quinta-feira, 31 de julho de 2008

AFTER ALL

My blog is,fundamentaly,made of little stories,from real life. They happened,they are not fiction. After all,as our lives,that are not more than a succession of little stories. There are not nothing new,after all.

IMAGENS DE SEDONA,ARIZONA

Do Flickr,by zoniedude1
Do Flickr,by Walt K

Do Flickr,by Valerie


Do Flickr,by PGornell



Do Flickr,by PGornell









Do Flickr,by McAzadiDo Flickr,by Etc.Ja.An











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Do Flickr,by chrisjfry









Do Flickr,by bdinphoenix










Do Flickr,by bdinphoenix











Do Flickr,by AdamosMaximus












quarta-feira, 30 de julho de 2008

OS PASSARINHOS

Vamos supor,não custa quase nada,só o trabalho de supor. Vamos supor alguns quadros,dos muitos da criação,uma infinidade deles.
Vamos supor as plantas,quaisquer que elas sejam,as ervinhas,os arbustos,as árvores em flor,flor que é o princípio do fruto,da semente,da renovação. Vamos supor ainda mais. O pôr do sol e o seu acordar. Os campos atapetados,em especial de plantas portadoras de alimento. A chuva a cair em terra sedenta. A neve caiando montes e vales. As crianças a brincar. A inocência delas. Os passarinhos.
Não haverá ninguém que não goste de ver isto. Pode é não estar com disposição para o fazer,por ter comido pouco,por não saber o que fazer à vida,por ter visto o emprego fugir-lhe,por não ter dinheiro para a farmácia. E então,é como o espectáculo ficar quase às moscas.
A tristeza que se instalará na cara de quem fez tudo isto,quando vê a sua casa assim. Afinal,era melhor ter ficado lá na outra casa a tratar do quintal.

INDIFERENÇA DA BOLA

Isto de ser homem ou mulher tem muito que se lhe diga. Se fossem os homens todos iguais e as mulheres também,talvez se pudesse dar um jeito. Mas como muito bem se vê,há grandes diferenças na inteligência,na esperteza,na instrução,na saúde,na vontade,na beleza,no berço,um sem número de armas de combate.
Numa guerra destas,a vitória está mesmo à vista. Com algumas excepções,os primeiros lugares são ocupados pelos que dispõem de melhor arsenal,aliás,como nas outras guerras. Tudo corre razoavelmente,quando os lugares abaixo não ficam muito distantes. Mas o panorama tolda-se quando é preciso usar binóculo para se verem uns aos outros. Surgem,assim,às vezes,revoltas. Uma ou outra consegue triunfar,mas por pouco tempo,porque os homens,e as mulheres,embora diferentes,são também iguais. E mais tarde ou mais cedo,volta tudo à mesma,porque o que acabou por vigorar foi o tão conhecido tira-te tu daí para eu ir para lá. Agora,é a minha vez. E assim,nada feito.
A bola continuará a girar,indiferente,até que um dia... A indiferença da bola,consta,parece radicar em que ela conhece todos e todas,sabendo,portanto,que sendo muito diferentes,são todos muito iguais.

COMO A UM IRMÃO

Desprendido,sempre pronto a ajudar. Paciente. O outro,os outros,a sua família. Deviam-lhe,mas não era de cobrar. Albergava,instruía,educava. Parecia sacrificar-se,tal a dimensão do seu préstimo. Não,não era sacrifício. Era assim.
Culto,modesto,avesso à subserviência. Independente. Sonhador,de sonhos grandes. Realizador, de obras grandes,à sua medida. Mas tudo sem alardes. Era assim.
A cada Natal,mandava-lhe um cartão de Boas Festas,como a dizer que não tinha esquecido,nem esqueceria jamais. Batera à porta e ela abrira-se,sem constrangimento,como se estivesse à espera. Não uma vez,mas várias. A porta abrira-se,também,espontaneamente,algumas vezes. Não fora preciso bater. Adivinhara. Fora sempre a primeira vez. Ausência de enfado,de cansaço,de desinteresse,de alheamento. Sempre atencioso,preocupado,delicado,como que a pedir desculpa de alguma falta de atenção.
Os carentes,quando insistem,são,às vezes,mal atendidos. Têm de espaçar a mão estendida. Parece cansarem-se de os ver. Parece serem eles os responsáveis ou julgarem que os responsabilizam. Aquele,não. Até parecia agradecer que o outro tivesse dificuldades. Para o ajudar.
O mundo é assim,foi assim,talvez continue a sê-lo. Há os que precisam e há os que podem. É uma divisão casual. Podia ter acontecido o contrário,os que agora pedem serem os que poderiam dar,e os que agora poderiam dar serem os que pedem. Alguns pensam que,perante esta aparente fatalidade,só resta ter paciência e esperar que o necessitado de hoje possa ter alguém por perto disposto a dar-lhe a mão com bons modos,como a um irmão,sem,depois, o estar a lembrar. Tal como aquele recebedor de Boas Festas.

O HOMEM E A ESCALA

O homem,ou o homemzinho,se se atender ao tamanho e à complexidade do Universo,trabalha,ou diverte-se,à escala. É,afinal,um escravo dela. À escala da família mais chegada,da família mais alargada,do clã,da tribo,da vizinhança,da rua,do bairro,da freguesia,do concelho,da província,do país,da nação,e pouco mais,por se estar a entrar num terreno difuso,cheio de sequelas de um longo e traumatizante passado, avesso a escalas.
E não se tem saído disto,com pequenas,e frágeis,e fugidias variações. Tem sido mesmo uma pobre monotonia de uma só música,a do desacerto,a do desconcerto. Tem sido,mesmo,escala contra escala. Ora isto não tem levado a lado nenhum,antes pelo contrário. Há ,até, o risco,de,um dia,não haver lado,não porque seja só um,isso é que era bom,mas porque está lá o vazio,o silêncio,o nada.
O que é que isto está a pedir,então? Está-se mesmo a ver,até uma criança que só pensa em brincar veria,se puxasse um poucochinho pela cabeçita. Mas o crescidinho,o homemzito,à escala do Universo,entenda-se,só pensa em continuar nas brincadeiras,sem pensar que se pode aleijar também,não só os outros com quem anda a reinar.
Custaria muito parar para pensar? Nem pensar nisso,dirão alguns. Isso é o que eles queriam,para nos apanharem distraídos de outras coisas,tais como as brincadeiras do costume,que já se transformou,o costume,nalgum gene. Ele bate,bate,até que fura,neste caso,instala-se,muito bem instaladinho,ao lado dos outros,de origem ou lá o que é,e,depois,manda. E,depois,é um sarilho. Mas já se estava a variar.
Mas pensar de outro modo,porque os muitos modos outros já experimentados,já tão velhos como o homem,não têm dado mesmo nada,ou melhor,têm dado isto que se está a ver. Uma tristeza. Tantas filosofias,tantos calhamaços,tantas teorias,tantos tratados. Têm dado Jardins Suspensos, Recantos de Mil e Uma Noites,Impérios,Pirâmides,Guerras por Tudo e por Nada,às vezes,por uma birra,por um acordar mal disposto,por ter dormido demasiado só para um dos lados,direito ou esquerdo.
É uma historiazinha já muito sabida,até já aborrece. Isto só com o tal Homem Novo. Mas onde é que se já ouviu isto? Isto está mesmo a pedir uma transferência,pese embora alguns puristas da nossa praça. A propósito,há para aí umas cabecinhas que conseguem fazer saquinhos de plástico que apodrecem,ao contrário dos outros,que deram um grande jeito,mas que duram uma eternidade a dar pó. E o que acontece é que já há solos com um primeiro horizonte de plástico,é que já há inundações por entupimento dos drenos,já há lagos e porções muito apreciáveis dos oceanos de onde os pobres peixes foram expulsos. Mas o que é isto? Então não se estava a escrevinhar sobre...? Sobre quê?

terça-feira, 29 de julho de 2008

ERA SEGREDO

Era um família numerosa,ao todo oito irmãos. Com património escasso,tiveram que se fazer à vida. Ele emigrou. Andou por lá uns bons trinta anos e arranjou-se. Deu para regressar e viver o resto dos seus dias sem preocupações. Enquanto por lá andara,ia recebendo e mandando algumas notícias . Estava mais ou menos a par do que se ia passando com os seus e eles também. Dos oito,além dele,havia uma irmã que também não estava nada mal. Tinha saído um tanto atrasada,mas lá conseguira um bom pé de meia.
E foi o que ele veio confirmar. Como é que ela teria conseguido? Agora,que já podiam falar,iria saber os pormenores. Fora sempre uma coisa que o intrigara? Como é que ela se arranjara assim tão bem? É claro que não era só ele a admirar-se. Todos os outros irmãos,e conhecidos, se admiravam. Contavam-se coisas,mas não passavam de boatos. Dizia ela que era segredo. E assim se manteve. Era segredo. O que teria acontecido,ao certo? Nunca se soube. Era segredo. O que teria acontecido? Não era caso único. Tantos que havia da mesma espécie,por aqui,por ali,por toda a parte,afinal. Era mais um. Mistérios. Milagres. Sabe-se lá. Coisas que acontecem.

PORTUGAL CORRIDA


George Eastman House Collection

Maker:Ch. Chusseau-Flaviens

Date: ca. 1900-1919

NOBRE CAUSA

Era uma biblioteca que virara a centro de explicações. A senhora que assim a convertera parecia ter toda a razão. É que aquela vasta sala passava a maior do tempo às moscas.Ia por lá um velho,de vez em quando,e pouco mais. E este pouco mais,por via,sobretudo, dos jornais ,que eram de graça.
Que pena,teria ela pensado. Que belo sítio para eu tratar da minha vida. Lá em casa era um desassossego. Os filhos estavam sempre a interrompê-la,a empregada fazia demasiado barulho, com as limpezas, os tachos e as panelas,a mãe não parava de a atormentar com os seus eternos queixumes.
E passou à acção. Era,porém,de admirar a complacência da bibliotecária. Teria ela participação nas receitas? Ou tratar-se-ia antes de uma estratégia em prol de uma nobre causa?
Talvez os jovens que ali iam se habituassem àquele espaço e mais tarde viessem a frequentá-lo ,assiduamente,mas na qualidade de leitores.
Estaria,também,a assegurar a sua enxada. É que acentuando-se o desinteresse,podia acontecer que,um dia, fechassem a porta para sempre.

EXPANSÃO DO CANAL DO PANAMÁ

Espera-se que a obra termine entre 2014 e 2015. O colocar da primeira pedra,que,neste caso,foi a primeira explosão,ocorreu no princípio de Setembro de 2007. Esteve presente Jimmy Carter. Foi no tempo da sua presidência,em 1977,que se deu a transferência do canal para o Panamá.

TÚNEL EUROPA-ÁFRICA

Um empreendimento conjunto de Marrocos e Espanha,com início pensado em 2008. O autor do projecto é o suiço Giovanni Lombardi,envolvido já,entre outros, no Gotthard Pass, na Suiça,e no túnel Mont Blanc,que liga a França à Itália(BBC,13 de Março de 2007).

