podiam suportar os outros,quaisquer que eles fossem. E assim,vá de não lhes poder ver nem uma camisa lavada. Mas ainda bem que esses tempos tinham acabado,pois aquilo era um viver sem jeito.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

TERRY WEY - VIENNA BOYS CHOIR

http://www.youtube.com/watch?v=0purlSxoKGU

HERERT BOECKL.RETROSPECTIVE

http://www.belvedere.at/jart/prj3/belvedere/main.jart?rel=en&content-id=1173991384489&reserve-mode=active

LAST DECADE WAS WARMEST ON RECORD

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100121170717.htm

PRODUÇÕES AGRÍCOLAS MUNDIAIS - SUMÁRIO

http://www.fas.usda.gov/psdonline/psdreport.aspx?hidReportRetrievalName=BVS&hidReportRetrievalID=425&hidReportRetrievalTemplateID=2

UMA FORTUNA

Estavam os dois muito velhos e ela mais achacada. É ele,escusado será dizer,que se tem de desembaraçar. Raramente,pois,se vêem juntos. Ela fica em casa,sozinha,aguardando-o,certamente com impaciência,e rezando para que nada de mal aconteça a um e a outro. O que iria,depois,ser dela ou dele?Aquele era um dos dias excepcionais,o mais excepcional de todos. Era o dia de ir receber a pensão em duplicado e acrescida. Uma fortuna. A sua presença ,ao lado dele,espantaria os ladrões.E,assim,depois de terem tirado a senha,lá estavam os dois,sentados,muito juntos,à espera da sua vez. Eles já viam e ouviam mal,o que os obrigava a pedir ajuda a este e àquele.Aproximaram-se os dois do balcão,ela muito nervosa,a olhar para todos os lados,desconfiando de todos. Assistiu muito atenta à contagem do dinheiro e ficou um pouco mais animada ao ver que a menina que os atendera conhecia o marido. Até mencionou o seu nome em voz alta,saudando-o.Era ele que vinha quase sempre. Ela,coitada,não podia,frequentemente,acompanhá-lo. Mas naquele dia teve de ser,pois a sua presença espantaria os ladrões.

DE FERREIRA,MEU SENHOR

Era uma velhota pequenina,mirradinha. Naquela altura,estava sentada,à espera de transporte. Tinha-se-lhe arranjado mais espaço,pelo que se desfez em agradecimentos. Obrigado,meus senhores. Ao seu lado,pousara dois sacos com compras. Não pareciam muito pesados,mas isto de pesos,como de muitas outras coisas,é muito relativo,como é bem sabido. Não estava quieta no assento. Via-se que queria conversa. Lá em casa não teria,talvez,com quem falar.Naquele dia,fazia muito calor. Um dia tórrido de verão . À sua volta,choviam queixas. Isto não é nada,comparado com o do meu Alentejo. Então,de que terra é? De Ferreira,meu senhor. Boa terra. Diz bem,meu senhor. Que saudades tenho dela. Então,já lá não vai há muito tempo? Desde que o meu marido morreu.E aqui pareceu ter ficado mais pequenina,mais mirradinha. Uma grande tristeza também a envolvera,uma tristeza que se derramara à sua volta. Estava a conversa estragada e terminada. A culpa fora daquela quentura abrasadora.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

MOUNTAIN PLANTS UNABLE TO WITHSTAND ONSLAUGHT FROM INVASIVE SPECIES

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100121083404.htm

INCREASING SPRINGTIME OZONE RATIOS IN THE FREE TROPOSPHERE OVER WESTERN NORTH AMERICA

http://www.nature.com/nature/journal/v463/n7279/abs/nature08708.html

DE FACA NA LIGA

O salão de chá estava cheio. Um vendedor de flores serpenteava entre as mesas,fazendo pela vida. Era um homem de meia idade,de cara macilenta.Um atrevido,do alto do seu bolso e da sua gordura,resolveu dar um ar da sua muita graça. Vem cá e oferece uma flor a esta senhora. Isto em voz alta,a desafiar meio mundo.O pobre necessitado não teria gostado dos modos daquele freguês,mas o que havia ele de fazer se precisava de aliviar a mercadoria? E satisfez o insolente. Toma lá e vais com muita sorte. Mas assim perco dinheiro. Some-te,se não ainda ficas sem o ramo.Aquilo era revoltante. Estava pedindo polícia,que se não via. Era urgente uma intervenção,mas qual? Veio de uma maneira espontânea,impulsiva.Olhe,faça favor,chegue aqui. O infeliz acorreu,na esperança de uma compensação. Quanto quer pelo ramo? Tome lá e vá em paz.O arrogante não reagiu. Foi uma sorte,pois aquilo podia ter dado para o torto. É que o sujeito era de faca na liga.

ALARME

Ali parecia haver paz. Pombos faziam pela vida e o silêncio era a voz da esperança. Lá no alto presidia o santo.Dava para armar ali tenda. A tanto não se tinha chegado,mas bancas não faltavam. Mercadejavam-se ofertas para o dispensador de dádivas. Uma delas obrigara a trocos que só a caixa forte,a dois passos,dispunha.Aconchegada num assento,uma velhota rezava. Palavras não se lhe ouviam,mas os lábios dispensavam-nas. Assim estaria tempos sem fim,se não fosse a curiosidade de um atrevido. Há gente para tudo,até para perturbar conversas com o além.Vem aqui muitas vezes? A branca cabeça disse que sim. Mas estava dado alarme. Os pombos não voaram,que a inquirição fora de mansinho,mas a velhota logo se levantou.Também já se estava fazendo tarde. O sol escondera-se e as sopas encontravam-se lá à espera. O santo também a aconselhara a debandar,pois do atrevido tudo se podia esperar

UMA PENA

O estendal começara mal ele ainda abrira a boca,quer dizer,entrara logo a matar,não tivesse o outro muito tempo para o ouvir. Fora lá uma pessoa muito importante e viera de lá já há umas dezenas de anos. Vendera todos os bens por bom dinheiro,pelo que estava bem. Cá,fora também uma pessoa muito importante. Mas uma pena consumia-o. É que não era doutor. Mas essa pena iria voar,pois,finalmente,entrara na universidade.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

MILHO,SOJA,FENO E TRIGO NOS EUA

Wheat is the fourth-biggest U.S. crop, valued at $16.6 billion in 2008, behind corn, soybeans and hay, government data show.

In http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20602013&sid=aJmny5VeCRAQ

PREÇO DO TRIGO BAIXA

http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20602013&sid=aJmny5VeCRAQ

EL PARQUE NACIONAL YASUNI - ECUADOR

http://www.amazoniaporlavida.org/es/Parque-nacional-Yasuni/El-Parque-Nacional-Yasuni.html

ECUADOR'S YASUNI AMONG MOST BIODIVERSE PLACES

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100119133510.htm

MEASURING CARBON DIOXIDE OVER OCEAN

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100119103555.htm

O DISCO

Eram multidões de incontidos, mais ou menos contidos por,a bem dizer,meias dúzias lá das respectivas famílias. Assim,não havia volta a dar-lhes. Era o virava o disco e tocava o mesmo.

