segunda-feira, 1 de março de 2010
INTEIRA
Era uma frágil vara que fora lançada a um rio,muito perto da nascente. E lá viera ela por ali abaixo,encalhando ali,libertando-se além. Parecia,às vezes,ficar retida de vez,mas assim não calhou,vá-se lá saber porquê. Certo é que a pobre vara acabou por chegar à foz,sumindo-se no mar. Andou nisso uma vida. No final,não era,via-se bem,a mesma vara lá do começo da arriscada aventura. Estava cheia de marcas,das pancadas que levara. Mas entrara inteira no mar.
INVERNO
http://www.flickr.com/photos/lambertwm/3188659039/sizes/l/
http://www.flickr.com/photos/harmrhebergen/3195336082/sizes/o/
http://www.flickr.com/photos/gilderic/4215650541/sizes/l/
http://www.flickr.com/photos/40386452@N05/4348872756/sizes/o/
http://www.flickr.com/photos/xfp/3209424840/sizes/o/
http://www.flickr.com/photos/mladjenovic_n/3196807173/sizes/l/
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SOBRE O CARBONO
Como se sabe,são muitos os modos de manter,temporariamente,o carbono fora do seu ciclo activo. É o caso da matéria orgânica dos solos,é o caso das árvores,das madeiras,das mobílias,da cortiça. Enquanto não houver decomposição microbiológica,quer por via aeróbia,ou anaeróbia,
enquanto combustão não ocorrer,o carbono permanece como tal,e não como anidrido carbónico,o seu,por assim dizer,destino final. Assim,de modo tímido,todos esses materiais imitam os seus irmãos fósseis,quando os deixam lá estar no seu sono de milhões de anos.
enquanto combustão não ocorrer,o carbono permanece como tal,e não como anidrido carbónico,o seu,por assim dizer,destino final. Assim,de modo tímido,todos esses materiais imitam os seus irmãos fósseis,quando os deixam lá estar no seu sono de milhões de anos.
O SEU BAÚ
Teria,quando muito,vinte anos. Pode dizer-se que estava no seu apogeu. Assim o entenderia ela. A dona do mundo,a sua rainha.Para melhor ver o mundo,o seu reino,ou antes,para que melhor o mundo a visse,a sua rainha,estava de pé,com óculos escuros,feita estátua,do mármore mais fino,de mármore de Carrara.Dos ombros largos,pendia avantajada mala,o seu baú de preciosidades. Dele tirou um maço de cigarros,ainda intacto. Abriu-o e lançou parte da tampa par o chão. Um servo que a apanhasse.Pegou num cigarro e acendeu-o,recorrendo ao seu baú. Os gestos eram lentos,a modos que estudados. Uma rainha tem de saber comportar-se. Toda ela se expunha.Chegara a altura da sessão musical. Os auscultadores já estavam montados. Foi só premir os botões certos. E ali ficou,meneando a cabeça,mexendo os lábios. Parecia ter esquecido o mundo. Uma ingrata.Tantas canseiras dos paizinhos e talvez,também,dos avôzinhos. Tantos carinhos deles,tantos sonhos deles. Para isto. É a vida.
TINTEIRO DE VIDRO
Por aquele andar,um dia, ainda se dava ali uma tragédia. Não se deu,mas esteve lá muito perto. Era uma sala ampla,com um anel de secretárias para os trabalhadores. Seriam uns seis,naquela altura. Todos jovens. Estava a sala passando por um mau bocado. Trabalho não vinha e eles cheios de vontade para fazer coisas. O ambiente era,pois,sem exagero,de cortar à faca.Dois deles,sentados frente a frente,não se perdiam de amores um pelo o outro,vá-se lá saber porquê. Feitios. De vez em quando,por razões de pouca monta,lá quase explodiam. E certa manhã,talvez por ter acordado muito mal disposto,um deles, pegou num tinteiro de vidro,cúbico,pesado,de arestas afiadas,e atirou-o,com ganas,ao inimigo. Não acertou no alvo,simplesmente porque ele já lá não estava. Silêncio, de túmulo. Frio,de morte. Espanto,de incredulidade. Como fora possível? Continuaria a sê-lo, pois os ingredientes tinham cara de permanecer. Um dos outros,talvez o mais novo,muito amedrontado,tomou logo ali uma decisão. Tinha de sair daquele barco, e sem muita demora. Conseguiu. Mas outros barcos,algo parecidos,o esperavam.
SUA VIDA
Aquilo não tinha qualquer jeito. É que passavam a vida a implicar-se mutuamente,não fazendo,
podia dizer-se,outra coisa. E isso,ainda que caíssem raios e coriscos,mesmo ali à sua beira. Parecia,até,serem todos da mesma família. E lá iam comendo,e lá se iam divertindo,e quem não gostasse fosse lá à sua vida.
podia dizer-se,outra coisa. E isso,ainda que caíssem raios e coriscos,mesmo ali à sua beira. Parecia,até,serem todos da mesma família. E lá iam comendo,e lá se iam divertindo,e quem não gostasse fosse lá à sua vida.
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