ST.PANCRAS INTERNATIONAL

O novo terminal londrino do Eurostar,na margem norte do Tamisa,inaugurado em Setembro de 2007. O anterior era na estação de Waterloo,na margem sul. Mais um túnel a juntar a outros. Não está sozinho o Tamisa. Acompanha-o outros. Do outro lado do Atlântico,pedem meças,pelo menos,o Hudson e o East River.

DUAS ESTAÇÕES ESPANHOLAS NO ANTÁRCTICO

A Estação Juan Carlos I,desde Janeiro de 1988,na ilha Livingston,e a Estação Gabriel de Castilla,desde1989/90,na ilha Deception. As duas ilhas situam-se nas South Shetland Islands.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

IMPRÓPRIO PARA CARDÍACOS

Para além do "crude" e do dólar,as estrelas do mercado,desta vez, coube ao trigo vir, também, para a ribalta. Ir-se-á ver por quanto tempo. E as razões apresentadas parecem ser as seguintes. O trigo desceu, pela primeira vez, em três sessões, e isto por via da especulação quanto à sua procura para rações. É que ela pode baixar por causa da redução do preço do milho,lá por certo motivo. Isto é mesmo impróprio para cardíacos. Ah,"these nervous,instable,commodity prices".

O ANFITRIÃO

Foi como que um tratamento de choque a curta passagem por aquela casa de hóspedes. De arrasar. Se lá permanecesse,era capaz de não ter saído de lá vivo. O dono dela,um cinquentão,de ar espectral,raramente punha a cabeça de fora. Quem geria o barco era a mulher e a cunhada,que estavam bem uma para a outra. Pareciam gémeas,pelo menos,nos comportamentos,um tanto ou quanto livres,para quem vinha da aldeia. Quanto à roupa,cada qual se arranjasse,que lavandarias,daquelas de uso individual,com introdução de moedinhas,não faltavam. Era uma em cada esquina.
Não era aquilo uma Arca de Noé,mas quase. A variedade era de se ficar encantado,desde uma velhinha que não tinha para onde ir,até representantes disto e daquilo,passando por estudantes dos mais diversos cantos.
As duas irmãs tinham um certo fraquinho por dois estudantes,com os quais conversavam um tanto familiarmente. Um deles era de tal qualidade,que um casal teve de levantar voo,antes do tempo previsto,sob pena de o marido perder a cabeça. O outro ameaçava quem não encobrisse a sua condição de casado e pai de filhos. Não se cansava de dizer mal da comida,mas não passava daqui. Era o seu jeito,e talvez lá do sítio de onde viera. Depois,onde é que ele iria arranjar uma arca assim?
Ainda ficou esclarecido o porquê das pantufas,portas a dentro,do anfitrião. É que o gelo,lá fora, era tanto,que temia estatelar-se logo que pusesse o pezinho na rua. Passaria uma boa parte do tempo na cama. Elas que trabalhassem.

UMA COISA SEM JEITO NENHUM

Aquilo tinha algum jeito? Uma senhora,coitada,que andara por lá a penar,passando as muitas passas de muitos Algarves,tempos sem fim,andar,agora,ali feita vedeta. Agora,que ela devia estar na sua casinha,na sua caminha,muito sossegadinha,rodeada dos seus. Agora,que ela devia estar a recompor-se dos muitos maus tratos que suportara. Andar ali feita vedeta. Uma coisa mesmo sem jeito nenhum.

QUE ALÍVIO

Não se pode imaginar como o velho ficou de contente. Ele que já estava a ver a vida a andar muito lá para trás,para os tempos em que ele era menino. As desgraças que ele via lá do seu postigo,só visto,contado não tinha graça mesmo nenhuma. Uns horrores era o que aquilo era.Velhinhos a pedirem uma esmolinha pelas alminhas daqueles que lá tinham,nos Cèus. Aquelas bichas intermináveis à porta de casas ricas,em dias certos,e de quartéis todos os dias.
E outras desgraças mais,em feiras,em romarias,nos cruzamentos,às esquinas,por toda a parte. Chagas ali,como numa montra,a solicitarem uma ajudazinha. E as moscas ali à roda. E os ranchos,que lá vinham das serras,para as vindimas,para as ceifas,para a azeitona,e que eram aboletados,como gado,em casas de malta? Uns horrores.
Mas o que ele estava a ler, naquela altura,em que uma alegria enorme o tomara,não era para menos. E não haverá ninguém que possa vir dizer que o velho não estava cheio de razão. É que o que ele estava a ler era--"Ao contrário da ideia corrente de que o Estado-Providência é coisa do passado,ele irá afirmar-se mais na América". Que alívio.

domingo, 27 de julho de 2008

DIA DE ANOS

Com que então caíu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos,que tolo!
Ainda se os desfizesse,
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem,aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal;porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa;que,em suma,
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos,não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

JOÃO DE DEUS

MUDANÇAS NAS PAISAGENS

Decorrem apenas alguns anos,mas os suficientes,às vezes,para se darem grandes mudanças nas paisagens. Não é de admirar,pois,que não se veja num sítio o que muitos séculos antes lá esteve. Aconteceu isso,ou por obra da natureza,ou por obra do homem,ou por obra de ambos.
Oh patrão,olhe o que eu encontrei quando andava lá a lavrar. A aiveca tropeçou nisto,veja lá. E foi o começo do renascer de uma vila romana. Lá estavam as divisórias de muitos compartimentos,dos senhores e dos servidores,os recintos dos banhos e dos lazeres,as condutas de água. Não faltava,também,o lugar de culto,não muito afastado.
Não muito longe dali,sobre material de decomposição da rocha,pela humidade,pela acção de agentes biológicos vários,pelas variações de temperatura,depositara-se um manto de areia e de cascalho, de duas ou três dezenas de centímetros de espessura,naquela ocasião,sinal de que por ali tinha andado água a rodos,durante larga temporada,lá bastante para trás no tempo.E isso,muitos quilómetros para cá da linha de costa. Uma coisa destas,teria o corrido muitíssimo antes da tal vila desaparecida.
Factos similares deram-se também,por exemplo,com templos,em que carrejos cobriram-nas com intensidade vária. É o caso de um,que hoje guarda um sem número de peças,de sucessivas épocas,mercê do trabalho de dois ou três carolas.

CADA DIA

Envelhecera,coitada dela. O marido não a rejeitara,mas fora como se o tivesse feito. Vivia magoada. Admiraria,se não fora assim,pois estaria muito longe de acabar. A terra era pequena. Quase tudo se sabia. Para mais,as coisas passavam-se muito às claras. Só não via quem fechasse os olhos . É que eles,nem sequer disfarçavam.
Alguns encontros não tinham segredo. Era só um sair do seu poiso habitual e entrar no da outra,ali mesmo em frente. Logo ali se mantinham conversas para matar alguma saudade,talvez da véspera,ainda que testemunhas houvesse. Não seriam,em tais condições,muito íntimas,que a decência,naqueles atrasados tempos,não permitiria. Se calhar,usariam código para marcar o próximo encontro,caso a isso fossem obrigados,por razões óbvias.
Não era esta,muito provavelmente, uma relação típica. Os subterfúgios que se teriam de forjar naquelas épocas tacanhas. E os cuidados,também,para contrariar surpresas. No tempos que correm,não é assim. A transparênia é total,pode dizer-se,actuando-se abertamente,conforme as conveniências,no momento, de cada um. O que importa é sentir-se feliz ,à sua maneira,qualquer que seja o parceiro da altura.
O ideal seria não haver pontos mortos. Uma corrente contínua de felicidade o alvo a atingir. Contanto que ele ou ela garanta o padrão que se pretende. Estará,deste jeito,criada a fórmula mágica da felicidade perpétua. Se necessário,mudando cada dia.

ETERNA

A cabeça dela,a parte mais notada do seu compacto corpo,não era bem uma cabeça. Era,antes,uma composição,um cenário,produto da sua veia artística,revelada logo em menina.
Para se manifestar na sua força plena,como,aliás,era indispensável,precisava de tempo,muito tempo. É que ela tinha de atender a várias frentes,cada uma com a sua exigência própria,que bem conhecia. Eram os olhos grandes,nervosos,a boca larga,as faces gordinhas,as orelhas pequeninas,a testa ampla,a cabeleira farta.
Só quando se reproduzia,isto é,quando se achava tal como era na sua época áurea,de triunfos sem conta,é que se dignava entrar em palco. Com os anos a passarem-se,com muita mágoa dela,o que, às vezes,deixava escapar,por estar distraída,ia requerendo mais tempo para toda aquela trabalheira. Mas ela era uma rainha,assim se considerava,pelo que tinham de ter paciência e compreensão.
Era uma aparição fugidia. Tinha de ser assim,pois uma ligeira variação no termómetro,uma simples brisa,um leve bafo podia deitar tudo a perder. E isso é que não,seria como uma morte. E isso é que não, que ela estava destinada a ser eterna,o que ela sempre merecera,no seu entender,por razões que ela guardava,no segredo de si e de mais ninguém. Porque ela era única.

sábado, 26 de julho de 2008

FÓSSIL DE UM TARBOSSÁRIO JOVEM


Esqueleto quase intacto no deserto de Gobi. O achado é de 2006. Acção conjunta de investigadores japoneses e da Academia das Ciências da Mongólia. Tardou em ser notificado por se tratar de um lote de 300 peças,coisa para mil horas de trabalho especializado. A descoberta foi feita numa camada geológica do Cretácico,com a bonita idade de 70 milhões de anos.


Notícia da EFE,lida no El País,de 24/7 . A imagem é da Reuters.

SÓ DE SAPATOS

Não se sabia que chão iriam pisar. Havia para todos os gostos,poeirento,saibroso,lamacento,
revestido de erva mais ou menos orvalhada. De qualquer modo,estaria fora de questão usar sapatos,muito menos se fossem novos. Pois era precisamente sapatos que ele trazia,comprados mesmo de véspera.
Porque assim procedia? Desplante de novo rico,que,em boa verdade,não era? Magoá-lo-iam as botas? Foi coisa que não se inquiriu. Ficaria lá isso com ele.
Lá onde nascera e se fizera menino crescido,a vida era difícil. O calçado seria um luxo. Quando muito,umas sandálias,das mais baratinhas. E para as poupar,andaria quase sempre sem elas,em casa,na rua. O mesmo aconteceria com os outros meninos. Ninguém estranharia e até ficariam incomodados caso alguém quebrasse a regra.
Não há mal que sempre dure e a hora de melhor passadio chegou. E teria feito um juramento. Daqui em diante,só de sapatos,quaisquer que sejam as circunstâncias. Que importa que logo se maculem,que seja curta a sua duração?
Talvez tenha sido assim,quem sabe? Que outro motivo haveria?