MEU SENHOR

A candura da velhota. Não estava à espera de uma resposta daquelas e atarantou-se. Precisou de saber as horas e abordou o primeiro que lhe apareceu. Foi azar dela. O homem tinha estampada na cara e nos modos a sua qualidade. Mas ela já não distinguia ou então fora sempre assim,confiada,o que devia ter-lhe dado muitos dissabores. Não era,de facto,o homem flor que se cheirasse.Para que quer o raio da velha saber uma coisa destas? Já devia ter marchado para não andar para aqui a importunar cada um. E ela,coitada,que pouco tino já teria,àquelas palavras ficou pior. Deu-lhe para falar sozinha,repetindo o que acabava de ouvir.Já nem sabia que caminho tomar. Valeu-lhe alguém que estava perto e que testemunhara o ocorrido. Queria saber as horas? Pois queria,meu senhor. E o tom indicava a sua humildade e dependência. Lá se recompôs com a atenção prestada,desfazendo-se em muitos agradecimentos.

NOVO BRILHO

Não se tratava de ilusão. Aquilo eram mesmo roseiras. O pequeno jardim estava cheio delas. Pareciam árvores,tão grossos eram os ramos. Lembravam,pela pujança,videiras das aluviões ribatejanas. Só que em vez de cachos,se desentranhavam naquilo para que foram inventadas – rosas de muitas cores e tamanhos.Quem seria o autor daquela maravilha? Talvez um simples,talvez aquela figura alheada,jovem ainda,que por ali se entretinha,de vassoura na mão. Parecia feliz. Na boca bailava-lhe um sorriso. Falava,a espaços,consigo,e ,certamente,com as suas amigas,as flores,e também com os muitos pássaros que por ali andavam na sua vida,tranquilos,que dele gostariam. Não quereria mais,para além disto. E tinha razão. Era aquilo uma amostra de paraíso. Os canteiros cuidados,os arruamentos limpos,o laguinho com uma minúscula ponte.Na terra não havia melhor recanto. Seria por isso que fosse este o local escolhido para as fotografias de casamentos e baptizados. Nessas alturas,o jovem afastava-se e os pássaros debandavam,acompanhando-o. Regressavam todos quando o bulício desaparecia. As rosas até ganhavam novo brilho.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

UN CLIMATE SCIENTISTS REVEW HIMALAYAN GLACIERS CLAIM

http://www.guardian.co.uk/environment/2010/jan/19/un-climate-scientists-himalayan-glaciers

100 PERCENT RENEWABLE? -SLIDE SHOW

http://www.scientificamerican.com/slideshow.cfm?id=samso-attempts-100-percent-renewable-power

DO MESMO OFÍCIO

Não se sabe como tinha sucedido antes,mas naquela altura,era bem visível que faziam tudo para não se encontrarem,e,quando assim calhava,por ter de ser,ignoravam-se ostensivamente. Seria isto por se tratar de oficiais do mesmo ofício. Um,era um gigante,o outro,um delgadinho.O gigante,mal rompia o dia,saía da sua toca para repetir o peregrinar de sempre pelas ruas mais frequentadas lá da vila,em andanças de ida e volta,de passadas largas,pesadas. Parava aqui e ali,mas não se demorava,pois tinha mais que fazer.Como gostava muito de viajar e de fumar,mas não podia fazê-lo à sua custa,alguém tinha de colaborar. Para isso,contava com os visitantes,por os da terra já terem desistido de lhe sustentar os gostos. Era ele que fixava as quantias,de acordo com o seu destino. Para as viagens,retorno incluído,eram três euros,para um maço de tabaco,contentava-se com menos.De vez em quando,ia até à biblioteca,demorando-se lá uns curtos momentos na secção infantil. Os miúdos não o receavam,pois ele não fazia mal a uma mosca. Os visitantes é que não sabiam,o que lhe facilitava a vida.O delgadinho era também madrugador,andarilho e amigo de abordagens de estranhos,porque com os outros não valia a pena. Avançava para eles como uma seta,para um vigoroso aperto de mão. Qualquer moedita o satisfazia. A biblioteca não o interessava,fugindo dela a sete pés.

BRASIL

Tinham esgotado os motes para se irem entretendo. Mas,para sorte delas,surge-lhes,sem o esperar,um novo. Há muito tempo que o não via. Supunha que andasse lá pelo seu Brasil. E durante uns tempos foi o Brasil que as animou.

A DOBRAR

Não há duas sem três. Aquela fora a segunda,mas não se ficará pele terceira,que ele está ali para durar. É que se dá ao luxo de andar em camisa com tempo frio.
Empreste-me um euro. Vinha,como noutras ocasiões,com um saco de plástico, cheio de coisas de contentores de lixo,coisas de comer. Afinal,não são para ele,mas para ovelhas,aí uma meia dúzia,de um seu amparo,que,de vez em quando,lhe arranja uns biscates.
É um euro? Sim,é só um euro. Mas,à vista do porta moedas aberto,rectificou. Empreste-me dois. Quando puder,pago-lhe a dobrar.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ERICEIRA

http://www.flickr.com/photos/fotografiap/4262597079/sizes/l/

Título do autor

CAN INDIA BE GREAT?

http://apac2020.the-diplomat.com/feature/can-india-be-great/

O INIMIGO

Aquilo tem a sua graça,mesmo muita graça. Mal vê o inimigo,não importa a distância,manobra dextramente para evitar um mau encontro. Todos os refúgios lhe servem. É o que lhe fica mais à mão. O supermercado,uma barbearia,o posto do totoloto,uma ourivesaria,uma agência bancária,uma loja do que quer que seja,o passeio do outro lado. Só não entra no cemitério,pois fica longe.O inimigo percebe e colabora. E chega até a admirá-lo. É que as inflexões,as fintas,são repentinas,meteóricas,em todos os ângulos. Merecia um prémio,ou mais.Ele julgará,talvez,que o inimigo não dá conta,por ir lá muito entretido com as suas fantasias,pois,das poucas vezes em que é apanhado de surpresa,é como fosse este o melhor dos mundos. E não é,como se sabe,ele incluído,certamente. Mas lá se vai fazendo de conta,parecendo não haver volta a dar-lhe.Como se poderia pensar,ele não é,porém,dos que não gostam de ter, de vez em quando, a sua conversa. Só que apenas sobre certas coisas,de sicrano,de beltrano,da bola e assim por diante. Até se põe,gostosamente,a jeito.E o inimigo não está para isso.

