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quinta-feira, 17 de julho de 2008
AGRADECEU
Ao tempo que o não via. Era o seu antigo capitão lá da tropa. Naquela altura,já devia ser coronel ou mais. Então,como vai indo o senhor? Vou bem,obrigado. E ali estiveram um bocado à conversa,a recordar velhos tempos. À despedida,que podia ser a última vez que se viam,o antigo capitão agradeceu vivamente. Agradeceu,por o ter reconhecido,mas agradeceu,sobretudo,por lhe ter falado. O jeito que ele tinha para dar formas à madeira. Um primoroso artesão, ou artista,tanto faz.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
RONDA
O que é que se havia de fazer,se ele nascera já assim,um pacífico e também um fraquinho da tripa,e sabe-se lá mais de quê? Não deram com as mazelas,lá na inspecção,e o resultado foi ele ter de ir marcar passo. Mas o que eles teriam feito de melhor era tê-lo dado como incapaz.
E assim,lá no marcar passo,foi uma sucessão interminável de desastres. Dos primeiros,foi a ronda. Sabia lá ele bem o que isso era. Começara pela cavalariça. Um candieiro a petróleo dava uma luminosidade frouxa. Um pobre diabo dormitava,sentado num cesto de verga,um daqueles da vindima,virado . Acorda em sobressalto,ao ouvir o ranger das botas no empedrado . Levanta-se,ainda meio a dormir,e pôe-se,desajeitadamente,em sentido. Oiça lá,você gosta de dormir assim? Então,não era melhor estar ali deitado como os outros? Eram mais dois ou três,a ressonar. O rapaz mantinha-se mudo,certamente muito espantado,pelo que estava a ouvir. Bem,veja lá se tem juízo. Olhe que fica marreco.
Tinha muito ainda que andar. Três patamares,várias camaratas. As sentinelas no seu posto,bem alerta,pelo menos à passagem das botas,que faziam um barulho dos diabos,sobre as pedras e o saibro.
No outro dia,toda a minha gente sabia do sucedido.Mandara-se deitar um plantão à cavalariça. Foi um pratinho bem confeccionado. Uma
risota pegada. O comandante,boa pessoa,compreensivo,considerou o caso na perspectiva geral e gozou também.
E assim,lá no marcar passo,foi uma sucessão interminável de desastres. Dos primeiros,foi a ronda. Sabia lá ele bem o que isso era. Começara pela cavalariça. Um candieiro a petróleo dava uma luminosidade frouxa. Um pobre diabo dormitava,sentado num cesto de verga,um daqueles da vindima,virado . Acorda em sobressalto,ao ouvir o ranger das botas no empedrado . Levanta-se,ainda meio a dormir,e pôe-se,desajeitadamente,em sentido. Oiça lá,você gosta de dormir assim? Então,não era melhor estar ali deitado como os outros? Eram mais dois ou três,a ressonar. O rapaz mantinha-se mudo,certamente muito espantado,pelo que estava a ouvir. Bem,veja lá se tem juízo. Olhe que fica marreco.
Tinha muito ainda que andar. Três patamares,várias camaratas. As sentinelas no seu posto,bem alerta,pelo menos à passagem das botas,que faziam um barulho dos diabos,sobre as pedras e o saibro.
No outro dia,toda a minha gente sabia do sucedido.Mandara-se deitar um plantão à cavalariça. Foi um pratinho bem confeccionado. Uma
risota pegada. O comandante,boa pessoa,compreensivo,considerou o caso na perspectiva geral e gozou também.
terça-feira, 27 de maio de 2008
O CÚMPLICE
Era barbeiro de profissão,mas,naquela altura, andava ali a marcar passo . Tivera de ser.Morava perto. Já casado,pedia dispensa nos fins de semana. Ia,de bicicleta, ver a mulher e ganhar uns preciosos patacos,recorrendo à sua arte. Baixote,humilde,era gozado por alguns colegas,sobretudo,por uns espertinhos da cidade,muito sabidos.
Num dia da semana,havia uma aula de educação moral e cívica. E era aí que ele tinha o seu dia de vingança,pois arranjara um amigo no instrutor. As aulas terminavam com um interrogatório,para ajuizar do aproveitamento da cada um. E está-se mesmo a ver o que é que acontecia. Aos espertalhões,aos abusadores, eram postas as questões mais complicadas. Eles,que se davam ares de grandes senhores,entupiam de todo. Ficavam envergonhados,comportando-se como meninos apanhados em falta. O barbeiro respondia sem hesitações,beneficiando da generosidade do cúmplice.