UMA VISITINHA

Era um maneirinho museu de um pequeno burgo,ali mesmo à ilharga do rio,com um respeitável acervo de achados de eras que não voltarão mais. Guardava-o, muito bem guardado e zelado, uma senhora de meia idade,que morava ali a dois passos. A sua velha mãe estava lá em casa,de cama, e era preciso,de vez em quando,fazer-lhe uma visitinha,para ver como ela ia,se estava a necessitar de aguma coisa.
Não se importam de ficar aqui em meu lugar? É um instante,que eu vou lá a correr,não me demoro nada. E ali se ficou,feitos guardiões de museu,aliás,com muito gosto,pois um dia,mais tarde,quem sabia?,seria elemento essencial de escolha,numa pretensão de emprego. Ficava altamente valorizada a folha de serviços,o que,nos tempos que correm,isso é muito importante,desde que,claro,os premiados não entrem pela porta do cavalo. Mas adiante.
Em vista de uma tal possilbilidade,de uma filha,por exemplo, dar uma saltada à sua casa,ali a dois passos,para estar uns momentos com a sua mãe velhinha,o que se perde para vir, a correr,meter-se em terras de tamanho sem fim,ficando a morar lá para o cabo do mundo. Mas é assim,por todos os lados,mesmo os ditos mais atrasados,e aí até mais. A urbe atrai. Parece ter sortilégio. É lá que acontecem coisas. E,depois,lá vem um Gedeão contar que a Luísa sobe a calçada.

TERREIRO À NOITE

Estava-se ali bem à noite,naquele vasto terreiro,junto à estátua do rei. Nos seus tempos,não seria muito diferente,tendo-lhe custado muito,talvez,deixá-lo. Haveria, também,em redor,caça em abundância,que lhe entreteria os ócios. A daquela altura não teria comparação com a desse recuado tempo,mas,mesmo assim,não era nada para desprezar,como indicavam as numerosas famílias de coelhos,em íntima convivência com montes de carraças,em tapada próxima,coelhos que pouco fugiam à vista de estranhos. A maioria continuava lá na sua vida,sem se refugiarem nas suas tocas de fortes alicerces,pela profusão de pedregulhos.
Como a vida não é só trabalhar, os domingos,e menos os sábados,porque, às vezes,era-se obrigado a fazer uns biscates, eram aproveitados,em apreciável parte,para coscuvilhar as muitas relíquias da terra,o palácio,os conventos,as igrejas,o castelo. Esse bisbilhotar foi muito facilitado,usando a muleta do Guia de Portugal,de Raúl Proença. Não era só o terreiro a ser contemplado à noite. Também se passava por certa esplanada,onde se ouviam histórias de férias de sonho,em praias mediterrânicas,e de tardes de glória em praças de toiros. Há assinalar,ainda,para quebrar a monotonia dos pratos lá da pensão,as passagens esporádicas por um antro de gente esfomeada,onde pontificava a dobrada com feijão.
Tudo isto emoldurado por uma cintura de olivais muito verdes e muito densos,irrompendo de um chão avermelhado ,resíduo da decomposição de assentadas de calcários cristalinos,que aqui e ali mostravam a sua pujança,muito comprovada pelos tempos que se seguiram e hão-de continuar,pois aquilo parece poder ir até ao centro da Terra.

ENTREVISTA

O velho ia a caminho de uma entrevista. Em casa,preparara-se devidamente para não fazer má figura diante do senhor e no trajecto foi recapitulando aquilo que lhe havia de dizer. Estava uma tarde muito quente. E,quando a ocasião chegou,foi um desatre dos grandes. Irra,que está de abrasar. Quase como numa passagem inesquecível,dum não menos inesquecível escrito,de um nunca esquecido escritor.
Mas rapidamente recuperou,de modo a compor o ramalhete,que tão mal começara a formar-se. É que se vinha desentranhando em historietas,nos últimos tempos,empurrado não sabia ele porque forças,e estava a ver que o veio não havia meio de secar. Era capaz de vir a entrar,assim,na eternidade. E voltou a reincidir,prestes a imitar um outro célebre cultor das letras. Lá achara que no paraíso seria,no seu rasteirinho caso,demais. Também a escrever,era,da sua humilde parte,um grande exagero. Quando muito,a descrever,assim,à maneira das redacções,lá na escola,para o professor ver. É que não esquecera o reparo que uma outra estrela de muito brilho tinha feito diante de uns neófitos. Descrever é fácil,escrever é que é difícil.
O senhor ia ouvindo com bonomia. Mas que pretenderá este velho? Não lhe bastara gastar máquina e papel,para agora estar ali a palmar-lhe uns preciosos minutos do seu riquinho tempo. Mas tinha de o aturar,que remédio,pois com os velhos tem de se ter muita paciência. E poucos a têm,infelizmente. Esquecem-se de que, um dia,também serão velhos,e,nessa altura, acontecer-lhe-á o mesmo,o quererem ter ouvidos a ouvi-los,mas ouvidos atentos,não ouvidos distraídos.
Deixou-o,pois,falar à vontade,sem o interromper,assim como numa confissão,a despejar o saco. Podia ser que ele se cansasse depressa. E foi que sucedeu. O velho até se esqueceu da sua pretensão. Aquilo não tinha,afinal,passado de uma manifestação da necessidade de comunicar que o atormentava.

DUPLAMENTE FRIAS

O minúsculo botequim terá meia dúzia de mesas,não mais. Mas ali se tem conservado,ainda que a rua seja do tipo lá vai um. Certa clientela apreciará esta quietude,pois não quererá dar nas vistas. O ar do sítio também será melhor do que o lá de casa,por ser vizinho de um jardinzinho,com loendros de flores encarnadas,róseas e brancas. Um encanto para os olhos,e,quando calha,também para a alma,que,certamente,agradecerá.
O não querer dar nas vistas,foi o que há dias,já noite,se dera a entender. Estavam uma,e um, em cada mesa. Foram elas que mais revelaram. Eram duas senhoras de muitos anos e a sua cara mostrava alguma tristeza. Tinham pedido,apenas,um cafezinho,e ali iriam permanecer enquanto pudessem,entretendo-se com pequenos nadas.
Não teriam suportado a solidão lá das suas casas duplamente frias. De alguma maneira,encontrariam ali o calor humano que lá lhes faltava,ainda que o convívio não fosse por aí além. Mas seria uma tristeza menos triste,porque compartilhada,
e chegariam,talvez,a pensar ser aquela a sua família,e que um dia teriam ali socorro para alguma aflição.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

AOS MILHÕES

São milhões as galáxias . São aos milhões as estrelas de cada uma. São milhões os anos de luz. O mundo é muito velho,tem milhões. Os pobres dinossáurios sumiram-se há milhões. As pessoas contam-se por mihões. As dívidas atingem milhões. Algumas obras de arte valem milhões,e assim são leiloadas e arrematadas. Os pobres são aos milhões. Porque não hão-de os ricos,com milhões, serem aos milhões? Também têm direito,pois então. E quem é que não queria juntar-se a eles?Talvez um ou dois,se tanto.

O FESTEJADO

A azáfama que tinha havido por ali para se encherem depósitos,tonéis,vasilhas. Ainda não era o vinho,mas,com o tempo,lá chegaria. A vindima chegara ao fim. Nos ares pairavam restos de aromas que se tinham escapado dos lagares.
Era o vinho que os sustentava,era o vinho a sua riqueza,merecia,por isso,que o festejassem. E ali estavam eles e elas a recriar os passos essenciais. Foi um cortejo de horas,pois muitas tinham gasto para dar esses passos.
Lá se explicava a poda,a cava,os outros amanhos culturais. Lá se mostravam os cestos repletos de novidade,as dornas,os lagares,as prensas,o laboratório. Lá desfilaram os braços necessários.
Os gestos indispensáveis todos os puderam ver. Os cantares é que mal se ouviram,que os tractores assim quiseram. Não faltaram as crianças,a apontar a continuidade da acção criadora.
A hora era de regozijo universal,pelo que os actores tiveram casa cheia. E o vinho,o festejado,só recolheu,quando se viu sozinho.

OS ESCOLHIDOS

Estavam encantados os moços. O caso não era para menos.É que tinham caído nas boas graças de um mãos largas. Simpatizara muito com eles e aquilo eram prendas todos os dias. Convidava-os a passar lá por casa,escancarando-lhes a selecta garrafeira,e,não contente com isso,ainda lhes punha lá na pensão o melhor vinho da sua lavra.
Não morava o benemérito onde eles tinham assentado arraiais,mas a sua terra era mesmo ali ao lado. Nunca estranharam os moços tanta amabilidade,tanta gentileza. Seria de seu jeito mostrar-se agradável com gente de longe. Assim tivesse sucedido nas outras terras onde já tinham estado.
Só depois de lá terem saído é que deram com o motivo de tanta generosidade. É que ele,naquela altura,era muito mal visto lá na sua terra por via de grossa maroteira. Deixara de ter amigos. E ele precisava de mostrar que os podia ter. Foram os moços os escolhidos. Tinham vindo mesmo a calhar.

SOMBRAS

Tinham uma mesa reservada,uma mesa grande,redonda,a de horizontes mais amplos. Ficava a um canto,junto à única janela,uma janela larga. Dali viam bem o que se passava na rua,frente ao mercado,e dali dominavam toda a vasta sala do restaurante. Se tivessem olhos de olhar para muito lá para trás no tempo,até poderiam ter visto a Mariana Alcoforado,a escrever as "Cartas de amor,enviadas do convento para Paris ao cavaleiro de Chamilly,e que,traduzidas em todas as línguas da Europa,fizeram do nome da pobre freira um dos mais gloriosos na história do amor".
Nunca estavam todos. Iam à vez,como se estivessem de prevenção. As caras eram sérias. Teriam receio de alguma cilada,que aquela era uma terra de muito poucos amigos. O olhar era distante. Também se fugia de os encarar. Eram sombras e como sombras se queriam passar os que com eles casualmente se cruzavam.
Ele era frequentador assíduo,só pelo quarto, da Pensão Coelho,ou Toca do Coelho,como alguns lhe chamavam. Pensão ou Toca,não era a casa,uma casa de luxos. Era a mais baratinha que havia por ali,em pleno centro histórico. Passava por lá gente de toda a espécie,tavez gente de desconfiar. Seria uma casa vigiada.
De qualquer modo,os quartos só permitiam conversas em surdina,pois separava-os,não cortinas,mas tabiques de escassos milímetros. Um espirro ouvia-se bem do outro lado. O ressonar,então,parecia que a madeira o fortificava. Lembrava uma trovoada que se estava abatendo ali mesmo. Para compensar,a casa de banho,a única,era um salão. Ecoavam os sons,quaisquer que eles fossem. Não daria muito trabalho esta Toca.

O que está entre aspas foi retirado do Guia de Portugal 2º Volume, 1927,de Raúl Proença.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

A AUTORIDADE

Naquele tempo e naquela região,a bolota era muito cobiçada,sobretudo uma mais doce,em primeiro lugar,pelos porcos,que os havia,em grandes varas,que a peste suína não se tinha ainda instalado,e,depois, pelas gentes,que,às vezes,passsavam mal. Não admirava,pois,que os montados fossem bem guardados.
Uma manhã,estava ele no trabalho do costume. O ajudante avisa. Os guardas vêm aí. Eram dois,a cavalo. Chegam. Os cavalos relincham. O que estão aqui a fazer? A voz é ríspida,as caras são duras,os olhares, de poucos amigos,talvez das instruções. A vida estava difícil. Tinham de cumprir ordens,não fosse haver denúncia de brandura,e,assim,lá se iria o emprego certo. Não se lhes responde. Apenas se aponta para o jipe,meio escondido por detrás de um chaparro.
Lá foram para a sua vida. Nem um pedimos desculpa. Nem um adeus. Nem um passem bem. Era a autoridade.