POMBOS EM TIMES SQUARE

O "earth cam times square" permite ver o famoso local ao longo do dia e da noite,como é bem sabido. E é o costume frenesim,de carros,sobretudo táxis amarelos,de pessoas,de luzes,de ruídos. Mas com paciência,e com sorte,é possível dar com pombos no chão,ou cruzando os ares.

PALAVRAS SOLTAS

No geral, reinava ali a boa disposição. Seria,também,coitadas delas,uma forma de lhes aliviar a fadiga do trabalho,pois começavam muito cedo,quase de madrugada. Um dos entreténs era usarem palavras soltas do inglês,sobretudo,mas também do espanhol,do francês. Era uma casa,como se ouvia,poliglota.
No geral,também,não tinham mãos a medir,com excepção da segunda-feira,o dia do lá vai um,ou como elas diziam,o dia da açorda,que o negócio era de pão. E,num outro dia,alguém não resistiu ao "what happened?". Não entenderam. Lá se traduziu. E elas,coitadas,ficaram um tanto tristes,talvez com pena de só saberem palavras soltas.

domingo, 17 de janeiro de 2010

CHINA'S NOT A SUPERPOWER

http://apac2020.the-diplomat.com/feature/china%e2%80%99s-not-a-superpower/

ZERO-CARBON PAVILLION GETS POWER FROM FOOD SCRAPS

http://www.chinadaily.com.cn/china/2010-01/16/content_9331279.htm

SEARCH FOR AN ARTIFICIAL BLOOD SUBSTITUTE

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100115204727.htm

JARDIM CCB

http://www.flickr.com/photos/fotografiap/4258220703/sizes/l/

Título do autor

MISTURA

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Do blogue OLHARES DA NATUREZA,de ARMANDO GASPAR

Título doa autor

A JEITO

Anda,pá. O pá, era um cãozinho,muito rente ao chão,que deu logo mais à perna,com receio,talvez,
de uma "festinha" das dele. Quem vê caras,não vê corações,é bem certo,mas a cara dele,e a pronta reacção do cãozito,parecia indicar que era no pobrezinho que ele descarregaria a sua zanga,quando não encontrasse outro mais a jeito.

LEMBRAS-TE PÁ?

Olá,tu estás aqui? Que grande surpresa. Dentro em breve,iria começar uma reunião muito séria,presidida por uma pessoa importante,que veio a ser ainda mais importante. E ele estava ali em conversa muito animada com essa pessoa importante e muito séria,rindo-se ambos,ele quase lhe batendo nas costas,assim a modos que a dizer-lhe lembras-te pá? Ele era um antigo camarada de escola e das brincadeiras.
É bem certo que santos da casa não fazem milagres e que não há pessoas importantes para o seu criado de quarto.

sábado, 16 de janeiro de 2010

INCREASED TREE CARBON STORAGE IN RESPONSE TO NITROGEN DEPOSITION

http://www.nature.com/ngeo/journal/v3/n1/abs/ngeo721.html

METHANE MEASUREMENTS FROM SPACE

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100115204416.htm

FLORESTA DENSA E DESORDENADA

Eu. Valores. Berço. Solidariedade.Amizade. Liberdade de expressão. Países amigos. Direitos adquiridos. Os sem voz. Conveniência. Planeta azul. Nacionalismos. Globalização. Paraísos fiscais. Deslocalizações. Direita. Democracia. Limites. Fingimentos. Liberdade. Fundamentalismos. Politicamente correcto. Deus. Dinheiro. Chantagem. Subsídios. Oportunismo político. Pobreza. Miséria. Riqueza. Sagrados direitos. Deveres. Liberdade religiosa. Ditadura. Impostos. Direitos das minorias. Direitos humanos. Liberdade de comércio. Proselitismo. Estatização. Egoísmo. Fraternidade. Libertinagem. Descaramentos. Verdade. Salve-se quem puder. Medos. Socialismo. Importâncias. Soberbas. Presunções. Suficiências. Encostos.Vaidades.Alegria. Tristeza. Esquerda. Coração. Lucro. Justiça. Crendices. Ciência. Teu. Honestidade. Vileza. Ódio. Ciúme. Meu. Inveja. Maldade. Nosso. Genes. Culturas. Raças. Cor. Velho. Novo. Forte. Fraco. Bondade. Bonito. Feio. Linguagem. Trabalho. Desemprego. Saúde. Doença. Crianças. Escola. Adolescência. Homem. Mulher. Meios de comunicação. Guerra. Paz. Segurança. Fronteiras. Muros. Corrupção. Cunhas. Meio. Preços. Custo de vida. Amor. Armas. Cobiças. Fomes. Hábitos. Calamidades. Maremotos. Ciclones. Inundações. Seca. Ignorância. Intransigência. Fuga aos impostos. Tolerância. Ingratidões. Esquecimentos. Sectarismos. Seguidismos. Dor. Sofrimento. Morte. Vida. Tu.

QUANDO O MAR BATE NA ROCHA

http://photos1.blogger.com/blogger/609/1252/1600/P1010733_a.jpg

Do blogue OLHARES DA NATUREZA,de ARMANDO GASPAR

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

TROIA

http://www.flickr.com/photos/fotografiap/4241471340/sizes/l/

Título do autor

CATALYST OFFERS NEW HOPE FOR CAPTURING CO2 ON THE CHEAP

http://www.sciencemag.org/cgi/content/summary/327/5963/257-a

ANCIENT AMAZON WEAPON TO CAPTURE CARBON

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100113172252.htm

NUTRIDA SEREIA

Era uma terra de pescadores e estava em festa. Aquele dia,era um muito especial. De tarde,havia a tradicional procissão,e há noite,orquestra sinfónica.Mas havia, também, uma feira ruidosa. Os ares andavam cheios de sons estridentes de música escolhida,daquela de bater o pé. Podia ela lá faltar. Sem ela,seria uma pobre feira. Mas à passagem da procissão,pela qual tinham um grande respeito,os sons emudeceram,bem como os pregões das mais variadas coisas,outra marca essencial.Ao contrário do que sucedera com a procissão,quando a orquetra actuou,talvez por ser dentro de casa, a música estridente e os pregões não se calaram. Alguém de fora,vaticinaria sala às moscas. Pois muito se enganaria. A sala rebentava pelas costuras,tendo de ficar muita gente de pé ou no chão.Aplausos não foram regateados e algumas vezes,até,com direito a repetição. E no final,lá apareceram dois ramos de flores,tendo sido um deles entregue por uma moça que mais parecia uma nutrida sereia daquele mar.

