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sábado, 5 de dezembro de 2009

O ÓBVIO

Era o primeiro dia de ir receber a mesada a dobrar,uma fortuna. Teriam sonhado com ela e com o dia. Não seria,pois,de admirar que a quadra estivesse cheia. Quem deu mostras de não ter pensado nisso foi o cofre. E aconteceu o óbvio. Têm de vir cá segunda-feira,que hoje já não há mais,e hoje é sexta. As vezes que o disseram. Muito forte,ou insensível,deveria ser o coração de quem dizia não há mais,tenham paciência. Mas segunda,quando? Logo ao abrir da porta? Não garantimos. Talvez às dez,ou às onze,depende. E lá iam,resignados,que mais haviam de fazer?,para virem muito cedo,talvez antes da abertura,para serem os primeiros,não fosse o cofre,novamente,esvaziar-se. O dinheiro estava certo,é certo,mas enquanto não o tivessem na mão não descansariam,que o seguro morreu de velho. E tudo isto com gente a ver e a ouvir,não de uma maneira virtual,mas real. Quanto sofre um pobre.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A DÍVIDA

Passava a maior parte do tempo de que ainda dispunha a descansar. Era o que o velho e achacado corpo lhe pedia,talvez para não estranhar depois o que tinha como certo,o descanso definitivo.
E fora assim,deitado,que ele lá estava no banco do jardim,à espera de que se abrisse a porta da sopinha,ali mesmo em frente. Dessa vez,levantou-se logo,compondo-se o melhor que pôde,para receber a visita. Sonharia com ela.
Não se sabe se seriam de encantar os sonhos. Por um lado,talvez gostasse delas,por as mãos não virem vazias. O pior era a dívida que ia crescendo,e ele,coitado,não tinha como a anular.
Não era ele o primeiro,nem seria o último,está mais que visto,a ter por companhia teimosa o espectro da dívida,a lembrar-lhe para sempre de que precisara,de que estendera,ou não,a mão,o que ia dar ao mesmo. E isso,certamente,o magoaria,a ponto,talvez,de exceder o gosto da dádiva.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

VIDAS

Fora encontrá-lo no local que ele costumava frequentar,um minúsculo jardim,
em sítio de lá passa um. Mas, daquela vez,estava a dormir profundamente em cima de um banco estreito. Ainda pensara em acordá-lo,mas bem depressa desistiu da ideia.
A dormir é que ele estava bem. Era como já não vivesse,que era o mesmo que dizer que estaria tudo arrumado para ele. Seria isso a melhor solução,já que a vida não lhe correra de feição,nem viria a correr,que ele já estaria muito perto da meta.
Depois,podia acontecer que ele estivesse a ter lindos sonhos,o que seria uma compensação,de não deixar perder. O que muito admirava era ele não ter já caído,que o colchão era de uma tábua,onde ele mal cabia. Seria do treino de muitos anos,ou de não se sabia mais o quê. Vidas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

UMA SOPINHA

Estavam ali umas boas sombras,e ele sentara-se num dos bancos,ocupando-o quase todo. Teria mais de setenta,e o ar era de muito cansaço. A bengala a que se apoiava estava no chão.
Então, ainda andas por cá?,e mais não disse,que estaria com pressa. Que rico amigo você tem. Sim,conheço-o daí. Não é daqui,pois não? Não,vim de longe,mas abalei de lá há quase trinta anos.
Tirou o boné,e alisou o cabelo. Estaria a compor-se,que se estava a aproximar a hora de ir comer uma sopinha,uma sopinha dos pobres.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

CONTAS À VIDA

Ele lá continuaria a receber a magra pensão,e a fazer mais uns biscates para chegar ao que precisava. E,pelos vistos,chegar-lhe-ia,pois andava bem arranjadinho, com energias bastantes para cirandar por aquelas ruas. Até lhe dariam para alguns cigarritos,a não ser que os apanhasse do chão,como confessara uma vez,ainda que ele não fosse muito de fiar. É que, para ele ter escapado até ali,devia ter artes,ou seria isso quase um milagre,a atentar no quase nada a que se amparava.
Era um velhote parco de carnes,de barriga muito encolhida,com as calças prestes a cairem-lhe. Frio é que ele raramente teria,pois só lá de vez em quando é que reforçava a camisa. Da cabeça é que ele cuidava muito,cobrindo-a sempre com um chapéu tão velho como ele.Por vezes,era apanhado a falar consigo,talvez deitando contas à vida,e com pombos,que o conheceriam muito bem,por frequentarem os mesmos lugares,nas vizinhanças do mercado.
Estaria já conformado,pois quando mal,nunca pior,ou ,então,nascera já assim,acomodatício. Era prova disso o mostrar sempre boa disposição. Além das conversas com os pombos,com quem se dava muito bem,gostava,também,de observar a paisagem,sentando-se no degrau mais a jeito,ali mesmo sobre o espectáculo.Era capaz de não perder pitada.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

PORTA DE VIDRO

Era o que se imaginara. Aquelas salas não estavam completamente sem serventia,como alguém que por lá passasse poderia supor,tal o abandono a que tinham sido votadas,logo à nascença. Tinham sido destinadas a altos voos,mas há os imprevistos,ou lá o que é,e para ali ficaram.
Ele viera lá do fundo do parque,àquela hora quase só,atravessara-o,como que absorto,e a essas salas despidas,um tanto vandalizadas,se dirigiu. Subiu umas escadas e entrou nos seus aposentos,empurrando a porta de vidro,ainda intacta. Por lá se demorou uns istantes. Saído de lá,regressou pelo mesmo caminho,como que absorto,sumindo-se ao fundo do parque.O que teria ido lá fazer ao seu palácio?