COMO TINTAS

Dos oito iniciais,três escaparam-se muito antes do termo. Mas o encantamento foi tal,que quase se tornou necessário expulsar os cinco restantes.
A história seria dispensável. Estava ali a desenrolar-se porque o artista precisaria dela para compor os seus quadros. Uma interminável galeria. Que cores. O branco parecia uma lâmpada de muitas velas a iluminar as cenas,um tanto penumbrosas,porque assim pedia a circunstância.
Era como que a alma dela. Tempos românticos aqueles,os da acção,de contornos tão de conveniência. Muito diferentes dos tempos que correm. O parecer bem ou mal mandava nos procedimentos.
Que importa porém isto? O dom do artista gera obras inconfundíveis,trazendo o seu selo. A contenção,o rigor,o essencial. Nada de supérfluo,de estar a mais. Até as figuras são como tintas. Um veio que dá mostras de não se extinguir.

DE QUEM É A CULPA?

Alguém tinha de fazer certo trabalho. Mas as ricas férias,é que ele não podia dispensar. Andava arrasado,talvez de não fazer nada. E do que é que ele se lembrou? Arranjar um que o substituisse. E foi-lhe fácil. Havia ali um moço que só fora ensinado a dizer sim. Um não era grave,podia significar ter de ir dar uma volta.

O trabalho foi feito,mas como era de esperar,muito mal feito. Teria sido melhor,até,não o ter feito. Aquilo merecia castigo. Mas coitado do rapaz. Metia dó. De resto,não era ele que o devia suportar. Ero o outro, o que andava por lá,recuperando da fadiga de não fazer nada. E esse,coitado também,merecia o mesmo perdão. Não eram eles os culpados. De quem seria a culpa? Sabe-se lá. A água já corre há tanto tempo. Sabe-se lá por onde ela tem passado. E sabe-se lá que pés pisaram esses muitos sítios. De quem é a culpa?

NOS SEUS CANTOS

Na primeira visita,vira-se logo que ali não se fazia grande coisa. As pessoas mexiam-se,andando de lá para cá e ao invés,mas não passava disso. Só movimento para estranho observar. O bar registava notável azáfama de esfomeados,ainda que há pouco tivessem pegado na enxada. Um ou outro circulava com papéis na mão,com ar de que seriam importantes. Pessoal da limpeza manejava ,displencentemente,os instrumentos do ofício. O que,aparentemente, mais se esforçava era o jardineiro. Estava lá fora um calor de arrasar,o que convidava a resguardar-se,mas insinuou que o mandariam passear se procurasse refúgio.
Passados alguns dias,calhou,de novo,passar por lá. A impressão que se guardara ficou como estava. Parecia estarem programados. Seria do hábito,que,como é uso dizer-se,é uma segunda natureza. Que belo sítio para descansar. De quê? Talvez das noitadas. Eram jovens os que mais se viam. Começavam cedo a mandriar. Haveria excepções,certamente. Estariam por lá,nos seus cantos,como que escondidos,provavelmente,receosos de causar alguma perturbação.

DA MESMA MASSA

Dizem para aí que vão aumentar as rendas. A minha não pode crescer mais. Se isso acontecer,o que é que eu e a velha vamos comer? Se tivesse feito como outros,não me encontrava assim. E olha que tive à minha responsabilidade muita mercadoria. Pois até fiquei mal visto. Parecia ser eu sócio do patrão. Mas era o meu feitio. Cada qual é para o que nasce.
Pois fizeste mal. Não aproveitaste e vês os navios a passarem,que é o que ter resta e que podes fazer,pois basta-te chegar à janela,que o rio corre-te mesmo em frente. Se tivesse sido comigo,outro galo cantaria. Dá Deus nozes a quem não tem dentes,é o que é. Foste parvo,já te tenho dito isto um ror de vezes,pois andas para aí sempre na penúria. Quando chega a ocasião,tem-se de a agarrar. Ela até fica mal disposta,ofendida mesmo,e não mais repete a visita,quando encontra pela frente um tanso como tu.
Isso é tudo conversa fiada. Eu bem te conheço. Terias feito o mesmo que eu. Tu também não és desses,nunca foste. Andaste por lá embarcado uma parga de anos,e,afinal,onde está a tua riqueza? Sim,onde está? Somos os dois da mesma massa,sem tirar,nem pôr. Lá tem ido chegando e isso é que importa. Qualquer dia marchamos e podemos andar por lá,de cabeça bem levantada. Se calhar,vamos encontrar alguns que não esperávamos ver. Devem ter-se arrependido,a qualquer hora,mesmo na última,foi o que lhes valeu.

DESLUMBRAMENTO

Agarrara-se a ele,dançara com ele, uma noite inteirinha. Falava para o telemóvel,num deslumbramento,ali em plena rua. Levava um cigarro na mão esquerda,tinha de ser,a consumir-se. Nem o fumaria,pois era outra que ia ali. Ora,o cigarro,cigarros há muitos.
Quase voava,andaria nas nuvens,lá muito em cima. Lá em baixo,estava a rua,estava o mundo,rua e mundo que eram só dela. Abrira-se-lhe uma porta,e ela entrara logo,sem se fazer rogada,e deleitara-se. O tempo que perdera. Ah,se ela soubera antes.
Agarrara-se a ele,dançara com ele,uma noite inteirinha. A conversa estava para durar. O tempo? Ele xiste? Depois,não era ela que pagaria a conta. E o tabaco também mão,e outras coisas mais.
O velho haveria de compreender. Também já fora novo e ela era a sua querida menina,que tantas vezes trouxera ao colo,por quem tantas vezes chorara,por causa das doenças más.
Depois ainda,aquela primavera lembrara-se de aparecer,uma primavera a rebentar de convites. Quem era ela para dizer que não,para lhe bater com a porta na cara. Sim,quem era ela?

A MÃO NO ARADO

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

...

RUY BELO

Em Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade
Campo das Letras

ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido...e,torturadas,
As árvores sangrentas,revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando ,manhã alta,o sol posponte
A oiro a giesta,a arder,pelas estradas,
Esfíngicas,recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações,almas que choram,
Almas iguais à minha,almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
-Também ando a gritar,morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

FLORBELA ESPANCA

Em Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade
Campo das Letras

AS LARANJAS COM CASCAS E CAROÇOS

Sim! Europa do Norte,o que supões
Dos vergéis que abastecem teus banquetes,
Quando às dockas,com frutas,os paquetes
Chegam antes das tuas estações?!
...
Ó cidades fabris,industriais,
De nevoeiros,poeiradas de hulha,
Que pensais do país que vos atulha
Com a fruta que sai dos seus quintais?

...
Uma alta parreira moscatel
Por doce não servia para embarque!
Palácios que rodeiam Hyde-Park,
Não conheceis esse divino mel!
...
Bem sei que preparais correctamente
O aço e a seda,as lâminas e o estofo;
Tudo o que há de mais dúctil,de mais fofo,
Tudo o que há de mais rijo e resistente!
...
E cá o santo sol,sobre isto tudo,
Faz conceber as verdes ribanceiras;
Lança as rosáceas belas e fruteiras
Nas searas de trigo palhagudo!
..
Jack,marujo inglês,tu tens razão
Quando,ancorando em portos como os nossos,
As laranjas com cascas e caroços
Comes,com bestial sofreguidão!
...

CESÁRIO VERDE

Em o Livro de Cesário Verde
Assírio & Alvim

DEIXAM VIVER OS MAUS!

Ora,há dez anos,neste chão de lava
E argila e areia e aluviões dispersas,
Entre espécies botânicas diversas,
Forte,a nossa família radiava!

Unicamente,a minha doce irmã,
Como uma ténue e imaculada rosa,
Dava a nota galante e melindrosa
Na trabalheira rústica,aldeã.

E foi num ano pródigo,excelente,
Cuja amargura nada sei que adoce,
Que nós perdemos essa flor precoce,
Que cresceu e morreu rapidamente!

Ai daqueles que nascem neste caos,
E,sendo fracos,sejam generosos!
As doenças assaltam os bondosos
E-custa a crer-deixam viver os maus!

CESÁRIO VERDE

Em O Livro de Cesário Verde
Assírio e Alvim

quarta-feira, 23 de julho de 2008

DEIXOU SAUDADES O DODÓ

Da National Geographic
Do Flickr,by mrdehoot

Do Flickr,by kevinzim


Do Flickr,by Sparks68



Do Flickr,by S.britt




Do Flickr,by polyscene





NASCERA JÁ ASSIM

Há homens que lhes dá para coleccionar damas. Uns,fazem-no pela calada da noite,outros,pela calada do dia,outros ainda,pela calada do dia e da noite. Um certo homem era desta terceira classe,todas as horas lhe serviam.
Vivia numa terra,nem grande,nem pequena,uma terra assim-assim. Tinha todo o tempo para as suas meninas e uns tempos muito curtos para a sua esposa. Esta andava muito triste,o que não era para menos,mas não havia nada a fazer,ele nascera já assim.
Era também um homem de caprichos. Coisa que lhe apetecesse,desde que não fosse a lua ou o sol,ou os seus muitos irmãos ou irmãs,tanto faz,era coisa possuída ou feita. E um dia,há sempre um dia,pensou em instalar a favorita mesmo em frente da legítima. Nessa mesma hora,ficou tudo arrumado. Já se podiam espreitar as duas. A esposa,coitada,à socapa,por detrás das cortinas,a outra,às claras,pavoneando-se.
A ousadia,o capricho,ou lá o que se queira chamar,pode ter tido desenvolvimento,não se sabe. Era homem para isso e muito mais. O ideal seria que as duas casas comunicassem,ficando ele com a chave e a tranca. Ter-se-ia atrevido?

SEM VARIAÇÕES

Ele saltava de um assunto para outro com uma ligeireza sem vergonha,detendo-se,apenas,uns instantes em cada um,por mais fôlego não possuir. Cada um é para o que nasce,não é o que,às vezes,se diz? Parecia,pois,um saltareco,um gafanhoto pequenino,que ora poisa ali,ora poisa acolá. Havia mal algum nisso? Ele supunha que não,pois tinha a certeza de não se transformar em praga,ainda que,uma vez por outra,os saltarecos o façam. Esse jeito já vinha de longe. Irra,que você não se fixa,sempre a mudar de tema. Quem o disse,era muito diferente. Tinha corda para um só,mas mudava também. Você não tem feito outra coisa se não andar de um lado para outro. Com este ,não se calou. É certo,mas onde estivera cumprira a sua obrigação.
Um dia,deu-lhe para se contrariar,e também contrariar outros. Esteve mais de vinte anos a bater,aparentemente, na mesma tecla. Era o que parecia aos de fora. Porque quando se está dentro,as variações que se podem fazer. E ele fez algumas,mas não foram assim entendidas.
De tal maneira,que os comentários nasceram,mas estes,sim,sempre os mesmos,sem variações.