A STRONG MERMAID

It was a little town of fishermen. That day,it was a special one. In the afternoon,took place the traditional procession,and in the evening ,a symphonic orchestra acted. But there was also a fair. The air was plenty of noisy sounds,from selected popular music,a music of beating the foot. This music could not miss. Missing,the fair would be a poor one. But on the passage of the procession,that is very respected,the loud sounds shut down,such as the also loud invitations for much varied things,another essential,indispensable,mark.When the orchestra acted,perhaps for being indoors,so the loud sounds of music as the loud invitations did not cease. They went on more strongly yet. Somebody could think that the hall for the orchestra was rested empty,but great will be the mistake. The hall,on the contrary,was filled up. There was people on foot or even seated on the floor.The performance was very much appreciated,this well shown by the repeated applauses. And in the final,two big flowers branches were offered,one of them through a girl that was like a strong mermaid of that sea.

DO CÉU

Não estava sonhando, aquilo era mesmo um osso,que alguém acabara de lançar de uma janela. Há que tempos não dava com uma iguaria assim. Vinha mesmo a calhar. Era um cãozinho que estava passando um mau bocado,pois fora abandonado. Ele que se arranjasse e era o que ele andava fazendo.Observara em volta,receoso,temendo a concorrência. A coisa estava feia,era o salve-se quem puder. Ainda há dias não levara a melhor, por falta de forças. Até lhe custava lembrá-lo,pois saíra também muito doído,do corpo e de não sabia mais o quê.Estava mesmo a precisar de uma boa refeição e desta vez ela vinha-lhe do céu. Não se via competidor. Ainda assim,só tranquilizou quando se meteu no buraco da sua predilecção,um buraco limpo,fresquinho. Era ali que ele costumava pernoitar.Mas para aqui se ver,os saltos que teve de dar e os cuidados que teve de pôr para não largar o achado. Ficou exausto. Aproveitou para examinar melhor o pitéu. Era,na verdade, um belo osso,estava ele confirmando. A carne que ainda trazia. Um verdadeiro milagre. Que o milagre se repetisse,muitas e muitas vezes,ia implorando,enquanto os bons pedaços se sumiam lá bem para o seu estômago,que já estava a entrar em fase de autofagia.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

NADA A FAZER

Diante da precaridade da vida,a cada momento provada,eram inexplicáveis a vaidade,a presunção,a soberba,a pretensão,o convencimento,a importância,o olhar de cima. Mas não havia nada a fazer,que,acontecesse o que acontecesse,toda esta família,e demais parentes,continuariam a desfilar. Eram assim.

COM MUITA HONRA

O seu caminhar era lento,pausado,ausente,calado. Não era ele que ali ia,seria,talvez,um outro,em que,um dia,já há muito tempo,se transformara. Parava nas esquinas,e ali ficava,olhando em volta. Não comunicava. Só uma vez,muito nervoso,desabafara. Se acaso lá voltasse,tornava a fazer o mesmo,com muita honra.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A DOR EM RAUL BRANDÃO

"...A dor é o seu deleite. Busca-a,desejo febril!-por hospitais,por cadeias,por antros,por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros leprosos,cloacas de humanidade,vazedouros de almas,onde crimes,virtudes,vícios,angústias,raivas,desesperos,fermentam promiscuamente,como entulhos. Pesquisa dédalos caliginosos,cafurnas sem fundo,abismos hiantes,boqueirões de sombra.Explora desvãos,trapeiras,minas,covas,esconderijos. Louco de piedade,engolfa-se nas trevas mudas e soturnas,que gotejam sangue,nas roucas escuridões tumultuosas,pávidas de gemidos,cortadas de clamores,anavalhadas de blasfémias...."

GUERRA JUNQUEIRO

Carta-Prefácio
OS POBRES

RAUL BRANDÃO

Projecto Vercial 2001

MARIA DE LOURDES PINTASILGO

http://1.bp.blogspot.com/_5vp8w-L15zk/S0xNcTwN4qI/AAAAAAAAJIc/vJ1imtJtxwU/s1600-h/fcg.jpg

Do blogue Maria Pudim http://mariapudim.blogspot.com/

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

BUTTERFLIES REELING FROM IMPACTS OF CLIMATE AND DEVELOPMENT

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100111171859.htm

DEBATE

As sessões eram noticiadas. Havia um antes,a anunciar,e um depois,a dar conta do debate. Um dia,não houve sessão. Mas houve debate.

UM EMPRÉSTIMO

Era um velho baixinho,parco de carnes,de barba por fazer. Estava com setenta e quatro anos,mas parecia ter cem. Queria um empréstimo,pouca coisa,o suficiente para uma carcaça. Então,não tem reforma? Tinha,só que a receberia no dia doze,e estava-se ainda a três. Era uma reforma muito magra,como ele. Dava para muito pouco e bem depressa se ia toda. Segurava um cigarro por acender. Olhe que isso faz-lhe mal à saúde,e,depois,é muito caro. Sabia,mas era só um de vez em quando, para matar saudades. E aquele encontrara-o,por acaso,no chão. Mas olhe que é um empréstimo,repetia. Quando puder,pago-lhe. A gente há-de se encontrar por aí,pois a sua cara não me é estranha. Mas se quiser,procuro-o em casa. É só para um remedeio.

A LOAN

He was a very thin man. He said that he was seventy four years old,but he seemed older,perhaps because he was not shaved.He needed a loan, it was what he said, but a small amount,only to buy a little bread. You must have a pension,surely. Yess,I have,but it is only available later. It is a meagre pension,like him,it is spent fast.He holded a cigar not lighted. Look,you must know the tobacco is not good to health,and behind this it is dear. Yess,he knew well,but it was only one sometimes to kill the desire,and that had been picked up from the floor.As he had said ealier the money that he had accepted it was only a loan,not more. I pay to you immediately when I receive. How do you want? In your home or when we meet again? Your face it is not strange to me,you must live here about. It had been a loan,not more. He had his dignity,for the other to know.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

CORAIS E CARBONATO DE CÁLCIO

Increases in ocean surface water temperatures subject coral reefs to stresses that lead quickly to mass bleaching. The problem is intensified by ocean acidification, which is also caused by increased CO2. This decreases the ability of corals to produce calcium carbonate (chalk), which is the material that reefs are made of.

In http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100109002310.htm

Mais uma referência à acidificação a que a água dos oceanos está sujeita por exageradas emissões de CO2. Tudo quanto é carbonato de cálcio está em risco,como as muitas "rochas brancas" da família das de Dover. Felizmente,a forte tamponização da água dos oceanos faz com que ela seja "um osso duro de roer.

CHINA,GERMANY ON EQUAL RANKING IN GOODS EXPORTS

http://business.globaltimes.cn/world/2009-08/461171.html

CHÁ,CHARÃO...

Diga lá o menino o que sabe sobre o comércio externo(ou interno?) de Macau. E o menino dizia:chá,charão,arroz,algodão,louças,carvão,vinho e madeiras. É claro que não era assim que lá vinha escrito,mas os artigos eram aqueles,mas noutra ordem. É para coisas assim que a mnemónica serve. O certo é que nunca mais foi esquecida tal sequência.

