segunda-feira, 1 de setembro de 2008

CATÁSTROFE

Pôde ler-se,há uns tempos,que o último francês se finaria em 2017,o último italiano em 2180 e o último inglês em 2780. Os ingleses "resistiriam",assim,mais. Para alguns,esses números mostravam,à evidência,quanto rotundamente Malthus se enganara.
Acontece que em muitos outros cantos da Terra o panorama é bem diferente. Aquilo são cada vez mais milhões. Nesses cantos não sucederá tão depressa a catástrofe que se vaticina para a velha Europa,o serem "os europeus uma espécie em vias de extinção".
E ainda bem,que a raça,assim,não acabará tão depressa. Mais do que isso,a Europa,e em particular,a França,poderá ficar tranquila,que gente não faltará para a povoar,tal,como,afinal, sucedeu no vasto passado ,a atentar nas sucessivas invasões a que esteve sujeita ao longo de milénios. E ela lá sobreviveu,aliás, sempre com grande brilhantismo.

POR GESTOS

O lugar vagara,um lugar de chefia,pelo que era preciso arranjar um outro timoneiro. Não demorou muito a encontrá-lo. Ele aceitou como quem aceita uma rosa,sem ligar aos espinhos. Não seria a melhor escolha,mas ele havia de se desembaraçar. Era homem para isso e muito mais.
Lá conduziu o barco,sem meter muita água. O tempo também colaborou,quase sempre muito bonançoso. Teve sorte em não aparecerem tempestades. Mas se acaso tivessem vindo,era capaz de se livrar delas,como já tinha mostrado noutras circunstâncias.
Mas foi um caso de muito pensar. É que para aquele lugar,era preciso saber chinês,e ele nem uma palavrinha sabia. E um dia,alguém,malevolamente,fez-lhe notar essa fundamental peça. Mas ele não se atrapalhou. É que ele sabia comunicar por gestos.

A SUA MÃO

Naquela manhã, o Armando não pudera vir trabalhar. Coubera pela segunda vez ao trepeiro. Desta vez,o local a examinar ficava próximo da sua casa. Quando se passou por ela,pediu para ir chamar a mulher. É que tinha feito questão em apresentá-la. Ela veio,um tanto envergonhada. Não se contou o tempo,mas o aperto de mão,muito badalado,demorou o tempo que ela entendeu gastar naquele gesto. Foi ela que recolheu a sua mão.

CÉU TORMENTOSO

















Da National Geographic




APENAS PRESSENTIA

Naquelas manhãs de domingo,os fantasmas não ficariam nas suas caminhas. Tudo convidava,de facto,para eles andarem por ali,por todo o sítio,pelas ruas,pelos parques,pelos ares.
A neblina cerrada. A algidez que tolhia as gentes. O silêncio quase tumular das ruas,a lembrar ter sido a terra abandonada por catástrofe eminente. O fumegar permanente das chaminés,em linhas contínuas,como em parada. O badalar dos sinos,de quando em quando,a chamar,a apelar.
Apsar dessa presença,era agradável fazer como eles,acompanhá-los até. Porque não? Se eles,coitados,não faziam mal a ninguém. Todos fossem como eles.
De vez em quando,lá surgia alguém da névoa,para bem depressa se enfiar nela,qual fantasma que se não via,apenas pressentia. As árvores dos parques pingavam. Ao longe,pareciam também fantasmas de muitos braços. Mas eles não estariam lá,que era tempo de andarem por outras paragens,que os fantasmas também gostam de variar.

PASSAVA POR LÁ

Fora por aquela estação que ele ali chegara,lá para o cabo do mundo,muito longe dos seus. Atraía-o aquela estação. Era por ela que um dia,muito lá para diante,havia de regressar. E assim,volta não volta,sempre que podia,passava por lá.
E punha-se perto das plataformas,a olhar para aquelas estradas de ferro,para aquele emaranhado de linhas,a ver os comboios que chegavam,os comboios que partiam,as pessoas que embarcavam. E via-se uma delas,das que partiam. E chegava a invejar os que partiam. Queria ser um deles,mas não podia ser ainda,tinha de ter paciência. A culpa era dele. Do que se havia de ter lembrado? Ter posto pernas ao caminho,lá para o cabo do mundo.
Nos intervalos,na falta de comboios,a chegarem ou abalarem,percorria a grande estação,entrava aqui ,entrava ali,sentava-se,a ver,a ler os anúncios,as reduções das tarifas,nos fins de semana,que fora deles,eram um bocado puxadas. Os velhos,assim,já se atreviam a ir dar umas passeatas. Ele não se atrevia,pois tinha mais que fazer. Já perdia muito tempo naquelas visitas,que nada adiantavam. Passeava,assim, em sonhos,sempre era viajar.

A MESADA

Recordava-a com saudade,mas também com gratidão. A sua acção fora determinante no arranque da sua vida profissional. A energia que ia ali naquele corpo baixinho,naquela cabeça de cara muito rosadinha. Só quem com ela convivesse é que dava conta do que ela era capaz.
Era a tradutora oficial lá da casa,mas não ganhava como tal. Coisas que acontecem quando os quadros são rígidos. E assim,fora contratada como auxiliar de laboratório.
Não era ela,pois,que lá mandava,mas tinha uma grande influência nos que mandavam. A sua vitalidade,a sua palvra fácil,desatada e rica,os seus muitos conhecimentos,de línguas,e não só,a sua cultura,haviam de lhe servir para alguma coisa.
Ele tinha sido admitido como tarefeiro. E chegara a altura de lhe fixarem a mesada. Estavam presentes ele,ela e o chefe. E o chefe lançara para a mesa uma quantia muito modesta. Ela não se contivera. Oh senhor chefe,isso nem dá para o moço mandar cantar um cego. Então,o que propõe?E ela lá disse o que lhe pareceu razoável. E o chefe aceitou e o moço ficou todo satisfeito.