SOL NA EIRA E CHUVA NO NABAL

O que vai por aí. O "crude" tinha trepado porque as previsões apontavam para fortes estragos lá para os lados do México. Afinal,e ainda bem,fora rebate falso. O "crude"logo desceu. O pior é o tempo que não há meio de vir como se quer,sol na eira e chuva no nabal. E assim,ora sobe,ora desce,o milho,o trigo,a soja,e outros que tais. Pior ainda é o preço dos combustíveis que não mais desce para níveis dum passado,parece que perdido. E então,vá de ,nalguns sítios,já se estar a recorrer à lenha,e isto é o diabo. Têm razão os defensores do ambiente em se apoquentarem. Para os ralarem ainda mais,a tecla das centrais nuclerares está a ser, demasiado premida,no seu entender. E o deserto ali à espera que dele se lembrem. O sol de torrar que se vai desperdiçando. Os painéis solares que ali se podiam instalar. Para terminar, só referir a luz verde que se poderá acender para ir em busca de "crude" no Alaska,esse canto,quase sagrado.

A VERMELHO VIVO

Com que então tem estado este tempo todo com fulano tal? E conhece os seus trabalhos? Sim,pelo menos,os mais relevantes. Então, deve conhecer este.
Ele já esperava aquela visita. Tivera,até, tempo de sobra para se preparar. E ali estava o resultado do esforço gasto em tal acção. Na sua frente,tinha um dos trabalhos do fulano. Duas páginas já estavam à vista. E numa delas via-se um traço horizontal a vermelho vivo.
E,apontando-o,disse-Viu aqui este erro?

A ESTRATÉGIA

A moradia ao lado tinha sido assaltada. Não acontecia todos os dias,mas,de vez em quando,muito raramente ,lá calhava a uma. Não era tarefa muito difícil. Até um gato o podia fazer. É que as portas e as janelas eram tantas e tão fáceis de penetrar,ao nível do chão ou à altura de um escadote, que admirava não suceder mais vezes. Depois,aquela rectaguarda tão frágil,onde circulava o carro do carvão. Talvez os candidatos fossem poucos,pois por ali vivia-se,de maneira geral,muito bem.
Um sarilho,um pânico. E agora? E veio a receita,a estratégia,delineada pelo chefe lá da casa. Todos os dias,antes de se deitarem,queria que todos,mas todos,espreitassem bem debaixo das camas,vasculhassem os armários,enfim,passassem todos os recantos a pente fino. E só parassem de o fazer quando ele mandasse. Como os subordinados lhe tinham um grande respeito,seguiram,à risca ,o que ele mandara. Talvez por ver já algum cansaço na sua gente,deu instruções para pararem,até nova ordem,ao fim do oitavo dia,ou melhor,da oitava noite,noite que tinha muita pressa de chegar,mas também,muita pressa de partir,lá para a sua vida.

A DOIS PASSOS

Lá da terra de onde viera,na Índia,dedicava-se à cultura do café. Mas ali,onde, naquela altura,estava,o seu trabalho era muito diferente. Coisas que acontecem,quando se quere subir um alto degrau.
Mas tinha ainda bem presente muita coisa da sua anterior actividade. Não admirava,pois,que,a um certo estímulo,se lembrasse de figura eminente,que,noutro país, dirigia um centro de estudos das doenças do cafeeiro.
Veja lá,aqui,pode dizer-se,a dois passos do sítio onde essa figura que muito considero se encontra,e não poder visitá-la. É que não me deixam lá entrar. E tanto que eu gostava de estar com ele.

PREGUIÇA

A professora de francês queria que os seus alunos trabalhassem,estudassem,não mandriassem. Então,contou-lhes o que é que certo galo cantava e tornava a cantar,teimosamente. C'est moi le coq. Je chante avant le jour. Je fais la guerre à la paresse. C'est moi le coq...

ECLIPSE DO SOL

Era uma anedota que a professora de francês queria que os seus alunos soubessem. Uma menina,talvez morena,com algumas colegas,ia muito apressada para uma visita. A hora marcada já lá ia há muito,mas ela insistia,junto da porta. Montons toujours,parce que le directeur de l'observatoir est mon ami et il fera répéter l'éclipse de le soleil.

terça-feira, 22 de julho de 2008

JEITO HUMILDE

Estava,naquela altura,livre de perigos como os de há centenas de anos,a vetusta abadia. De onde em onde,naquele passado longínquo,lá vinham eles,homens mais do norte,tentar reduzi-la a cinzas. Algumas vezes o conseguiram,que a história assim o relata.
A tarefa não se mostrava nada fácil. Em primeiro lugar,tinham a barrar-lhes a caminhada uma alta e grossa muralha,que ainda lá se encontra,do tempo dos romanos. Atestava esta a irrequietude dessa brava gente.Transposta esta,deparava-se-lhes,a pouca distância,a garganta de um rio.
Admirava que a tivessem erguido tão perto de semelhante inimigo. Só uma grande fé o poderá explicar. Quase à vista dele,voltavam a pôr pedra sobre pedra. Mas seria sol de pouca dura. Nada,porém,os impedia de recomeçar. E lançavam-se,de novo,à empresa,talvez com redobrada determinação,esperando que dessa vez fosse para sempre.
Lá se encontra hoje,apontando,porventura mais tranquilamente,para o céu,não tão magestática como outras suas irmãs,mas em jeito humilde,que também atinge as alturas. Muito perto,estende-se um parque que a liga ao rio. Teria sido por aquele chão que se tinham feito as investidas de variado sucesso. Naquela altura,eram gritos de crianças,nas suas brincadeiras,que se ouviam.

SEM REDE

Pronto,era para se dar uma rendição sem condições. Não restava dúvida de que seria muito difícil encontrar melhor por aquelas bandas. A forma era elegante e fluente, e quanto aos temas,não se sabia o que havia a dizer,pois faltavam os termos. Só se sabia é que ontem tinham sido alhos e hoje bugalhos. Saltava de um assunto para outro com uma ligeireza de espantar. Mas não se pense que aquilo eram umas historiazinhas de trazer por casa ,para contar aos netinhos,até eles adormecerem. Estariam muito enganados. Aquilo era,antes, coisa séria,pesada,sólida,como diria o grande Eça. Parecia um acrobata,mas não um qualquer. Actuava sempre lá muito em cima,junto ao pináculo,sem rede,uma vez sequer. Um circo destes estava garantido. Aquilo eram só enchentes,ficando,ainda,muita gente à porta.

Até onde a corda daria? Mas mesmo que se ficasse por ali,as provas dadas dispensavam confirmações. E ainda que aparecesse alguma a destoar,não ficaria beliscado em nada o valor do conjunto,que era inexcedível. Como é de todos reconhecido, é pela sua globalidade que uma obra deve ser avaliada. E,repete-se,ela era inexcedível. Era esssa a opinião não só dentro,como fora de portas. Uma glória nacional,a todos os títulos.

AO RELENTO

No verão,aquela casa seria um belo poiso para um merecido descanso. De lá,via-se o rio,ali a dois passos,correndo entre choupos e salgueiros,naquela altura nuzinhos. Ouvia-se o fragor da corrente,que o caudal ia abundande,da muita chuva.
Estava um frio de rachar naquela manhã,muito cedo,de dezembro. Uma névoa densa,alimentada pela torrente,colaborava. O carro,que já acusara ,na véspera, algum mal-estar,esquecera-se das suas funções,talvez vingança por o terem deixado ali ao relento,com um tempo assim. Não se fazia uma coisa destas,sobretudo com quem já tinha uma idade avançada. E agora? Empurrá-lo,nem pensar,que ele dormira no fundo de uma ladeira íngreme.
Ali muito perto,mesmo em frente,estava uma vacaria. Chegavam ruídos de vozes e das vaquinhas. Não eram elas que acabariam com aflições de tal natureza. Quando muito,dariam algum alimento para aquecer,que era,alás,bem-vindo. Ter-se-ia de bater a outra porta. Esta abriu-se,mas muito lá para mais tarde. Há que ter paciência,esperando pela disponibilidade de cada um. Chegado o seu tempo,apresentou-se um tractor,que cumpriu a sua obrigação.
Podia ter sido pior. No dia anterior,enquanto se tratava do estômago,uma rôsca moída deixara sair todo o óleo do motor. Mas estava-se com muita sorte,pois não fora em sítio escondido,como ja acontecera noutras ocasiões. Coisas que acontecem a quem anda à chuva.

CARA DE PAU

Era evidente que o patrão não gostava do empregado. Mas não tinha outro remédio se não suportá-lo. Ele já estava naquela casa há muitos anos,desde rapaz,numa altura em que aquilo era do pai. Não tivera coragem de o pôr fora,pois sabia que grande parte da clentela a ele se devia.
Mas donde lhe vinha aquela antipatia? Tinha inveja dele,era o que constava. Sabia lidar com as pessoas,ao contrário do outro,que era um cara de pau. Entretinha-as,parecendo até que perdia demasiado tempo com elas. Mas não. Tinha artes. Conseguia conciliar o serviço com o atendimento.
Conhecia meio mundo,meio mundo que lhe era fiel,que não o tocava por outro,onde quer que estivesse,e locais como aquele era o que não faltava. Ouvia-se,ás vezes,certos reparos do patrão,sempre com modos de poucos amigos,que embirrava com tais intimidades,mas nem o empregado,nem os que ali iam estavam para lhe ligar.
Naturalmente,o empregado era compensado por tanta simpatia. É que ele chegava ao ponto de ajudar na escolha dos pratos. Haveria da sua parte algum interesse. É que a mesada não seria por aí além e o coitado tinha um grande encargo. A mulher era muito doente,sempre a caminho do médico. Isto não lhe alterava,porém, o seu modo de proceder,afinal,a fonte de uma parte dos seus rendimentos.

EM PAZ COM TUDO E COM TODOS

"Ninguém morre de véspera". Pois não. Começamos a morrer muito antes da véspera. Vai-se morrendo aos poucochinhos,enquanto se vai vivendo. Morre-se em si,nas esperanças que se vão,nas desilusões que se colhem,nas negações que se proferem,nas mentiras que se soltam,na verdade que tarda em se alcançar. Morre-se para os outros que nos ignoram,que nos desprezam,que nos esquecem,que nos maltratam,que nos enganam,que nos atraiçoam. Morre-se na tristeza que nos assola,nas lágrimas que se vertem,nos soluços que nos embargam,nos gritos que não lançamos. Morre-se mesmo quando sonhamos.
"Ninguém morre sozinho" É como um chamar de atenção imperioso,com ressonâncias planetárias,talvez cósmicas,universais. É na morte que nos igualamos. É ela um outro ponto de encontro,o último, irremediável. É ali que,finalmente,nos reconhecemos,quando,após tanto tempo,recuzámos até ver-nos,quanto mais abraçar-nos.
O homem,o "cadáver adiado que procria". Assim foi concebido,sem para ali ter-se metido prego ou estopa. Outras coisas pode fazer,tantas que ele ainda não sabe quais ou até onde pode ir. Talvez uma lhe seja imposta,que é o de morrer em paz com tudo e com todos.

TODOS CONCORDARAM

Um avôzinho sonhara que o tinham encarregado de contar uma pequenina história lá na escola onde tinha o netinho. Não podia ser grande porque os meninos tinham mais que fazer. E a pequena história que ele contaria era esta.

Quando vinha para aqui sabem quem eu encontrei? Não sabem. Pois foi o Pai Natal. Conhecem,é um velhinho, muito velho,com grande barba branca,que passa pelas casas dos meninos e das meninas,em horas de eles estarem a dormir nas suas caminhas,para lhes deixar brinquedos.