SEM UM PATACO

8 de Stembro...
Este António José de Almeida,com quem lido há meses,é uma força generosa e simpática...Há outra coisa que o honra:acredita,começa sempre por acreditar em toda a gente. Uma grande generosidade,um grande arcabouço e uma voz poderosa e magnética...Ainda hoje lhe ouvi dizer que não tinha dinheiro para ir de carro para casa.
Em S.Tomé ganhou uma pequena fortuna:mãos abertas,deu-a,levaram-lha:ficou sem um pataco. -Ontem passou por mim um figurão que me disse,de grande charuto na boca,e acenando-me com dois dedos:- Adeus doutor...-e que tanto dinheiro me levou! E eu não posso fazer um fato novo....Deu tudo à república. Tem-lhe sacrificado a vida e os interesses.

RAUL BRANDÃO
Memórias(Tomo II) Vol.1 p.138-9
Relógio D'Água Editores,Março de 1999

A GOZAR

Ora vamos lá ver se se consegue contar. É que o assunto foge da rotina do dia a dia,ainda que não seja de maior consideração. A realidade é,de facto,muito,mas muito,variada.Pois foi assim,pelo menos,é o que se pensa ter passado. É que já lá vão muitos anos. Certo dia,vindo de um país da linha da frente,um senhor de muita ciência dispôs-se a fazer uma palestra sobre uma matéria em que era mestre. A ouvi-lo,estavam o chefe dos chefes,um chefe e meia dúzia de peões interessados. Para se explicar melhor, foi ao quadro e fez lá um desenho que narrava uma história. Um peão,em altura oportuna,atreveu-se a fazer uma pergunta,não a contestar a história,mas a insinuar que a história podia ser outra se...E o senhor,talvez surpreso de já ali ter chegado alguma notícia dessa história,não resistiu a fazer um comentário. Nice question,nice question.Pois daí em diante,por largo tempo,sempre que o chefe dos chefes passava pelo atrevido peão,não resistia. Nice question,nice question. O tom é que era muito diferente do original. Agora era,claramente,a gozar.

domingo, 10 de janeiro de 2010

CAN INDIA'S ECONOMY OVERTAKE CHINA?

http://news.bbc.co.uk/2/hi/south_asia/8273464.stm

FRESCOS DE POMPEIA

Mas que fresca era aquela gente. Teria sido castigo do Vesúvio ,que não suportara mais tanta pouca vergonha,ali mesmo nas suas barbas?

BIG FREEZE CONTINUES - CUMBRIA

http://news.bbc.co.uk/local/cumbria/hi/front_page/newsid_8448000/8448003.stm

BBC - PHOTO GALLERY

http://news.bbc.co.uk/weather/hi/gallery

HOW PLANTS "FEEL" THE TEMPERATURE RISE

http://www.sciencedaily.com/releases/2010/01/100107132543.htm

SALDO NEGATIVO

Há quem tenha propósitos desmedidos. Gostam de tudo ganhar,nem que seja a feijões,e de serem os primeiros,nem que se trate das situações mais comezinhas. Outros há que desconfiam da vitória,qualquer que ela seja,que tem os seus espinhos. Adquirem estes uma certa indiferença,traduzida no será o que Deus quiser. Ganhar quase o mesmo que perder,numa perspectiva de um outro mundo,onde todos ganhem.Mas vem isto a propósito de quê? É que em certo lugar,há muito tempo já,depois das canseiras do dia,ainda sobejavam energias para umas partidas de ténis de mesa. Um dos que a tal se dispunha não queria acreditar no que ouvia. Dois companheiros não aceitavam derrotas. Ficavam indispostos e diziam palavrões,pedindo desforra,muito zangados.Ah,ele é isso? Passou a ter saldo negativo e a paz não se fez rogada. Foi uma alegria para os que não sabiam perder e também para o outro,o obreiro dela.

VEIAS

http://3.bp.blogspot.com/_Vej-Xy9dd08/S0ZE2BlazMI/AAAAAAAAByI/9Bsopi4vtAA/s1600-h/P1034836.JPG

Do blogue OLHARES DA NATUREZA,de ARMANDO GASPAR

Título do autor

sábado, 9 de janeiro de 2010

UMA TRAQUITANA

Na banca,apenas se via meia dúzia de pequeninos peixes,ainda vivos. Tinham sido pescados de madrugada,numa barragem,a uns bons quilómetros dali. Eram de um velho,de setenta e mais alguns anos,um tanto para o baixo,ainda vigoroso e de ricas cores.Mas valia-lhe a pena,dava para o petróleo? Tinha de dar,pois como é que se havia de viver? A pensão era o que se sabia,uma miséria,mal chegava para as côdeas. Andava a gente numa vida de rudes trabalhos,hoje para um,amanhã para outro,para se chegar àquilo. O que lhe valia eram uns biscates,ali e acolá,onde calhava,de vária natureza,que ele não era esquisito. Uma pessoa tinha de se desenrascar.Valia-lhe também ser um homem de poucos achaques. Depois,um sobrinho dera-lhe uma traquitana,de que se tinha farto,mas que a ele lhe fazia um grande arranjo. Fora com ela que chegara ainda a tempo para a venda.Por causa daqueles peixinhos,o resto do que tinha apanhado,não dormira naquela noite. Passava-se muito. Mas tudo ia do treino e a ele não lhe faltara. Podia acontecer que o vissem ali na semana seguinte. Dependeria isso da pescaria. Faria umas contas e logo veria se lhe valeria a pena vir até ali,onde as pessoas parecia terem mais dinheiro do que lá para as suas bandas.

POBRE AVARENTO

O que certa esmola engendrou.Para a graduar,para a relativizar,um verbo ultimamente muito ouvido ou lido,aplicou-se uma arrumação dos solos em tempos usada. Ricos avarentos,ricos generosos,pobres avarentos e pobres generosos.Quem soubesse da quantia envolvida,poderia considerar o dador ou como um rico avarento ou como um pobre generoso,dependendo isso do que ele entendesse por riqueza ou pobreza. Mas o que mais interessa é saber que o benemérito,numa primeira avaliação,se achou um pobre-mãos-rotas. Mas,numa segunda ponderação,concluiu que devia antes ser tido como um pobre avarento. É que ficara ainda com muito. E mais ainda. O ter-se colocado,primeiro,na categoria dos pobres generosos,de que nascera grande satisfação,resultara,simplesmente, de uma ideia subjacente,e que era a de continuar possuindo bastante.Não se encontra muito longe de tudo isto o dar um milhão aos pobres, ficando ainda com muitos milhões. Quando tal sucede,é,porém,de muito louvar,pois podia não se ter virado para aí. De resto,ninguém está livre de nascer com essa sina,o de conseguir muitos milhões. Tem é de estar lá no sítio certo.Mas voltando à esmola. Pequena ou grande,não fica a situação significativamente modificada. O carecido continua carente e o dador não se vê encrencado. Faz isto lembrar,também, o que se atribui a uma notável figura do passado. Eu,distribuir o que tenho pelos pobres? Para quê? Surgiria mais um.