Num dia da semana,havia uma aula de educação moral e cívica. E era aí que ele tinha o seu dia de vingança,pois arranjara um amigo no instrutor. As aulas terminavam com um interrogatório,para ajuizar do aproveitamento da cada um. E está-se mesmo a ver o que é que acontecia. Aos espertalhões,aos abusadores, eram postas as questões mais complicadas. Eles,que se davam ares de grandes senhores,entupiam de todo. Ficavam envergonhados,comportando-se como meninos apanhados em falta. O barbeiro respondia sem hesitações,beneficiando da generosidade do cúmplice.
terça-feira, 20 de maio de 2008
TUDO DO AVESSO
Aquilo foi uma medonha carnificina. Esacaparam apenas alguns,uma meia duzia,se tanto,a ter em conta o exército inicial. Mas foi uma acção bélica que levou a grande gasto de esforços e de material.
É que os inimigos,além de numerosos,estavam todos muito bem entrincheirados. Tudo lhes servia,colchões de palha antiga,travesseiros de semelhante enchimento,camas de ferro,recantos vários,que a quadra era vasta. Teve de se virar tudo do avesso.
Foram horas de polvilhação,que puseram o ar quase irrespirável. Alguns pensaram,até,que ninguém sairia dali vivo. Depois,esgotados,atreveram-se uns poucos a deitarem-se. A maioria,não esquecendo a tal meia dúzia ainda alerta, para fazer das suas,não teve essa coragem. Sentaram-se,apenas,de olhos bem abertos,prontos para o ataque.
Houve uns outros,talvez três ou quatro,que não participaram na refrega. Nem entraram no teatro de operações,permanecendo lá fora,ao relento. Aquilo de percevejos,só de longe,muito longe. E assim se mantiveram. Foram mandados para casa,logo no dia seguinte.
Estavam muito doentes,coitadinhos. Precisavam de caldos de galinha e ali só tinham massa com feijão. De resto,gente que fugia de percevejos,não servia para defender a pátria.
É que os inimigos,além de numerosos,estavam todos muito bem entrincheirados. Tudo lhes servia,colchões de palha antiga,travesseiros de semelhante enchimento,camas de ferro,recantos vários,que a quadra era vasta. Teve de se virar tudo do avesso.
Foram horas de polvilhação,que puseram o ar quase irrespirável. Alguns pensaram,até,que ninguém sairia dali vivo. Depois,esgotados,atreveram-se uns poucos a deitarem-se. A maioria,não esquecendo a tal meia dúzia ainda alerta, para fazer das suas,não teve essa coragem. Sentaram-se,apenas,de olhos bem abertos,prontos para o ataque.
Houve uns outros,talvez três ou quatro,que não participaram na refrega. Nem entraram no teatro de operações,permanecendo lá fora,ao relento. Aquilo de percevejos,só de longe,muito longe. E assim se mantiveram. Foram mandados para casa,logo no dia seguinte.
Estavam muito doentes,coitadinhos. Precisavam de caldos de galinha e ali só tinham massa com feijão. De resto,gente que fugia de percevejos,não servia para defender a pátria.
LAVATÓRIO NUNCA VISTO
Aquilo foi um salto quase mortal. Mas porque se tratava de moços já muito calejados por outras lides,não houve mortos a registar.
Depois de uma noite bem passada,entre lençóis de pano cru,um lavatório por eles nunca visto esperava-os. A surpresa foi grande,mas bem depressa se recompuseram.
Tratava-se de um vasto tanque rectangular,que em tempos servira para dessedentar quadrúpedes. Três bicas,de volumoso caudal,encarregavam-se do serviço.
Deixando de haver tal clientela,aquelas bicas e aquele vasto tanque não podiam ficar para ali sem préstimo. E ali estavam,agora,aqueles moços fazendo bicha ordeira,esperando pela sua vez,não para matar a sede,mas ,simplesmente,para lhes espantar algum resto de sono. Seria,de facto, difícil arranjar melhor método. De fria que a água brotava,era capaz de ressuscitar uma legião de mortos.
Depois de uma noite bem passada,entre lençóis de pano cru,um lavatório por eles nunca visto esperava-os. A surpresa foi grande,mas bem depressa se recompuseram.
Tratava-se de um vasto tanque rectangular,que em tempos servira para dessedentar quadrúpedes. Três bicas,de volumoso caudal,encarregavam-se do serviço.
Deixando de haver tal clientela,aquelas bicas e aquele vasto tanque não podiam ficar para ali sem préstimo. E ali estavam,agora,aqueles moços fazendo bicha ordeira,esperando pela sua vez,não para matar a sede,mas ,simplesmente,para lhes espantar algum resto de sono. Seria,de facto, difícil arranjar melhor método. De fria que a água brotava,era capaz de ressuscitar uma legião de mortos.
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