O Pai Natal fez-me um pedido. Sabia que eu vinha estar convosco e pediu-me que eu conversasse com os meninos e as meninas sobre uma coisa em que Ele andava apensar.É que,no próximo Natal,alguns meninos e algumas meninas iriam receber só um brinquedo,um só. E isto porquê?

O Pai Natal quer,desta vez,dar mais brinquedos aos meninos e às meninas que sempre têm tido apenas um ou dois,ou mesmo nem um sequer,não sabe Ele bem porquê. Coisas que acontecem,vá-se lá saber porquê.

Mas não queria o Pai Natal decidir sem os consultar. E aqui estou eu,em Seu lugar,a querer ouvi-los. Assim,os meninos e as meninas vão-me dizer se concordam ou não. Que dizem a isto? Concordam? É só este ano. Vão receber só um brinquedo para outros meninos e outras meninas terem mais. Quem quer falar?

Ninguém se atrevia a tomar a palavra. Ficaram todos muito tristes e não sabiam o que dizer. Aquilo não estava nada a agradar. Só um brinquedo.

Uma menina muito bonitinha,e,pelo que se iria ouvir,também muito boazinha,arriscou uma pergunta. É só este ano? Palavra de Pai Natal. Se é para os meninos pobrezinhos e as meninas pobrezinhas terem brinquedos que se vejam,está bem. Ficara muito pesarosa em saber que havia meninos e meninas que eram sempre esquecidos. Se tiver de ser em mais outro ano não me importo.

Como gostavam todos muito dela e todos a queriam imitar ,ficou logo ali tudo assente. Todos concordaram. Pelo menos naquela escola, o Pai Natal recebeu o apoio que desejava.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

ROMÃZEIRAS EM FLOR

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Do Flickr,by whiskers whispers

Do Flickr,by ShutterCat7


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Do Flickr,by mrhayata





Do Flickr,by Lazy Kangaroo






Do Flickr,by Kreytyen







Do Flickr,by genericman








Do Flickr,by Galactic Dreams









Do Flickr,by Galactic Dreams










Do Flickr,by floresoleil











PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Coitado dele,estava mesmo velho. Sabia-o por si,dispensava que algum amigo de Peniche o lembrasse.

Não era só o BI a dizê-lo. Um ror de mazelas dava-lhe essa informação. De noite,acordava,pendularmente,ao mando da próstata. Felizmente,não era de insónias,pelo que mergulhava logo no mar dos sonhos. De dia,vá que não vá,mas não podia estar sentado muito tempo em bases fofas. Um formigueiro tomava-lhe as pernas. Calosidades múltiplas emperravam-lhe o andar. Ao nível dos joelhos e dos cotovelos,a pele convertera-se em escamas. Nos cantos da boca,instalavam-se fissuras. Os dentes tinham dito adeus para sempre. Com o frio,doíam-lhe os ouvidos. Se se descuidava,a tensão subia. O cabelo rareava e embranquecia. O estômago tinha de ser tratado como uma criança. Sem óculos,não via as letras. Os olhos inflamavam-se a cada passo.
Com tudo isto,não largava as portas dos médicos,sem ter de se endividar. Era,afinal, um felizardo. Quantos como ele não se viam obrigados a passar de largo,frente a essas portas,carregando ainda mais o fardo dos anos.
Metia conversa com desconhecidos,pedindo desculpa pelo atrevimento. Estava cada vez mais tolerante. O coração aguentava-se,mas tornara-se muito piegas. Viam-se-lhe lágrimas,à vista da mínima desgraça,sobretudo com crianças. Fazia muitas perguntas sem resposta. Porque se permitia tanto desaforo,tanta mentira,tanta hipocrisia,tanto teatro,tanta impunidade? Porque não vinha um raio acabar com os maus? Se ele viesse,era capaz de não escapar.

VERNIZ

Ficaram sós os dois,ele,mais velho,muito dado ao respeito,ela,uma senhora que ele muito respeitava,mas que,de vez em quando,não enjeitava uma brejeirice ligeira. Já não era a primeira vez que assim tinham ficado. E ele sempre muito respeitador.
Naquela manhã,antes de ficarem sós,tiveram a companhia de um casal jovem,ela,uma moça bonita,por sinal,prestes a ser mãe,e ele,de cabeça rapada.
Quando o casal desapareceu,a senhora não resistiu. Que pena,a moça merecia melhor. O cabelo sempre compõe. Mas ele,coitado,para disfarçar,usa a máquina zero. Via-se bem que já tinha voado.
O senhor muito dado ao respeito foi na onda. Não sei se conhece uma frase a propósito. E ela,suspensa. Querem ver,querem ver,que agora é que o verniz vai saltar? Mas muito se enganou. Não saiu o que ela esperava ouvir. É que nunca se vira um burro careca.

CERTOS LIMITES

A realidade biológica é,como muito bem se sabe,muito complexa,com apertadas exigências,sendo muito difícil enquadrá-la em fórmulas matemáticas. Vem isto a propósito do que há muito tempo se teve ocasião de acompanhar. Tratava-se de equações de produção,de diferentes culturas, com,pelo menos,três variáveis,o azoto,o fósforo e o potássio,mas com acento,sobretudo,no azoto e no fósforo.
Os preços destes nutrientes,ou,melhor,dos fertlizantes que os continham, sofriam variações,ás vezes de vulto .Assim,era de pensar,de acordo com essas diferenças,que se podia usar mais do mais barato,em detrimento de outro. Isso era possível,mas dentro de certos limites,porque as funções de cada um são específicas. O fósforo não pode substituir o azoto nas estruturas químicas,nem o azoto consegue substituir o fósforo,como é evidente.
É claro que as pessoas que lidavam com essas equações estavam de tudo isto bem conscientes,pelo que nunca ultrapassaram esses limites.

UMA FRASE E UMA NOTÍCIA

A frase é-" A economia a crescer pouco é mau,mas a crescer mal é pior". Quem estará livre de tais calamidades? Onde é que estes paraísos moram? Teráo as portas abertas,para entrar quem quiser?

A notícia,comprimida e traduzida(talvez muito mal,do que se pede muitas desculpas) é- Certa personalidade australiana mudou de religião. E isto,porque, na que deixou,o dinheiro é a base da estrutura,e não o Amor. Conclui-se que naquela onde agora está sucede o contrário. É de a felicitar,e,até,premiar,porque encontrou o Amor,que andava para aí perdido. O Amor que fazia tanta falta,que, sem ELE,isto não vai lá.

domingo, 20 de julho de 2008

O CORAÇÃO ESTÁ ONDE SE TEM A RIQUEZA

É caso para ficar perplexo para o resto da vida. Olha quem vem ali. Há que tempos se não viam. Pois era para ficar ali um pedaço à conversa,a lembrar velhos tempos. Tanta coisa que houvera em comum.
Mas,no geral, é o ficas. Ele ficava,mas estava com muita pressa,que lá em casa esperavam-no. Viera ali,numa fugida,comprar o jornal,ou a comida para o bichano,que lá para os sítios dele não havia. Quando se fica,vem um aviso prévio,com similares desculpas. E nesses fugidios momentos,o que se ouve,minha Nossa Senhora,como diria o saudoso tio Joaquim,se ainda por cá andasse.
Ouve-se,sobretudo,coisas do ter dele,do malfadado ter dele. O tal ter que inspirou uma sentença bem conhecida,mas que todos procuram esquecer. Ali ao canto,vem de lá um protesto. Eu cá não sou desses. Que o coração está onde se tem a riqueza. Bonita,não é? Linda,como mais nenhuma. Mas adiante.
E é uma enfiada,sobretudo, de variantes do ter. São as obras lá na casa da cidade ou do campo. É aquele pequeno pinhal,à beira da estrada,que felizmente fora incluído no Plano Director e que rendera uma pipa de massa. O mesmo acontecera a meia dúzia de olveiras e de figueiras,que estavam para ali que ninguém lhes pegava. É o filho que é quase director lá da fábrica. Aquilo é que era trepar,tinha a quem sair. É o futebol de que ele gosta muito,não podendo passar sem ele,pois seria a morte. São as rendas lá dos velhos inquilinos,que estão sempre na mesma,ou quase. É o pedaço de terra,um quintalório,que a fábrica quer comprar,mas que não há meio de se chegar ao que ele quer. São os jornaleiros que querem cada vez mais dinheiro,e assim não dá. São os impostos sempre a subir. Agora há para aí uma telenovela,que é de a gente não sair da frente do televisor. Assim,dá gosto.Se não fossem elas,como é que se havia de aguentar isto,não concordas? Que saudades eu tenho dos nossos velhos tempos. Aquilo é que era bom.

IMAGENS RETIRADAS DA"ERA DE AQUÁRIOS"



































































BIBLIOTECA VIRTUAL MIGUEL DE CERVANTES

As leituras que se podem fazer. Para já, as das obras mais procuradas,que estão ali bem à vista. Além das leituras,pode-se,também,ouvir poesia,como a de Rosalia.

NEM O REI

Não é tanto o que dizem,mas mais como o dizem. É o ar que põem,é a voz que engrossa,que se doutoriza,é o peito que salienta. E,depois,às vezes,não vem nada a propósito. É ali metido à força.
Olhe que isto fica só aqui entre nós,como de segredo de estado se tratasse. E levou o dedo aos lábios grossos. Já reparou bem na minha cabeça,na forma dela,na cabeleira que a coroa? Não lhe lembra tudo isto alguém? É isso mesmo,sem tirar nem pôr. É o rei. Pois venho mesmo em linha recta dele,embora não pareça,um Zé Ninguém,que anda para aqui aos baldões. Coisas que acontecem.
Pois é como lhe digo. Aqui enfiado nesta casota,onde mal eu caibo,quem diria que eu tenho lá na terra um casarão de se lhe tirar o chepéu? Só quartos,são mais de vinte. E as salas? Aquilo não são salas,são salões. Querendo,dava lá festas. Nem o rei,que chegou a morar lá perto,tinha um palácio assim.
Coitados do pianista e do violoncelista,duas estrelas muito brilhantes. Mas ali,naquela altura,pareciam dois planetas despromovidos. Quase ninguém lhes ligara. Só a menina da recepção estava ali para os atender. Ele conhecia muito bem essa casa,oh se conhecia. Ainda há dias lá brilhara,mas não com notas.
Estão a ver a categoria deste professor? Que um professor como deve ser deve também sair de uma aula sua a saber mais. Pois era o que lhe acontecia sempre ,quando andava por lá a iluminar o mundo. Não era de esperar,de facto, outra coisa de uma tal sumidade.
Oh mas isso não é nada. O meu filho,ou o meu neto,tanto faz,não é ele que vai a casa do professor de música,mas sim este que vai lá à nossa casa. E não é um professor qualquer,não. É um dos melhores,talvez mesmo o melhor deles todos. Incomodar-se o meu filho,ou o meu neto,tanto faz,era o que faltava.
Olhe que não é bem asssim. Eu também lá estava,e sei o que digo. Foi até por meu intermédio que ele lá se deslocou. Eu é que sei o que ele disse,então não havia de saber? Mas os outros acabaram por não saber o que ele dissera,por esta via contestatária.
O meu filho aceitou o lugar,mas só quando satisfizeram todas as suas exigências. Era pegar ou largar. Com quem eles julgavam que estavam a lidar?
Têm a quem sair todos os meus filhos,mas sobretudo ao avô,que não chegou ao topo,mas bem o merecia. Era um génio. Agora,os filhos deles,os meus netos,não queiram saber. Está-me cá a parecer que o génio do bisavô passou a morar neles.