NÚMERO DE TÍTULOS DE EÇA DE QUEIRÓS EM QUATRO UNIVERSIDADES DOS EUA

24/3/2008

Harvard-187
Princeton-71
Stanford-68
Yale-114

9/1/2010

Harvard-202
Princeton-74
Stanford-72
Yale-127

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

CIMENTO É O 3º MAIOR EMISSOR DE CO2 DO PLANETA

http://www.conpet.gov.br/noticias/noticia.php?segmento=&id_noticia=317

FABRICO DE CIMENTO-MATERIAIS USADOS

The main raw materials used in the cement manufacturing process are limestone, sand, shale, clay, and iron ore. The main material, limestone, is usually mined on site while the other minor materials may be mined either on site or in nearby quarries. Another source of raw materials is industrial by-products. The use of by-product materials to replace natural raw materials is a key element in achieving sustainable development.

In http://www.essroc.com/default.aspx?pageid=183

NATURALLY OCURRING BACTERIA CONVERTS CO2 INTO CALCIUM CARBONATE

http://www.gizmag.com/bacteria-convert-co2-calcium-carbonate/11069/

A PROPÓSITO DO CO2

A combustão de matérias fósseis liberta,como se sabe,CO2 que estava impedido de figurar no ciclo activo do carbono. Trata-se,assim,de uma reposição. Os biocombustíveis geram também CO2,como é igualmente sabido. Mas a sua alternativa,ou seja a sua utilização como alimentos,faz o mesmo,via respiração aeróbia ou anaeróbia. Os biocombustíveis não são porém, inocentes,tendo os seus custos,não sendo menores os sociais,pelas implicações no agravamento dos preços de bens alimentares.

DE SACHOLAS NAS MÃOS

Então,vêm lá de Lisboa? Para eles,simples como eram,Lisboa devia ser lá para o cabo do mundo. Sim,viemos lá de muito perto. Então são capazes de ter visto por lá o nosso filho,o nosso único filho,que tanta falta nos faz,mas a tropa levou-o já há uns meses. Ainda tentámos que ele cá ficasse,mas foi o mesmo que nada. Deviam precisar muito lá dele,para assim nos deixar para aqui desamparados.Ali se encontravam aqueles dois,de sacholas nas mãos, a cuidar dos seu batatal,já em flor. Ainda não eram muito velhos,mas aquela dura vida gastara-os,antes do tempo. O jeito que ele nos fazia se cá estivesse. Tenham mais um bocado de paciência,que o tempo passa depressa,e qualquer dia têm-no de volta. Deus o oiça,que fosse já amanhã,para podermos descansar mais um pouco,que há por aqui muito que fazer. Não temos só este pedacito,que o meu pai me deixou. Temos mais alguns,assim maneirinhos,mas é do que há por aqui,já devem ter reparado. Uns quintais ,a bem dizer,mas que nos dão muitas canseiras. Mas é a vida,o que se há-de fazer? Que o nosso rapaz venha depressa.

O HOMEM DAS CAVERNAS

Era o nome que o distinguia,até entre os muitos outros que quase o imitavam. É que ele,muito raramente,saía lá do seu buraco,uma das galerias do metropolitano de grande urbe. Corria mundo o seu nome e o que isso significava,e crescia a curiosidade de saber o porquê da sua decisão.Certo dia,ou melhor,certa noite,por sinal uma noite quente de verão,em que apetece sair de casa e andar por aí a apanhar o fresquinho,um jornalista resolveu entrevistá-lo. Coitado,o que ele teve de andar,lá por baixo do chão, para o encontrar. Mas foi compensado,pois o homem das cavernas estava em maré de deitar tudo cá para fora.Então,o que o levou a escolher esta morada? A resposta foi rápida,e espanto dos espantos, dita como se ele fosse um doutor. Uma resposta franca,cheia de correcção,de um intelectual,pode dizer-se. O homem das cavernas não parecia nada tonto,foi a conclusão a que o jornalista chegou.E o que ele respondeu pode ser concentrado em meia dúzia de palavras. De resto,as muitas palavras servem,quase sempre,para confundir. E foi o seguinte. Sabe,não suportei mais aquele viver. Aquilo é de vomitar. Pois passem por lá muito bem,muito mal,que é asssim mesmo,e deixem-me aqui sossegado,que eu cá me arranjarei. Daqui não saio. E se me quiserem tirar daqui só à força. Mas não desistirei,disso podem estar certos. Hei-de arranjar um buraco noutro sítio ou então cavarei um muito meu,em qualquer lugar,nem que seja no fim do mundo. Voltar lá para cima é que nunca mais.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

NÚMERO DE TÍTULOS DE TRÊS AUTORES PORTUGUESES NA CONGRESS LIBRARY(EUA)

Luis de Camões 211(1/4/2008) 220(7/1/2010)

José Saramago 68 78

António Lobo Antunes 30 37

BOMBOS DE FESTA

Coitados,nasceram assim. Tímidos e de boa-fé,estão destinados a serem bombos de festa para aqueles que gostam de se divertir à custa de outros. As motivações destes nem sempre são claras. É provável que domine o quererem vingar-se de muitas frustações.As formas utilizadas variam. Uma das preferidas parece ser o zurzir em público,para o vexame e o gáudio serem maiores. Usam também maneiras encapotadas para atingir os alvos. Entre elas,figuram o fazer-se eco de opiniões alheias desprestigiosas,o de dar esperanças sem fundamento durante largos períodos e o pintar as coisas muito negras. Os desgraçados vêem-se sem saídas,tornando-se cada vez mais vulneráveis.As vitimas,em geral,não se podem furtar,porque o palco das cenas é o próprio lugar do seu único ganha-pão. Os algozes sabem disso e exploram essa dependência. Um dos modos de escapar ao martírio seria o de mudarem de poiso,mas a isso poucos se atrevem. Temem que fosse pior. Mas quando isso sucede,a fama que os acompanha propicia o engendrar de um novo abusador. Parece não poderem fugir a este triste detino,facilitando,até,às vezes,a exploração.Casos destes abundam. Em certo canto,deram brado três. Um deles,coitado,nunca se recompôs. Ainda fez uma tentativa desesperada para se libertar,emigrando para muito longe,mas nem aí o pouparam. Um outro elouqueceu de vez. O terceiro,não se sabe como não lhe aconteceu o mesmo,mas esteve quase à beira disso.

