domingo, 31 de janeiro de 2010

BARTOLOMEU CID DOS SANTOS - CENTRO DE ARTE MANUEL DE BRITO

http://www.cm-oeiras.pt/noticias/Paginas/BartolomeudosSantose.aspx

O DIABO TECE-AS

A mulher morrera-lhe já há uns anos,mas ele nunca dera mostras de se ter conformado. A cada passo,carpia copiosamente junto de amigos e de conhecidos de qualquer data. Só esperaria que a morte também o levasse.Mas nunca se diga que desta água não beberei. E assim,sem aviso prévio,dá segundo nó. Desta vez é que era para o resto dos seus dias. A senhora tinha casa posta,pelo que se desfez daquela onde vivera largos anos com a muito chorada defunta. Desfez-se também dos tarecos,que seriam supérfluos e,talvez,lembrassem a outra,o que não era conveniente.O diabo tece-as,porém,frequentemente. E decorridos escassos meses,o segundo nó desatou-se,não porque ela se tivesse finado,mas simplesmente porque assim decidiram.E agora? Casa como a primeira,de renda antiga,onde é que ele a iria arranjar? Não teve remédio,se não alugar um quarto,um modesto quarto,pois a magra pensão não dava para mais.Novamente o invadiu uma grande tristeza,onde se cruzariam,pelo menos,o ressentimento e a contrição Alguém insinuou que teria havido ali intervenção da que se vira substituida. Lá onde estaria fizera as suas queixas e fora atendida. Para que lhe servisse de emenda. Traições destas não se toleravam.

COISA ÉPICA

Hoje será muito diferente,com certeza,mas naquela noite de um frio de dezembro,há uns bons sessenta anos,a passagem por uma urgência de hospital foi assim.Declarara-se uma apendicite que pedia internamento imediato. Mas para se poder deitar na cama que o esperava,em enfermaria de larga concorrência,não foi coisa fácil. Pode dizer-se,até,sem grande exagero,que foi coisa épica.Para começar,teve de se sujeitar aos cuidados do fígaro. Se não fosse uma nota de vinte,naquele tempo era dinheiro,teria apanhado com a máquina zero. Mas havia mais etapas a vencer. Dali,pasou,sob escolta,não lhe apetecesse fugir,à secção da higiene corporal. Una tina de mármore,que mais parecia um sarcófago,estava preparada. O ar da sala,de pé direito dos antigos,era gelado e a água imitava-o. Seria constipação certa. Lá foi providencial outra nota de vinte. Ia já preparado.Estava quase lá,mas tinha ainda de mudar de farpela. Nunca se vira metido numa camisa daquelas. Parecia a de um presidiário. Mas não havia outra. Finalmente,a tão sonhada cama. O que é lá isso? Esse fio não pode estar aí. Por vezes,dá-lhes para o apertar demasiado. O que lhe valeu foi a intervenção de uma menina enfermeira que se condoeu. Deixe lá o rapaz ficar com o fio. Eu responsabilizo-me. Pôde, então, descansar e rezar com a cruz entre os dedos.

AS ÁRVORES

O que são as coisas. A vitalidade que ia por aquela horta,de que dava bem sinal o trabalhar de um motor quando a terra tinha sede,que lá por baixo correm águas bem nutridas. Uma cerca aramada a envolve.
Pois levou tudo uma grande volta,incluindo a fronteira,que,pode dizer-se,deixou de cumprir as suas funções,de tão arruinada está. Já se não ouve motor,já se não vêem hortaliças,já se não vê hortelão. Só lá permanecem as árvores,que essas, sabem dar bem conta de si,enquanto o deixarem.

sábado, 30 de janeiro de 2010

DENTAL MATURATIONAL AND DENTAL TISSUE PROPORTIONS IN THE EARLY UPPER PALEOLITHIC CHILD FROM ABRIGO DO LAGAR VELHO,PORTUGAL

http://www.pnas.org/content/107/4/1338.abstract

PASSAM DE LEVE

Surgem pela noite,imitando os morcegos. Asas não têm,mas passam de leve,como voando. Fazem pela vida,honestamente. Trazem flores,a sua mercadoria,bem acondicionada em invólucros transparentes.Onde as expõem? Procuram mesas onde se coma. Privilegiam casais de todas as idades. Não insistem. Recearão importunar.Entram,vagueiam,voejam,sem uma palavra. Palavras para quê? Alguns não as saberão e outros não lhes sobrará ânimo para as soltar.Uns serão afortunados por tocarem nos sítios certos. Outros cansar-se-ão vãmente. Mas virem de tão longe para este peregrinar é coisa triste.

COBIÇAS

Há pessoas insaciáveis. Querem sempre mais e mais. Seguem muitas vezes,na satisfação dos seus apetites,as iniciativas de outros. Nada podem ver neles que não desejem também. Parece faltar-lhes gostos próprios,necessitando de indicações alheias. Não lhas pedem,ficando apenas à espreita. Vão logo atrás,não perdendo um minuto,adquirir o que de novo viram em alguém. Vivem assim num desassossego permanente. Neste frenesim,são capazes de contrair doenças graves. Mas isso pouco lhes importa. O que lhes importa, é ficarem como os outros nos teres.Mas há desejos que não lembram ao diabo. Cria um pai o filho com todo o carinho,dá-lhe os brinquedos que ele quer,está sempre pronto a satisfazer-lhe a mínima vontade,e um dia,lá para diante,invertem-se os papéis.É o pai a bater à porta do filho. O pai ainda não é muito velho e está ali muito capaz de todas as curvas. E sabem o que dois pais se lembraram de pedir a dois filhos? Pois pediram-lhes as namoradas. Pediram e não demoraram muito a casarem-se com elas.Os filhos ficaram para morrer,pois gostavam das moças. Não aconteceu assim,mas não mais foram os mesmos.