A RECEITA

O que ele sabia de vinhos. Um livro aberto e um mestre,com letra grande. Não seria o primeiro,mas andaria lá perto. Por via disso,era consultor de meio mundo,meio mundo que não lhe largava a porta.
Algumas das consultas eram feitas pelo telefone. E ouvia-se,uma vez por outra,ele ditar a receita. Não acha que eram gramas a mais? Nem uma,pode crer. Gastam-se todas para vencer o mal. Não fica lá nada.

DUAS FRASES DE OSCAR WILDE

A cada bela impressão que causamos,conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.

Quando eu era jovem,pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje,tenho a certeza.

Frases retiradas de Oscar Wilde-Pensador

MINICONTOS

Na Biblioteca Digital Ciudad Seva. De vários autores,incluindo Kafka,Oscar Wilde,Monterroso,Chesterton.

CONTOS DE FRANZ KAFKA

Na Biblioteca Digital Ciudad Seva. De Kafka e outros mais. Ao todo,3200,de autores clássicos,nascidos antes de 1930,este ano incluído. Desde Esopo até Juan Manuel,desde Boccaccio até aos clássicos do século XX(é assim,em espanhol,claro,que está a informação).

sábado, 19 de julho de 2008

ELA ACREDITOU

Coitada da senhora,fora ludibriada. Recebera uma pequena fortuna,mas ela necessitava de uma maior. É que a permanência no lar em que se encontrava,ou em qualquer outro,não estava segura. Só tendo muito dinheiro,e aquele ainda não chegava.
Mas era simples,dissera-lhe alguém. Aquela quantia a render alto juro faria o milagre. Bastava seguir os seus conselhos. Ficasse descansada. Esse alguém era simpática,dava mostras de ser muito sua amiga,e ela acreditou.
Passou-lhe toda a sua riqueza. Em troca,ficou com um documento,muito bem redigido,com todos os pormenores em casos destes. E esse alguém sumira-se,sem deixar rasto.
A cara da senhora era um misto de tristeza e de comprometimento. Ela sabia que o rendimento prometido era exagerado.Fora,afinal,vítima de si mesmo.
Mas que outra saída teria ela? É que talvez a esperasse um fim muito triste.

O TAL ABRAÇO

Há que tempos viviam de costas voltadas aqueles dois irmãos. E um deles adoecera gravemente,estando por um fio. Era altura,pois, do outro o ir visitar para o abraço da paz.
Centenas de quilómetros os separavam. Estava demasiado velho,mas ainda assim com algumas forças,embora fracas. Mas a vontade remove montanhas. Assim ela exista,e ele estava cheio dela.
Guardara lá para um canto um pequeno tractor,quase tão velho como ele. Não o deitara fora,porque lhe tinha muita amizade. Ajudara-o muito,sempre fielmente,quando ambos eram novos. Ficara para ali,como,alás,outras coisas,de que não se quisera desfazer. Manias de velho. Seria premeditação?
Uma peça daqui,outra dali,mais um certo jeito para reparar velharias,para não entrar em despesas,e deu-se o milagre. O tractor parecia ter ressuscitado. Para a estrada,que não havia tempo a perder,pois o irmão estava para lá,muito doente. Fez as suas despedidas,talvez as últimas.
Felizmente que grande parte do caminho era quase plano,o que facilitou a vida ao tractor. Como era de imaginar,a viagem teve as suas complicações,mas com a ajuda deste e daquele,que a solidariedade não é uma palavra vã,lá foi engulindo milhas sem conta.
Finalmente,cortou a meta,chegando a tempo do tal abraço.

De The Straight Story,de David Lynch.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

VAI HAVER MAIS MILHO

Caiu o preço do milho. A maior descida nos últimos doze anos. Isto,porque,na Argentina,um dos maiores produtores e exportadores,foi rejeitado um projecto relativo a taxas de exportação. Vai haver mais milho no mercado. E, segundo Adam Smith ,o preço desceu. Com Adam ou sem ele,o que interessa é que desçeu,e que desça mais,para que baixe o preço das rações,e assim,baixe o preço do leite e seus derivados,baixe o preço da carne. Também se poderá enviar mais milho para aqueles que não tem dinheiro para o comprar,o que é,também,muito bom. O que muitos desejam é que isto seja para durar. Pois o Adam Smith não perdoa.
É claro que esta queda,em princípio,não tem efeitos imediatos,pois está-se no domínio dos "futures". Há que esperar,em princípio.

NÃO CUSTA NADA

O carro da biblioteca itinerante pára no largo lá da aldeia. Alguns,na maioria,velhos,vêm ver do que se trata. Parecia novidade. Então,o que é que aqui se vende? Nada disso. Aqui está um monte de livros que os senhores podem levar para casa. É só preencher um papelinho. Daqui a um mês,apareço,entregam os livros que leram e,depois,podem levar outros. Como vêem, é simples. E não custa nada.
Coisa boa,sim senhor. Um,muito desconfiado da fartura,quis saber de quem eram os livros,de onde lhe tinha vindo o dinheiro. E lá lhe explicaram.
Olha os espertos,eu cá me queria parecer. Toda a gente sabe que a esta terra ainda não chegou a electricidade. Vale-nos o petróleo. De dia,andamos para aí a trabalhar onde calha,a mandriar pelas esquinas ou pelas tabernas. É só à noite,pois,que nos dá jeito ler,com a ajuda do candeeiro. É isso. O vosso ganho não pode ser outro. Passem,assim,muito bem,que negócios desses não me interessam.

DAR UMA VOLTA

A vida que ia por ali. Parecia aquela terra uma terra abençoada. Ele era hortaliça variada,ele eram nêsperas,ele eram figos,ele eram flores. Água não faltava,que lá por baixo corre uma vala sempre cheia. E não faltava,sobretudo,o hortelão. Mas este disse,um dia,que ia dar uma volta,mas da volta não regressou. E ele era 0 último hortelão que havia por ali. Assim,mais um chão úbere que virou a mato.

PLACAS SOLARES

Um projecto de 20 mil hectares,só,de deserto,na Argélia. Um projecto alemão. Isto é que é projectar em grande. E num país de gás para dar e vender.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

PROTECÇÃO

Ao tempo que se não viam. E ali estava,naquela tarde e naquele jardim cheio de flores e de sombras,o velho sacerdote. Um santo homem. Engordara,talvez demasiado. Andara por aí,por esse vasto mundo,onde estivessem emigrantes. E ali ficaram a recordar velhos tempos. Lembrava-se,daquela vez,lá naquela terra,quando lhe pediram para benzer uma taberna?E o senhor,como sempre,não disse que não. Tão contente que o homem ficou. Dali em diante,ainda venderia mais copos.
Despediram-se. Pôs-lhe a mão na cabeça,como se fizesse a um filho a quem se quer dar protecção. Nunca o fizera.Parecia um gesto transcendente,talvez um último gesto. E foi,de facto,o derradeiro. Aquele coração trabalhara muito.
Fora um encontro para nunca mais esquecer. Um encontro naquele banco rodeado de árvores frondosas e de silêncio,apenas cortado pela conversa dos pássaros. Era capaz de se entender com eles,à semelhança do santo de Assis.

AGRADECEU

Ao tempo que o não via. Era o seu antigo capitão lá da tropa. Naquela altura,já devia ser coronel ou mais. Então,como vai indo o senhor? Vou bem,obrigado. E ali estiveram um bocado à conversa,a recordar velhos tempos. À despedida,que podia ser a última vez que se viam,o antigo capitão agradeceu vivamente. Agradeceu,por o ter reconhecido,mas agradeceu,sobretudo,por lhe ter falado. O jeito que ele tinha para dar formas à madeira. Um primoroso artesão, ou artista,tanto faz.

UM RICO ALVO

Não era ela a pianista que figura num quadro que muitos têm podido ver ao longo dos anos,por estar exposto em lugar público. Mas era notável a sua semelhança.
Lá estava o busto estrangulado,o loiro do cabelo,a saia a tapar os pés,o tronco forte.Faltava o piano,mas não os adornos. Os dedos quase se não viam,os pulsos iam pela mesma,o pescoço não destoava. Predominava o grosso. Pareciam correntes.
Um rico alvo para os amigos do alheio. Ela não dava sinais de preocupação. Seriam falsas as jóias? Ou talvez confiasse na força dos seus músculos. O meliante,coitado,devia sair-se mal do atrevimento,ficando,muito provavelmente,com um braço partido e com a cara amolgada.
Quando se levantou,mais se acentuou a solidez do reduto. Os atavios podiam ser de lei,mas à vista daquele forte,ninguém se atreveria a tomá-lo. Quando muito,passaria de largo,cheio de pena de não a aliviar.
E a pianista? Porque se estrangulara ela tanto? Porque escondera ela os pés e escancarara o busto? Ah estas modas poderosas,dominadoras,quase absolutas. E quem a elas não se submeta,tem de as ouvir.

UM ENCANTO

A família tinha de ser apoiada. Para não a cansar muito,dava-se-lhe casa e uma porção de terreno,à sua medida,nem mais,nem menos,contas bem feitas. Mais não podia ser,pois , assim,era preciso fornecer-lhe máquinas,o que seria um luxo,um esbanjamento. Em alternativa,teria de recorrer a assalariados,mas isso também não. A família quer-se remediada.
Terra abundava,mas também não se podia exagerar. As courelas eram um encanto,de maneirinhas. Semelhavam hortas. Apetecia mesmo registá-las para as exibir. E foi o que se fez.
E,um dia,alguém veio mostrá-las,que aquela beleza não podia permanecer incógnita.Obra feita é para se ver. Lá estavam bois puxando carros cheios a mais não poder e outros quadros do mesmo quilate. O enviado manifestava vivamente o seu regozijo. Aquilo também a ele se devia,pois participara na sua concepção.

LÍRIO EM PÂNTANO

Não era para acreditar. Mesmo ali,quase em frente do templo,que chegara lá muito antes,abrira porta uma casa de pouca vergonha. Era aquilo uma afronta,uma provocação,um atrevimento,um escândalo. Dia e noite,domingos e feriados.
As coisas não podiam ficar assim. Tinha de haver respeito. E logo uma comissão vai ter com quem de direito,que ouve e aconselha.
Tenham paciência,que é disposição que não vos deve faltar. É melhor não fazerem ondas,já os aviso,é melhor deixarem estar as coisas como estão. É que há grandes interesses em jogo e não se sabe do que é que são capazes.
A comissão tomou boa nota e temeu. Pensando mais,chegaram,até,a alegrar-se. O templo era como lírio em pântano. E podia acontecer,quem sabe?,que o lírio levasse ao arrependimento,a mudança de vida. Bastava que a um sucedesse.