UMA GRANDE DESCOBERTA

Ele estava muito satisfeito,tão satisfeito,que ali à roda diziam que nunca o tinham visto assim. O caso não era,de facto,para menos. Eles é que não sabiam do que se tratava,pois tinha-se fechado em copas. Os outros que se admirassem,ou julgassem o que entendessem. Isso pouco lhe importava.Afinal,do que é que se tratava? É que,certa noite,uma noite muito escura, ele tinha feito uma grande descoberta,pelo menos assim pensava que tivesse sido. Que era uma descoberta e que era grande. Podia estar enganado,mas isso já não era com ele.E um dia,depois ,também,de muito pensar,decidiu revelá-la a um que ia ali a passar,porque com os amigos não valia a pena. Lá vens tu com mais uma das tuas. E fariam chacota.Durante muito tempo ele pensara que alguns não se lhe chegavam por julgarem que ele se considerava superior. E isso não toleravam,não suportavam,alás,com toda a razão. Ele que ficasse por lá a curtir a sua superioridade.Mas naquela noite,uma noite muito escura,a deusa da inspiração fizera-lhe uma visita. Tinha de ser,porque sozinho não chegava lá. Sem essa essencial ajuda,continuaria no saber antigo.E qual fora essa grande descoberta? Que eles não se lhe chegavam,simplesmente,por se acharem muito superiores,não dando confiança a qualquer um.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

UMA PROMESSA

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Do blogue OLHARES DA NATUREZA,de ARMANDO GASPAR

RIDÍCULO

Fizera-se velho bem cedo. Podia dizer-se,até,que nunca fora adolescente,tendo passado directamente de criança a adulto. E ali estavam aqueles procedimentos que não tinham outra explicação se não a falta de uma estação importante,decisiva,no seu normal desenvolvimento.Usara chapéu durante muitos anos. Achava ele que assim é que estava bem,pois dava-lhe um ar mais de acordo com o que lhe ia na cabeça. Chegou a levá-lo para a praia,pondo-o mesmo no toldo ou na barraca. Ridículo,não era?Mas não estava só. Fora o caso de alguém que assim se compunha,numa altura em que ele já se aliviara um tanto. Refinara este. Mas não se tratava só de chapéu. Também vinha para a beira-mar de fato completo,de cor escura,e sobraçando pasta. Enquanto a mulher e a filha faziam a sua vida,de companhia com outros,ele embrenhava-se em leituras sérias,naquele preparo de fazer lembrar um cangalheiro.A mulher também tinha a sua originalidade. Uns dias antes do regresso,percorria as aldeias próximas,donde trazia meia dúzia de galináceos,a preços muito regateados. Dizia ela que era para dar para a viagem. Vinham no porta-bagagens,em cima umas das outras. Algumas chegariam meio mortas,reduzindo,felizmente,o alarido que o conjunto,mesmo assim,devia fazer,quando entrasse no prédio de luxo onde viviam. Eram dos tais que também poupavam no farelo.

A VALER

Teria sido em tempos uma pequena cascata de límpidas águas. Por lá passam também,agora,
esgotos de uma vasta zona urbanizada. À falta de melhor,um pai foi mostrá-la ao filho,talvez dando-a como exemplo de uma cascata a valer.

BURACOS À VISTA

Afinal,ele acabara por receber o subsídio,que estivera em dúvida. A sua cara bem o indicava,uma cara muito diferente da que antes tinha mostrado,cheia de apreensões. E com razão,pois ficariam alguns buracos à vista. Tem destas coisas o dinheiro,esse mágico. Sem ele,é uma tristeza.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

INQUIETA

A mãe tinha levado o filho ao jardim. A tarde estava amena,pelo que seria uma pena ele não poder respirar um melhor ar do que o lá de casa. Ali encontraria também meninos com quem pudesse brincar.
Um deles trouxera um brinquedo que ele nunca vira. Abeirou-se e lá ficaram os dois entretidos,
que o outro era de partilhar. Mas não esteve muito tempo,pois a mãe não gostara daquela intimidade. Olha que se está fazendo tarde.
Oh mãe,este menino tem um brinquedo tão giro. Deixa-me estar mais um pouco. Este é o meu pai e aquele é o teu. O meu? E ficou assim a modos que envergonhado.
A mãe insistiu. Temos de ir para casa. Mas a sua cara era triste,pois via que o seu filho tinha arranjado companhia. Davam a entender que ligavam bem. Dali não despegaria tão cedo,assim a mãe deixasse.
Mas ela estava inquieta. Temos de ir embora. Humilde,pediu desculpa. De quê? O filho apenas
quisera arranjar companheiro para conviver algum tempo. Estava deliciado com o brinquedo e tão contente com o novo amigo.

"MAIS VALE UM ASNO QUE ME LEVE DO QUE CAVALO QUE ME DERRUBE"

Dito popular,que,como se sabe,serviu de tema à Farsa de Inês Pereira,de Gil Vicente. É bem velho,pois,este provérbio.

ESTRANGEIRADOS

É velha,muito velha,a disposição. Quando não se pode com eles,ou elas,colam-se-lhes nomes feios. Não têm limites esses nomes,que vão acompanhando as modas de cada tempo. Ainda não há muito,eram os estrangeirados.

NÃO ESTAVA TUDO PERDIDO

Apoiava-se numa bengala e um velhinho compadeceu-se. Sente-se aqui. Dessa vez,não se sentou. Não demorou a ouvir um outro convite,vindo de alguém de muito menos idade,a que não resistiu,aproveitando para lembrar o primeiro. Fê-lo como que a dizer que não estava tudo perdido.

A CHUVA NUNCA ERA DEMAIS

Chuva caía que Deus a mandava,depois de já ter mandado muita. E ele abrigara-se,e bendizia essa água que tinha caído e estava caindo. Não era de uma terra onde a chuva rareasse,antes pelo contrário,mas,mesmo assim,exultava com ela. A chuva nunca era demais.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LES BARRAGES,ACTEURS MÉTÉOROLOGIQUES

http://mondedurable.science-et-vie.com/2009/12/les-barrages-acteur-meteorologiques/

UMA FACA DE DOIS GUMES

http://spore.cta.int/climatechange/pt/4_forets_01principal.html

AFRICA- WIDE"GREAT GREEN WALL" TO HALT SAHARA'S SPREAD?

http://news.nationalgeographic.com/news/2009/12/091228-great-green-wall-trees-senegal-sahara-desert.html

