quarta-feira, 3 de março de 2010
SEMPRE SÓ
Naquela manhã,apeteceu-lhe ir até à beira-rio. A temperatura amena convidava a desentorpecer as pernas. No céu,uma barreira de nuvens escondia o sol. A companhia era escassa. Num carro,o condutor punha-se a par das últimas da bola,e uma cana de pesca estava montada na ponta do esporão. Sentou-se,a olhar para as águas castanhas que vinham bater mansamente na muralha. O barco da carreira lá ia em mais uma viagem. As gaivotas estavam recolhidas. Um homem aproximou-se e sentou-se. Trazia a camisa aberta e sobraçava um jornal. Deslocava-se com dificuldade. A cara não lhe era estranha. Já o vira algumas vezes,sempre só. Então,anda também no seu giro? Tinha dificuldade em se exprimir,mas lá se percebia. Estava reformado e o jornal era para regressar ao quiosque ,depois de o ler. De súbito,pôs uma pergunta. Quer que lhe faça alguma coisa? A resposta tardou. Interpretando, ou nã,o o silêncio,vá-se lá saber o que lhe ia na cabeça,como um consentimento,chegou-se mais e a sua mão,onde luzia uma aliança,avançou,pairando. Não se lhe deu tempo para ele a pousar. Já se estava fazendo tarde para ir pelas sopas. Ele levantou-se também, e lá foi devolver o jornal,caminhando,ao longo de largo passeio,muito lentamente,de modo trôpego,olhando para o chão.
O PEDIDO
Era ele um velhinho muito pobre. Não se sabia onde morava. Numa manhã de bater o queixo,um menino de bom coração,com muita pena do velhinho,fez-lhe algumas perguntas. Onde moras? É conforme. Ao ar livre,no chão ou num banco, debaixo de uma ponte,num buraco,sítios assim. Não tens frio,não tens dores,não tens fome? Já não sinto nada. Não tens tido doenças? Sim,muitas,mas o tempo tudo cura.Tu não choras? Já chorei tudo. Não andas triste? Já gastei toda a tristeza. Não acreditas em Deus? Sim. Então,porque não Lhe pedes para te ajudar? Não estou para isso. Ele,coitado,deve ter muito em que pensar. Não Lhe quero dar mais trabalhos. Mas se um dia te desse para Lhe pedir uma coisa,o que seria? Olha,pedia-Lhe a Morte. Mal ele disse isto,desmaiou. O menino muito aflito,foi logo chamar a mãe,que estava ali perto. Uma ambulância levou-o ao hospital. Nunca mais viram por ali o velhinho. Deus deve-lhe ter satisfeito o pedido.
DESOLAÇÃO
A fronteira devia estar perto. Não se via,mas era como estar pisando chão de ninguém,chão onde,por assim dizer,não havia lei. Para isso,concorria muito o serem os terrenos à vista de fraca valia. Era uma desolação. Quase nem se dava por uma ervinha. Teria sido fácil traçar ali uma linha divisória.
terça-feira, 2 de março de 2010
AO MESMO CLUBE
A coisa conta-se depressa. A mocinha negra dava clara indicação de que muito em breve germinaria. E aproveitou,interpretando correcta,ligeira e prazenteiramente, a condição daquela fila. Também tinha direito,pois então,ela que não estaria habituada a tal cortesia. O que ela foi fazer. Uma velha,daquelas tronchudas e mal encaradas,logo reagiu. Qualquer dia também arranjo uma almofada. Mas não se ficou por aqui. A menina da caixa,por sinal,negra também,que viera com justificações,levou, igualmente, a sua conta. Vê-se mesmo que pertencem ao mesmo clube.
QUE SAUDADES
Pois ela tinha muito para contar. Durante anos,acreditara no destino,que fora assim que a sua mãe lhe ensinara. Mas,depois de muito pensar,chegara à conclusão de que não devia ser bem assim. Ainda que houvesse uma certa sina,com força de vontade tudo se podia alterar. E o caso dela era bem uma prova disso. Divorciara-se e estivera para morrer,ou melhor,entrara em forte depressão. Mas, com muito querer ,vencera-a. Naquela altura,sentia-se dona de si. Havia,porém,algumas didiculdades. Não tinha emprego e ficara com uma filha. O pai atrasava-se ,às vezes ,com a prestação. Estava ali a ver se ele já fizera o depósito em falta,que bem precisada se encontrava. A filha andava com muitas exigências. O que lhe valia era a mãe,coitada,que vivia de uma boa pensão. Passava a maior parte do tempo com ela,embora tivesse a sua casinha. Estava também atravessando um mau bocado. O prédio ia ser demolido e queriam pô-la num quarto com uma vizinha ou então davam-lhe dinheiro. Não sabia o que fazer.Vinha mesmo a calhar o fim do mundo. Aproximava-se o ano dois mil. Uma vizinha,muito crente, afiançara-lhe que o fim chegaria por fases. Por onde iria começar era a sua grande preocupação. Tudo isto a fizera desinteressar de muitas coisas,como de eleições. Nunca votara. Eram todos os mesmos. Só votaria num que a empregasse. Dantes não havia nada disto. Que saudades. Ela estava ainda nova e podia ser que as viesse a matar.
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