FACA E QUEIJO NA MÃO

Ele não havia meio de subir um degrau. Do primeiro,o da entrada,não passava,ainda que os anos passassem. Estás aí muito bem,tomaram muitos,nestes difíceis tempos,pensaria alguém. Ainda devias estar agradecido.Não estaria,pois,sozinho,o que era verdade. Outros o acompanhavam. Mas isto não os consolava,nem a ele,nem aos outros,claro está.
E assim,já cansados de marcarem passo,alguns pensaram em assaltar o reduto. À primeira vista,parecia-lhes empresa fácil. É que estavam bem apetrechados,com armas sofisticadas. Um adiantou-se e teve sucesso,como era de esperar. Isto animou os outros,que decidiram fazer o mesmo em próxima ocasião.
Mas um,ainda o castelão admitiu,agora,mais,só por cima do seu cadáver. Estava numa situação privilegiada o castelão. É que tinha a faca e o queijo na mão.
Se ele tentasse,o tal que não havia meio de subir um degrau,e conseguisse lá entrar,abria-lhe logo uma porta da sua conveniência e de mais ninguém. Não soube ele isto por portas travessas,foi o próprio castelão que,secamente,o informou.
E,assim,teve ele de se resignar,na esperança de melhores dias,receita muito conhecida.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

PREÇOS DISTO E DAQUILO

Ah este Bloomberg.com Commodity Futures,sempre em cima da hora,a dar as últimas sobre preços disto e daquilo. Neste momento, o sublinhado vai para o "crude", que está firme, o ouro ,que sobe na Ásia,porque o dólar pode descer,acelerando a inflacção,a soja,que sobe,com as preocupações de que tempo quente e seco podem reduzir a produção no Midwest.

TRAÇOS DE CRIANÇA

Era uma sala de espera,que se foi enchendo. Ele foi dos primeiros a chegar. Mal se sentou,abriu uma mala atafulhada de papéis,tirou de lá o pequeno-almoço e armou ali mesa. Estava muito atrasado,pois a manhã já ia a meio. Marchou,primeiro,uma carcaça e companhia,que não deixou de mirar,enquanto mastigava,deliciado. Seguiu-se um pacote de leite,que esgotou até à última gota,espremendo-o.
A sua cara,de homem,aí de uns quarenta,mostrava,ainda,traços da criança que fora. Andava na distribuição de propaganda de um instituto de línguas. Eram cursos de inglês,de francês,de italiano e de alemão. O alemão devia ser o mais fácil,no seu entender. Quanto ao francês e ao espanhol,esses é que eram puxados. Mas havia lá bons professores.
Naquela manhã,começara tarde,pois tivera de ir pagar a água e a luz,visto ser o último dia. Mas contava dar conta do recado. Tratou,primeiro,daquela sala,que entretanto ficara bem composta. A mala ficou um pouco mais leve. Depois,tapando a calva reluzente com um boné de pano branco,lá a foi esvaziar.
Enquanto esteve matando a fome,os seus olhos mostraram alguma inquietação.Estaria com receio de que o apanhassem ali sem estar a trabalhar.

IRREQUIETO

Os seus olhos visavam muito lá por cima,parecendo não dar conta do que à sua volta se passava. Mas dava,só que não queria que se soubesse. Tratava-se de um ardil,de uma manha,para apanhar alguns desprevenidos.
Anos tinham corrido,não muitos,mas para ele uma eternidade,e a sua figura quase se não vira,e a sua voz quase se não escutara. Pois não tardaria que tal radicalmente se alterasse,para bem da humanidade.
Para começar,inscrevera-se. E quando alguém como ele fazia este muito sério gesto,não era para ver a caravana passar. Era,antes,para se pôr bem à frente dela. Seria o que ele estava arquitectando?
O que havia a fazer era esperar e ver o que dali iria sair. E seria rápido. Porque ele,quando tomava uma decisão,era para logo agir,sem perda de um segundo sequer. Hesitações,é para os fracos,os timoratos,e com esses não se importa a história,onde ele queria,merecia,estar na linha da frente.
Que ele era superior,não restava qualquer dúvida,pois já o tinha mostrado em vários palcos. Mas havia indicações de que era,também,muito irrequieto. E assim,podia acontecer surpresa.

FELIZ PERSPECTIVA

Volta não volta,lá vinham eles com um desabafo de quem muito possuía e gostava de o mostrar. Mas não eram ricos,coitados. A sua maior riqueza,tirando a saúde,claro,de que não se podiam queixar,estava no recheio lá da casa. E assim,não se cansavam de o inventariar,valorizando-o devidamente. Porque algumas peças lhes pareciam de estilo,vá de as encarecer.
Eram milhares,tudo reunido. Não queriam acreditar,mas era verdade,confessavam,deliciados,como se estivessem comendo coisa gostosa. Compraziam-se em acrescentar pormenores,descrevendo as qualidades dos tarecos,exaltando-as.
Estava-se em tempo de forte inflacção,o que os obrigava a permanentes acertos. Exultavam com isso. Sem contrapartidas,viam a sua riqueza a crescer aceleradamente. Não pensavam noutra coisa,assim se pode dizer. As caras espelhavam a alegria que lhes ia nos interiores. Engordavam,nesta feliz perspectiva.

UMAS VOLTINHAS

Um desastre não estava no programa,mas,às vezes,as coisas acontecem. Bastava um pequeno declive,uma pedrinha fora do lugar,uma ligeira saliência,e a caranguejola deixaria de cumprir a sua missão,sobretudo se a carga estivesse mal distribuída. E foi o que aconteceu.
Que ideia a de alugarem a carripana,altas horas da noite,para darem umas voltinhas. Ainda se fossem duas jovens,vá que não vá,mas não. Tratava-se,muito ao contrário,de uma senhora que teria mais de oitenta anos,e de uma outra que andaria pelos sessenta. Isto chegaria para causar apreensões.
Mas o mais grave residia na disparidade dos pesos. A velhota lembrava uma peninha,enquanto a companheira ultrapassaria bem os cem quilos. Sentadas lado a lado,o desastre ocorreria,mais tarde,ou mais cedo,como era de prever. Mas talvez se tivesse evitado se a velha senhora fosse ao colo.
Felizmente que não passou isto de um grande susto. A mais nova deve ter servido de almofada. Foi capaz de ter havido repetição,pois que,uma vez recompostas,lá continuaram nas voltinhas.
Afinal ,estavam copiando,à sua maneira,um outro atrevimento,também cheio de perigos,de que o local onde se encontravam era uma feliz lembrança.

terça-feira, 15 de julho de 2008

TALVEZ NADA

Um muito pouco à semelhança de António Gedeão,ele,mesmo,foi analisar. O quê? Simplesmente,dois simples líquidos. Um,extraído a muito alta temperatura,o outro,ao contrário,a muito baixa. E fez isto muito depressa,muito ansioso. Havia qualquer coisa nos ares,que não lhe estava nada a agradar. Não sabia o que era. Era qualquer coisa.
E o que é que ele viu? Uma diferença muito grande. O da alta tinha muito mais cálcio. Era o que ele já andava temendo. E confirmara-se. Ora isto queria significar qualquer coisa,mas ele não sabia o que era. Talvez pedra,talvez rocha,talvez pó,talvez nada.

UMA LEMBRANÇA

Quase tudo se vai transformando,não havendo volta a dar-lhe. É o progresso,ou lá o que lhe queiram chamar. E quem não estiver bem,mude-se. E quem não gostar,tem de passar a gostar,sob pena de lhe chamarem nomes feios.
O certo,no caso presente,é que um quintal,ali mesmo à vista de linha nobre de comboios,onde havia meia dúzia de figueiras,que davam figos de comer e chorar por mais,se foi para sempre. Andarão por lá ainda os aromas daquela novidade,tal a fartura. Enchiam-se cestos,não só dos lampos,os mais cobiçados,mas também dos vindimos. Fartavam-se deles a família do feitor,a vizinhança e ainda dava para os levar a certo mercado,onde eram disputados.
O transporte era quase do tipo porta à porta,por o eléctrico disso se encarregar. Chegavam ainda frescos,pois a colheita era feita de madrugada.
Pois tudo isto é só uma lembrança. O quintal foi promovido. Está lá agora uma floresta de cimento. O mercado deixou de o ser,convertido que foi numa praça. O eléctrico deve andar por aí,algures,repartido,ou então,dormirá num museu.

UMA TENTAÇÃO

Era um minúsculo baldio a prazo. Água era quanta se quisesse,de graça. O sol também não apresentaria conta. Seria uma falta imperdoável se esta riqueza não fosse aproveitada como devia ser.
E assim,lá nasceu mais uma horta e lá viveu enquanto deixaram,enquanto outros valores mais altos não se impuseram. Seria a horta pouco mais de uma dezena de pés de uma cultura estranha,para o sítio. As folhas eram gigantes,em forma de coração. O criador dela mal se via entre aqueles biombos.
Além de lhe matar algumas saudades lá da terra de onde viera,encontrava ali importante ajuda para viver. E quem atendesse aos elogios que ele tecia sobre as muitas qualidades do fruto daquela horta,não quereria outra coisa.
Passaria ali horas e até lá pernoitaria,que aquilo era uma tentação. Não se sabe,aproveitando um descuido,se a horta foi invadida. O que se sabe é que ela já lá não mora. É que outros valores acabaram por,de facto,se impor.

PORTA ONDE BATER

O homem andava de lá para cá, ao longo do passeio,lastimando-se lá consigo. Tinha ali,na clínica,a mulher,à espera de ser atendida. Já lá tinham ido vezes sem conta,que a doença era teimosa,talvez sem cura. O horror de dinheiro que ele já gastara e o mais que teria ainda de arranjar. Onde é que o iria desencantar?
De tão ralado,nem sente o toque que lhe dão no ombro. Foi preciso repetir. Olha quem é. E pareceu-lhe que o outro também estava muito preocupado. Ali perto havia u m hospital. Está doente ou tem lá alguém da família? Não,nada disso,o meu mal não é desses.
Ando aí metido num negócio que me pode render muito dinheiro. E disse a quantia. Eram,realmente,milhares,muitos milhares. Bati já nalgumas portas,mas em vão. Pode imaginar como me sinto. Um suplício. Acredito. Outro aproveitará. Mas ainda guardo esperança. Restam duas ou três portas . Pois desejo que uma delas se lhe abra.
E ele ali ficou,sem ter a esperança do outro. Não tinha porta onde bater.

DE SOL A SOL

Era um espaço minúsculo,atravancado de fazendas e de fatos em diferentes estados de acabamento. Quase não cabia uma mosca. Mas dava jeito,pois o mestre era rápido a tirar as medidas e fazia apenas uma prova. Fornecia também lojas.
Devia tere um exercito a trabalhar para ele,no sossego das suas casas. E quase não descansava. Só aos domingos,e mesmo assim era muito bem capaz de os gastar com uns biscates.
Estava no seu posto de sol a sol. Dizia ele que era por mor da velhice. Queria ter uma reforma que se visse. Mas se calhar não teve tempo para a gozar,pois era daqueles talhados para morrer no seu banco.Um moiro,dos das primeiras arrancadas.
Às vezes,andava muito preocupado,com medo do fisco. Querem-nos levar ainda mais?Tinham prometido que não carregavam nos impostos. Já um homem não podia amealhar,desabafava. Talvez por isso,por mor de uma velhice descansada,era vê-lo a correr para o banco,a depositar o cheque recebido segundos antes.