DILÚVIO

Um passarinho procedia à higiene da manhã,enfiando,repetidamente, a cabecita na água límpida de uma poça minúscula. Após cada mergulho,sacudia-a com vigor,em jeito de claro regozijo.Ainda na véspera teria carpido. As árvores tinham perdido quase toda a folhagem e os seus habitantes,as muitas famílias de pássaros,sentiam-se desamparados. Um dilúvio passara por ali. Em viva chilreada,que mais parecia um coro de protestos,abandonavam os ramos despidos e procuravam abrigo em ressaltos das paredes dos prédios ou sobre os parapeitos das janelas. Seria,porém,muito fraca a protecção. A chuva desabava em catadupas,inundando a rua,desguarnecendo ainda mais os ramos,e escorria pels frontarias,encharcando tudo quanto estivesse exposto.O chilreio continuava,cheirando a grande mágoa. Aquela acolhedora rua fora a sua rica morada. Ali tinham namorado,casado,tido filhos,sonhado. Custava deixá-la,mas viam que tinha de ser, que tinham de ir em busca de outra,que aquela já não servia. Adeus, rua das nossas lembranças

SIMPLES CURIOSO

Tinha vindo,mais uma vez,fazer uma visita ao parque. Por lá andou,tecendo considerações sobre o que estava vendo,que a sua mulher ouvia,talvez com não muita atenção,que os seus interesses seriam outros. Parecia ser ele um entendido de coisas de árvores e companhia,pois estavam essas considerações,por uma casual amostra,carregadas de certezas. Ele sabia de doenças,de habitantes dos solos. Não era um especialista,mas um simples curioso muito convencido.

DESILUDIDO

O cãozinho,um" yorkshire",mal via gente, desatava numa correria,e vinha,num frenesim,cheirar sapatos e calças,até onde podia chegar. Mas pouco se demorava,partindo para uma nova busca. Iria desiludido,por não ter encontrado novas de irmãos seus.

domingo, 3 de janeiro de 2010

FINGAL'S CAVE

http://www.youtube.com/watch?v=TJHaIevlvac

HEBRIDES ISLANDS - PHOTOGALLERY

http://ngm.nationalgeographic.com/2010/01/hebrides/warren-text

CARTAS DE D.PEDRO V(1837-1861)

De Cartas de D.Pedro ao Príncipe Alberto

Tradução de Ruben Andresen Leitão

Portugália Editora

"Padecemos nesta vida mais pela culpa dos outros que pelas consequências dos nossos próprios erros"

Carta de 18/2/1855

...Sinto-me forçado a procurar ajuda nos livros,pois nesta terra de laranjas e de limões....há muitas poucas pessoas com quem possa discutir assuntos históricos e políticos....

Carta de 27/10/1855

...E no passado recente,quanto mal tem sido feito a Portugal pelo facto de os homens se preocuparem muito mais com as personalidades do que com as causas....

sábado, 2 de janeiro de 2010

D.PEDRO V

http://www.arqnet.pt/dicionario/pedrov.html

WORLD'S HUNGRY BILLION

http://desertification.wordpress.com/2010/01/01/bolstered-support-to-feed-world’s-hungry-billion-unnews/

JEAN-FRANÇOIS MILLET

http://www.musee-orsay.fr/en/info/gdzoom.html?tx_damzoom_pi1%5BshowUid%5D=2110&tx_damzoom_pi1%5Bzoom%5D=1&tx_damzoom_pi1%5Bback%5D=http%3A%2F%2Fwww.musee-orsay.fr%2Fen%2Fcollections%2Fworks-in-focus%2Fpainting%2Fcommentaire_id%2Fgleaners-3112.html%3Ftx_commentaire_pi1%2FpidLi%5E%3D509%26tx_commentaire_pi1%2Ffrom%5E%3D841%26cHash%3D4a3dfc0f33&cHash=7e2cb63b6a

CHINA TORNA-SE 3º PRODUTOR MUNDIAL DE ENERGIA EÓLICA

http://noticias.ambientebrasil.com.br/noticia/?id=50929

PARA NADA

"Neste mundo conturbado,quem tem muito dinheiro,por mais inepto que seja,tem talento e préstimos para tudo;quem não tem dinheiro,por mais talento que tenha,não presta para nada."

Padre António Vieira (1608 - 1697) DaWeb:www.ronaud.com

É, afinal,o muito tens,muito vales,nada tens,nada vales. Vieira viveu no século XVII. Pelos vistos,a coisa não muda. Não admira,pois,por um lado,a corrida desenfreada aos teres, e, por outro,a pressa incontida em anunciá-los,sem faltar um,por mais maneirinho que seja,em presença de um qualquer,desde que tenha ouvidos que oiçam.

IMPORTÂNCIA

Entrou na estação dos correios armada em dona de tudo aquilo. Sujeitou-se a uma bicha,mas,de quando em vez,saía dela,dando alguns passos para um dos lados ou para a frente. Parecia uma dansa. Chegou,até,a apoiar-se no balcão e espreitar, dominadoramente ,lá para os fundos.A uma pergunta sua,ficou-se logo a saber a razão de todas aquelas manobras. É que ela era íntima de alguém que ali dava ordens. Esse alguém não estava. Isso não importava. Aquele conhecimento,assim revelado para todo o mundo,chegava,no seu entender,para a distinguir,para marcar a diferença. Virava-se para todos os quadrantes,muito senhora de si e dos outros,cheia de importância.Chegou,finalmente,a sua vez. O que deseja a senhora? Não está a ver?,e isto de modo ríspido. Venho receber a quantia que aí está,que a minha filha me mandou. E voltou a olhar à sua volta,de ar triunfal. Estão a ver?,todo este dinheiro. Sim,que ela não era para ali uma qualquer.O impresso estava mal preenchido. Tinha de fazer outro em condições e apontaram-lhe as faltas. Viera mesmo a callhar um tal desfecho.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

GRANDE FESTA

De vez em quando,vá que não vá,mas quase todos os dias,era um abuso,talvez uma exploração. Tratava-se do famigerado feijão colonial,de que o anfitrião muito apreciava,não tanto para o comer,mas para o servir aos comensais. E era vê-lo encher-lhes,alegremente,metade dos pratos. O resto do espaço reservava-o ele,também alegremente, à alface,outra iguaria da sua predilecção. Ficava uma linda natureza morta,verde e encarnada,as cores lá da casa. Os pobres dos comensais protestavam,sem resultado. Pensariam em arranjar outra mesa,de cardápio mais variado,mas estava-lhes isso interdito,pelo comezinho entrave das mesadas serem curtas,não dando para luxos. Tinham,pois,de aguentar. Mas havia dias de desepero. Já não podiam ver o teimoso feijão à sua frente. E nesses dias,faziam levantamento de rancho,para gáudio,claro,do anfitrião,e de um companheiro,que,naquele desesperado passo,não os acompanhava. Não acompanhava,e até estimulava,visto colaborar nos protestos. Teria passado muita fominha lá de onde viera,por ser de natureza muito voraz. E esses dias,eram dias de grande festa para ele.

GENTE

Com tanto nome,que é o mesmo que dizer,tanta gente,e haver ruas sem nome de gente. Parece isso mesmo de gente,que nunca mais quer lembrar certa gente.