É pintor de interiores o senhor Francisco. Anda nisto há um ror de anos,tantos que até já lhe perdeu o conto. Deita mãos aos pincéis logo de manhazinha,só os largando pela noite dentro. Aos domingos,faz uma pausa,mas mais porque é um pau mandado e o sócio tem outras exigências. O corpo é franzino,mas rijo. Diz que esteve apenas uma vez doente,com uma forte gripe. Mas só faltou um dia à chamada. Podia lá estar sem as suas tintas. Tinto é também o seu líquido preferido. Às vezes, exagera,sobretudo em dias de folga. Tem um grupo de gente fixe com quem se diverte à grande. Volta não volta,dão grandes passeatas. Até já foram à Galiza. É que a vida não é só trabalhar. Com este modo de vida,o que mais se poderia esperar do senhor Francisco? A bebida será para ele um refúgio e até um resguardo para as correntes de ar que tem de apanhar,com as janelas sempre todas abertas. Não sabe fazer mais nada. Nem a bola o atrai,pois não sabe ler lá muito bem. Pouco informado,como é que acompanharia as conversas? Os companheiros do grupinho fixe serão também dos seus,pelo que ficará tudo em família.
domingo, 2 de maio de 2010
TRÂNSITO
Então,ainda andas por cá? Coitado dele,sem eira,nem beira,quer dizer,sem cheta,andava a empatar o trânsito.
sábado, 1 de maio de 2010
BOA CONTA
Veio a Primavera e as árvores da quinta renovaram-se. O portão e o muro não as imitaram. Quer dizer,a Natureza,ainda que abandonada,sabe dar boa conta de si.
CUIDAR DOS SOLOS
Por razões de subsistência,ao derrubarem-se florestas,ao arrotearem-se matos,perturbou-se o natural desenvolver dos solos,sob a tripla acção biológica,quimica e física,solos esses que são muitos,com os seus perfis típicos. Mais se perturbou, quando se largaram instrumentos rudimentares e se substituíram ajudas orgânicas por químicas,que a familia não parava de aumentar . Dada a inevitabilidade de não se poder voltar atrás,é claro que se sente, se compreende,que ,cada vez mais.se tem de cuidar dos solos, de que tem vindo o sustento,de modo a acautelar o futuro. Para isso, tem-se investigado,tem-se mudado de técnicas,tem-se acompanhado as alterações ,tem-se actuado procurando não estragar mais o que já se estragou,tentando recuperar o mais que se puder. E é o combate à erosão,e é o evitar perdas por lavagem,por volatilzação,e é o não salgar demasiado com a rega,e é a passagem do cultivo convencional para o da sementeira directa,e é a adubação com conta,peso e medida,e são as rotações,e é a inclusão de leguminosas,estando de sobreaviso,que as leguminosas acidificam,e é o deixar na terra a maior parte dos resíduos,sem que se prejudique o manejo do cultivo,...Enfim,tem-se ido adaptando,sempre alerta,que é o futuro,de uma comunidade a dilatar,não se sabe até onde,e até quando,que está em causa.
UM GELADO
Já devia ter ultrapassado o cabo dos noventa,ou talvez não,que isto de idades tem muito que se lhe diga. Caminhava quase em ângulo recto,apoiado numa bengala e numa canadiana. Conseguira descer uma escadaria de dois lanços,atravessara a rua e embrenhara-se no jardim. Avançava muito tentamente e,enquanto o fazia,soltava gemidos. Eram ais,numa toada que lembrava,das fitas,a dos remadores das galés. Ele também seria uma,já muito gasta,a desconjuntar-se,mas que ainda se mantinha navegando. Só que nela havia apenas um único tripulante. A cabeça seria a proa. O fluido envolvente deixar-se-ia abrir,sem resistência,com pena dele. E a embarcação lá ia,muito arrastadamente,mas ia. Parou junto a um quiosque. Encostou os apoios e ergueu com esforço a cabeça. Pediu um gelado,pagou,recebeu o troco e retomou a navegação,mas por apenas mais uns metros. Sentou-se num banco,pousando a iguaria ao lado. Tossiu,assoou-se,instalou um cigarro na boca e acendeu-o. Tudo isto sem pressas,como que antegozando o festim. Finalmente,chegou o grande momento. Chupava,dava uma fumaça,tossia e olhava. Para onde? Ficaria isso com ele.
TESTEMUNHO
A vida pode ser vista como uma corrida de estafetas. Entrega-se,passa-se,o testemunho, ao senhor, ou à senhora,que se segue.
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